Mulheres: que tal conhecer melhor o Tesouro Direto? (Texto 1)

Mulheres: que tal conhecer melhor o Tesouro Direto? (Texto 1)

Alexandre Cabral

31 de março de 2017 | 12h24

Estava lendo dados divulgados pelo Tesouro Nacional sobre as aplicações das mulheres no programa Tesouro Direito e fiquei abismado: atualmente apenas 24,8% dos investidores são mulheres. E olha que essa é a maior participação feminina de toda a série histórica do Tesouro. Fui tentar descobrir o motivo e a grande maioria me diz que é por falta de conhecimento. Pois então quero ajudar a acabar com as dúvidas. Mas antes eu tenho que cantar: “Dizem que a mulher é o sexo frágil. Mas que mentira absurda. Eu, que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas” (Erasmo Carlos)

Tiago Queiroz / Estadão

Tiago Queiroz / Estadão

 

A primeira pergunta é “o que é o Tesouro Direto?”. Para respondê-la, vou criar uma lógica de raciocínio para os leitores.

Imagine que você ganha R$ 1.000,00 por mês e gasta R$ 1.200,00. A conta não vai fechar. Falta dinheiro para bancar as despesas. Qual seria uma das soluções possíveis? Pegar dinheiro emprestado com o banco para cobrir os R$ 200,00 de que você precisa.

Essa situação é parecida com a do governo. Imagine que ele precisa gastar R$ 100 milhões no mês, mas só conseguiu arrecadar R$ 90 milhões. Opa! Estão faltando R$ 10 milhões. O que ele pode fazer? Pegar dinheiro emprestado com os bancos. Como garantia para esse empréstimo, entrega às instituições financeiras títulos de dívida emitidos por ele, governo. São os famosos títulos públicos. (Obs: claro que esse é um exemplo simples do que pode ser feito em uma situação de déficit. Existem outras soluções).

 

E qual a vantagem para os bancos?

Eles conseguem uma remuneração para seus próprios recursos, já que o governo vai pagar juros pelo empréstimo obtido.

 

Então, até aqui, já entendemos que, quando o governo precisa de dinheiro para fechar o mês, ele pega dinheiro emprestado com os bancos e entrega para eles um título como garantia. Só que esse empréstimo não é feito somente junto aos bancos. O governo também recorre a fundos de investimento, fundações, investidores estrangeiros e, mais recentemente, pessoas físicas. É aí que entra o Tesouro Direto.

 

Então o que é o Tesouro Direto?

É um programa do governo federal que tem como objetivo vender títulos públicos para as pessoas físicas. O Tesouro Direto foi lançado em 2002, em parceria com a Bolsa de Valores.

 

Ok, entendi que eu também posso comprar esses títulos. Mas onde?

Em várias instituições financeiras, como bancos, corretoras ou distribuidoras de valores. Para isso, é preciso fazer um cadastro na instituição escolhida. Certamente o seu banco oferece essa modalidade de investimento. Só que muitas dessas instituições cobram taxas por esse tipo de serviço. Os valores variam bastante, umas cobram mais caro, outras, mais barato. Então é muito importante que, antes de decidir com quem comprar, você faça uma pesquisa e compare os preços. Afinal, todas essas instituições financeiras vão prestar a você basicamente o mesmo serviço: negociar os títulos em um sistema eletrônico. Algumas aceitam também a aplicação via funcionários das instituições. E outras liberam, como auxílio, relatórios mensais com recomendações de investimento.

 

Como saber quais são as instituições financeiras participantes?

Neste endereço aqui: http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro-direto-instituicoes-financeiras-habilitadas

 

Ok. Ficou claro que eu consigo investir meu dinheiro em títulos públicos, por meio do Tesouro Direto. Também entendi que, para isso, dependo de uma instituição financeira, onde devo me cadastrar. Já sei onde encontrar as instituições habilitadas e o que levar em consideração antes de decidir qual delas vou contratar. Mas e quanto ao valor a ser investido? Para aplicar no Tesouro Direto, preciso de muito dinheiro?

Não!!!!! O investimento mínimo varia de R$ 30,00 a R$ 100,00, dependendo do título que você escolher. “Para tudo! Só isso?”. Sim, só isso. Aí você pode se perguntar: “mas por que o governo permite investimentos com valores tão baixos? Bonzinho demais, deve ter algo errado”. Relaxe, não há nada de errado. Ao colocar em prática o Tesouro Direto, o governo quis democratizar o investimento, dando oportunidade aos cidadãos comuns para aplicar nos títulos públicos. Excelente atitude.

 

Gostei da ideia. Tenho R$250,00 para aplicar. Quero fazer isso já.

Deixa eu contar para você uma coisa mais legal ainda: você pode aplicar no Tesouro Direto entre 9h da manhã de um dia e 5h da manhã do dia seguinte. É isso mesmo. O sistema permite aplicação durante 20 horas por dia. Você vai me perguntar: “como assim?”. E eu vou te responder: a ideia do governo é não submeter a aplicação à rigidez do horário de funcionamento dos bancos, uma vez que se trata de um investimento pensado para as famílias. Assim, fica mais fácil inserir o Tesouro Direto no atribulado dia a dia das pessoas. Por exemplo: no jantar, a família percebe que sobrou dinheiro e que dá para aplicar esse recurso. Se dependesse do sistema bancário tradicional, não seria possível fazer essa aplicação imediatamente, pois os bancos já estariam fechados. E, no dia seguinte, a correria dos afazeres poderia levar a família a deixar de lado o investimento. Com o horário estendido, dá para a família se organizar melhor e deixar as operações no Tesouro Direto para um momento de mais tranquilidade.

