Leitor: para os principais bancos do mundo, é mais arriscado apostar no Brasil que na Argentina

Alexandre Cabral

18 de janeiro de 2016 | 18h41

Uma vez o compositor clássico alemão Johannes Brahms disse uma frase que serve muito para o momento atual:
– “A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas”.

É assim que estamos hoje, sem confiança. O objetivo deste texto é mostrar, em números (calma leitor, coisas básicas), que os principais bancos do mundo acham que é mais confiável aplicar na Argentina que no Brasil.

Para se ter uma ideia, o Brasil, no dia 27 de março de 2013, conseguia pegar dinheiro emprestado, em dólar, a juros de 1,91% ao ano. Já a Argentina, nessa mesma época, captava por 13,37% ao ano. Hoje, para tomar esses empréstimos, estamos pagando 5,33% ao ano, enquanto a Argentina consegue taxa de 4,98% ao ano. Os dados têm como fonte o EMBI do banco americano JPMorgan.

Antes de aprofundar, vamos àquela tradicional introdução:
O que é EMBI?
A sigla EMBI significa Emerging Markets Bond Index (Taxa dos Títulos dos Países Emergentes), também conhecida como “risco país”.

Quem calcula?
O banco americano JPMorgan.

Como é calculado?
Com base nos principais títulos emitidos por cada país.

O que significam os 500 que você vê na imprensa?
Esses 500 significam 500 pontos, sendo cada ponto equivalente a 0,01% ao ano. Portanto, 500 pontos significam uma taxa de 5,00% ao ano.

Se o Brasil tem cotação de 500 pontos, o mercado financeiro está dizendo que nosso país, em média, emite títulos no exterior pela taxa de juros americana, mais 5,00% a ano. Assim, se considerarmos que a taxa de juros nos EUA está em 0,25% ao ano, concluímos que o Brasil consegue emitir títulos por 5,00 + 0,25 = 5,25% ao ano – não esquecendo que a taxa está em dólar. Quanto maior esse percentual, pior para o Brasil. Para facilitar a vida do leitor, irei trabalhar com porcentagem ao ano, em vez de pontos.

Qual a diferença entre esse índice e o calculado pelas Agências de Rating?
Para calcular o EMBI+, ou o risco país, o JPMorgan leva em consideração os títulos já emitidos pelo país no mercado mundial, achando uma taxa média de negociação, de acordo com alguns critérios. Aqui a nossa situação está pior que a da Argentina.

Já as Agências de Rating (Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s) levam em consideração a expectativa da economia de cada país e, conforme seus critérios, dão uma nota. Na avaliação de todas as três agências, estamos melhores que a Argentina.

Detalhe: eu busquei no IPEA e no ambito.com a séria histórica do EMBI Brasil, mas infelizmente só consegui encontrar o período entre 03 de janeiro de 2000 e 15 de janeiro de 2016.

Um pouco de história para entender o hoje
Entre 03 de janeiro e 20 de fevereiro de 2001, tirando um ou outro dia, era mais confiável aplicar na Argentina que no Brasil, na visão dos principais investidores mundiais. Naquela época, ainda pagávamos o custo da desvalorização cambial ocorrida em janeiro de 1999. A situação, portanto, tinha tudo a ver com a palavra confiança: os investidores ficavam com receio de colocar dinheiro no Brasil. Com o tempo, porém, mostramos que tínhamos condições de fazer um bom trabalho e o cenário mudou. Chegamos a pagar, para captar no exterior naquele período, uma taxa de juros de 8,23% ao ano em dólar, enquanto, naquele mesmo momento, os argentinos captavam por 7,14% ao ano. Já no dia 20 de fevereiro, estávamos tomando recursos no exterior por 7,15% ao ano. E eles, por 7,14% ao ano.

Naquele ano, a situação da Argentina começou a se agravar, até que, em 23 de dezembro de 2001, o país declarou moratória (trocando em miúdos, o governo argentino disse: hoje não tenho condições de pagar a dívida que tenho com você, mas um dia posso pagar. Vamos negociar?). A situação era tão grave, que o desemprego por lá estava na casa dos 18,3% e a economia tinha encolhido 20% entre 1998 e 2001. No dia 24 de dezembro de 2001, a Argentina só conseguia captar recursos no exterior, se oferecesse uma taxa, em dólar, de 55,01% ao ano! Uma captação impossível de ser honrada.

A situação ficou assim, ruim, até 12 de junho de 2005, quando o governo do presidente Néstor Kirchner conseguiu, em poucos dias, renegociar a dívida, reduzindo a taxa de captação de 66,07% ao ano para 7,95% ao ano. Naquela época, a taxa para o Brasil estava cotada a 4,29% ao ano.