E ainda tem um detalhe: no fim de semana, enquanto as instituições financeiras estão fechadas, o horário de aplicação no Tesouro é ainda mais estendido. O sistema abre às 9h da manhã de sexta-feira e só vai fechar às 5 horas da manhã de segunda-feira. Ou seja, é possível fazer aplicações durante todo o fim de semana. (só não se esqueça de que as operações só são permitidas depois de fazer o cadastro na instituição financeira escolhida).

 

Mas, se eu resolver comprar um título às 2h15 da madrugada, como vou pagar?

Aí são duas opções: no dia seguinte à data base, ou a sua conta é debitada diretamente, ou você precisa fazer a transferência dos recursos para a instituição financeira contratada. E o que é a data base? É o dia em que o sistema abre. Por exemplo: se você comprou um título entre 9h da manhã de segunda e 5h da manhã de terça, a sua data base é segunda. Portanto, o pagamento precisa ser feito na terça-feira. Ok?

 

Vamos falar agora sobre resgate.

Você pode resgatar o seu dinheiro na hora em que desejar, mas tem um detalhe importante: você só vai receber no dia seguinte. Por exemplo: se pedir o resgate na segunda-feira, vai receber o seu dinheiro na terça. Repare que é o mesmo raciocínio da aplicação: se você compra o título em um dia e paga no dia seguinte, você também resgata em um dia e recebe no dia subsequente. Então, quando perceber que vai precisar do dinheiro, é preciso se organizar para fazer o resgate com um dia de antecedência ou deixar programado no sistema se souber que irá precisar dos recursos daqui a 10 dias, por exemplo. Não vejo muito problema para isso. É só se programar.

 

Muitos perguntam se o investimento é arriscado.

Na realidade, todos os investimentos oferecem riscos, mas a chance de o governo dar um calote nos títulos públicos é muito baixa. E, se isso ocorrer, vai atingir todo o sistema financeiro, uma vez que todas as instituições também têm em sua carteira títulos públicos. Ou seja, se o governo deixar de pagar, provavelmente o Itaú, o Bradesco e o Santander também vão tomar calote. Sem contar que isso significaria que o Brasil quebrou. Assim,  possivelmente até a sua aplicação na caderneta de poupança teria problemas.

Resumindo: é um investimento altamente seguro. A chance de tomar um calote é tão baixa quanto na caderneta de poupança. E só mais um detalhe: a cada mês, em média, 18 mil novos investidores aderem ao Tesouro Direto. Por que você está de fora?

 

Mas quais títulos eu posso comprar?

São 5 títulos diferentes, com diversos vencimentos, como:

– Tesouro Prefixado: você já sabe qual será o rendimento desde o momento em que aplica, pois a taxa é definida na largada.

– Tesouro Selic: é um título pós-fixado, indexado à taxa Selic.

– Tesouro IPCA: você irá receber toda a inflação do período do investimento, mais uma taxa de juros. É o melhor título para investimentos de longo prazo.

– Tesouro Prefixado com juros semestrais: mesmas regras do Tesouro Prefixado, só que você vai receber juros a cada 6 meses.

– Tesouro IPCA com juros semestrais: a cada 6 meses, você recebe os juros acumulados e, no vencimento, recebe o valor que aplicou, remunerado pela taxa de inflação (IPCA).

 

E o prazo de vencimento?

Tem diversos, desde 2020 até 2050. “2050?”. Sim, mas não se esqueça de que você pode resgatar a qualquer momento, não precisa levar até o vencimento. O Tesouro garante a recompra diariamente.

Mas tem um detalhe importante: se sair antes do vencimento, vai precisar vender o título pelo preço do dia e aí, dependendo da modalidade que você comprou e da cotação do papel no mercado, pode até ter perda. Em outras palavras, para alguns tipos de título, aquele rendimento que você contratou no momento da compra, só é garantido se você mantiver o investimento até o vencimento. Se sair antes disso, está sujeito às condições de mercado.

É por isso que, ao escolher um título, você deve levar em consideração se é um investimento que você pretende manter por mais tempo ou se há grandes chances de você precisar do dinheiro antes do vencimento. Se for esse último caso, o Tesouro Selic pode ser a melhor opção, pois permite o resgate antes do vencimento sem gerar perda. Por outro lado, outras modalidades, desde que levadas até o vencimento, podem garantir um rendimento maior.

 

O que seria preço do dia?

É quanto o título está valendo no dia em que você resolver resgatar (vou explicar isso melhor nas próximas semanas).

 

Resumindo esse artigo

Você, investidora, pode aplicar o seu dinheiro em títulos públicos (títulos emitidos pelo governo Federal). E isso pode ser feito em várias instituições financeiras autorizadas, com aplicação mínima de cerca de R$ 30,00. Não se esqueça de que você tem várias horas do dia para fazer essa aplicação. E que, para fazer o resgate, precisa se programar um pouquinho, pois não irá receber o dinheiro na hora e, sim, no dia seguinte.

 

O que eu devo para vocês, meninas.

Três textos onde irei detalhar cada um dos 5 tipos de títulos que citei neste artigo. Nesses textos, eu pretendo explicar com detalhes a questão da marcação a mercado (que submete o papel à cotação do dia).  E escreverei com carinho sobre investimentos não somente para vocês, mas também para seus filhos. Vamos começar a juntar dinheiro para eles? Não se esqueçam de que as crianças são nosso maior tesouro!

 

Dedico esse texto a várias mulheres que eu tenho na minha vida: minha mãe Vandette, minha irmã Cláudia, minha esposa Loraine e minhas meninas, Júlia e Mariana. Obrigado por estarem no meu convívio familiar. Vocês, cada uma a seu modo, são importantes demais para mim.

 

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