Até 2007, as oscilações se mantiveram, ora com o Brasil pagando mais caro, ora com a Argentina enfrentando taxas mais altas. Mas a diferença entre as taxas dos dois países nunca ficou muito maior que 1,50% ao ano.

A partir de 2007, os investidores estrangeiros passaram a confiar mais no Brasil que na Argentina. A diferença máxima foi vista em 25 de março de 2009, quando a taxa de captação para o Brasil, em dólar, estava cotada a 4,17% ao ano, enquanto a Argentina amargava 19,60% a ano.

Em 2011, quando a presidente Dilma Rousseff assumiu o primeiro mandato, nossa taxa de captação de recursos no exterior estava em 1,89% ao ano. Na época, o Brasil crescia bem e os investidores estavam confiantes.

Essa confiança começou a se perder no fim de 2014, com a confirmação da reeleição da presidente. Para se ter uma ideia, em 31 de dezembro daquele ano, a nossa taxa era de 2,59% ao ano e a da Argentina, de 7,19% ao ano. Desde então, nossos números só vêm piorando e hoje estamos trabalhando com taxas de 5,33% ao ano, enquanto a Argentina paga 4,98% ao ano. Desde 11 de dezembro de 2015, estamos com taxas piores que as da Argentina.

Resumindo: durante anos, fomos um país mais respeitado que a Argentina, conseguindo emitir títulos no mercado mundial a taxas bem melhores que as deles. Os bancos confiavam no Brasil e isso era percebido por meio dos custos de captação (ou risco país): chegamos a ter taxas negociadas a menos de 2,00% ao ano, em dólar! Só que, com o tempo, a crise de confiança se instalou e essa taxa começou a subir. Hoje captamos a 5,33% ao ano, taxa mais alta do que a paga pela Argentina, cuja economia, para algumas pessoas, deveria ser menos confiável que a brasileira, uma vez que possui notas de crédito, atribuídas pelas agências de rating, piores que as nossas.

Mais quais os motivos dessa mudança?

A resposta pode ser resumida em uma palavra: CONFIANÇA.

Hoje os investidores acreditam mais nas propostas do Mauricio Macri (presidente da Argentina) do que nas da nossa presidente. Algumas medidas tomadas pela Argentina que agradaram o mundo:

– Desvalorização do peso frente ao dólar: o câmbio estava completamente defasado e prejudicava o comércio deles.

– Eliminação de vários entraves para exportação e importação, ajudando a livre circulação de mercadorias. Exemplo dessa medida foi a eliminação dos tributos sobre as exportações de grãos. Essa tributação havia sido criada pelo governo anterior, para forçar a venda para o mercado local.

– Processo de reavaliação de aproximadamente 15% dos contratos assinados pelo governo anterior, para ver se não tem nada feito de maneira errada.

– Pedido de liberação de presos políticos na Venezuela.

– Normalização das relações com o Uruguai, que estavam bastante conturbadas.

– Conversas com os investidores internacionais que estão processando a Argentina nos tribunais americanos, em busca de acordo que tire o país da situação de calote

Enquanto isso, tivemos no Brasil:
– Brigas durante todo o ano de 2015 entre o Executivo e o Legislativo.

– Colhemos os resultados de medidas tomadas em 2013 para segurar a inflação, mas que surtiram o efeito contrário, com forte alta dos preços em 2015. (Uma dessas medidas, já comentadas em texto anterior, foi a decisão do governo de segurar, por decreto, o preço da energia elétrica).

– Vivemos um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil, envolvendo uma empresa de capital misto (Petrobrás) e vários políticos e empreiteiras, fazendo com que muitos investidores passassem a ter receio de colocar recursos em nosso país.

– O governo brasileiro demorou a perceber que a situação não era confortável nos últimos anos e, com isso, não tomou medidas para melhorar nossa economia, levando o desemprego a bater 9% e a atividade econômica a encolher mais de 3% em 2015.

– E ainda contamos com um fator externo que vai afetar diretamente o Brasil: a diminuição do crescimento da China. Exportamos vários produtos para o mercado chinês e a perda de fôlego deles acaba afetando as nossas empresas.

Conclusão
– “A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas”.

Espero que o Brasil aprenda essa lição e trabalhe para retomar a confiança dos investidores tão rapidamente como a Argentina está conseguindo fazer. Ficar entre os líderes mundiais de queda da economia em 2016 não fará bem a ninguém.

Estava esquecendo: eles já têm o Papa e o Messi. Agora conseguem captar a taxas melhores que as nossas? Não, nós não merecemos isso.