Na era Dilma (2011-16), crescimento do Brasil ficará pior que de Argentina e Bolívia (Fonte: FMI)

Na era Dilma (2011-16), crescimento do Brasil ficará pior que de Argentina e Bolívia (Fonte: FMI)

Alexandre Cabral

16 de abril de 2016 | 17h59

Presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda Nelson Barbosa. Foto: Beto Barata/Estadão

Presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda Nelson Barbosa. Foto: Beto Barata/Estadão

Dados atualizados pelo FMI nesta semana mostram que, no ranking de crescimento econômico no período 2011-2016, o Brasil está na posição 172, de um total de 189 países. Estamos atrás, por exemplo, de Argentina, Bolívia, Chile, Congo e Nigéria, entre outros. Vamos responder à seguinte pergunta: por que será que só nós não estamos crescendo?

No dia 04 de fevereiro último, escrevi um texto que intitulei “PIB da era Dilma em ritmo de Quarta-feira de Cinzas!”. Nele, comecei a falar sobre esse assunto. Vamos então atualizar os dados.

Antes, uma pequena explicação

Objeto de estudo: a variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos principais países do mundo.

Definição de PIB: O Produto Interno Bruto é a soma de todos os bens e serviços produzidos por um país. Todos os países do mundo calculam o seu PIB, nas respectivas moedas. No Brasil, portanto, o PIB é a soma, em reais, de todos os bens e serviços que produzimos por aqui.

Onde peguei os dados: para evitar qualquer dúvida, consultei o site do FMI – Fundo Monetário Internacional.

Para adotar uma única linguagem entre os diferentes países, vou considerar os dados em dólar – já convertidos pelo FMI.

A variação em percentual, porém, será na moeda de cada país. Portanto, a variação do nosso PIB será calculada em reais e a dos demais países, em suas respectivas moedas. Um padrão usado por nós, economistas.

Os dados de 2015 e 2016 são expectativas do PIB, pois, na maioria dos países, esses dados ainda não são oficiais.

Como separei os dados

De dois modos: primeiro considerando todos os 189 países do ranking e depois levando em conta apenas as 36 principais economias do mundo. Não esquecendo que estou estudando o período entre 2011 e 2016.

Parte 1

Se considerarmos somente o período entre 2011 e 2016 (que foi o período em que a Dilma governou), crescemos, em média, 0,17% ao ano e ficamos na posição 172 do total de 189 países. Sério? Sim, isso mesmo! Dentre os países desenvolvidos, só ficamos à frente de 3: Finlândia, Itália e Portugal. Fomos derrotados por quase todos os nossos colegas da América do Sul, como Chile, com crescimento médio de 3,42% ao ano; Bolívia, com taxa média de 5,20% ao ano; e Argentina, que já tem o Papa e o Messi e ainda cresceu, em média, 2,09% ao ano. Nada demais, só 12 vezes (!) mais do que o Brasil – em percentual e não em dólares. Na América do Sul, superamos apenas a Venezuela (pelo amor de Deus, ganhar da Venezuela não é vantagem nenhuma). Pior ainda é perder para países em guerra. Vamos citar alguns: Congo, com crescimento médio no período de 7,37% ao ano, e Nigéria, com crescimento médio de 4,31% ao ano.

Variação do PIB por país, em ordem de data entre 2011 e 2016:

– Bolívia: +5,20% (2011), +5,10% (2012), +6,80% (2013), +5,50% (2014), +4,80% (2015) e +3,80% (2016). Acumulado de 35,52%, médio de 5,20% ao ano.

– Argentina: +8,40% (2011), +0,80% (2012), +2,90% (2013), +0,50% (2014), +1,20% (2015) e -1,00% (2016). Acumulado de 13,21%, médio de 2,09% ao ano.

– Brasil: +3,90% (2011), +1,90% (2012), +3,00% (2013), +0,10% (2014), -3,80% (2015) e -3,80% (2016). Acumulado de 1,02%, médio de 0,17% ao ano.

Mas aí o leitor pode argumentar: nesse ranking, estamos sendo comparados a países que têm o PIB menor do que muita capital brasileira. Verdade. Vamos então fazer uma peneira e, depois disso, discutir o que ocorreu com o Brasil nos últimos anos.

Parte 2

Fiz um novo filtro: considerando a expectativa para o ano de 2016, coloquei os países em ordem de tamanho do PIB, do maior para o menor, e parei em 90,29% do PIB mundial. Fiquei então com 36 países, que devem produzir 90,29% de todos os bens e serviços em 2016.

Vejamos então como fica nossa posição:

Somente no período sob o comando da presidente Dilma (2011 – 2016), crescemos, em média, 0,17% ao ano.
Essa taxa média de crescimento anual entre 2011 e 2016 nos coloca em trigésimo quinto lugar, numa lista de 36 países! Ficamos à frente apenas da Itália.

Na era Dilma, fomos a nona maior economia do mundo. E como cresceram nesse período, em média, ao ano, os outros oito países à nossa frente? Pela ordem do tamanho do PIB em dólares, tivemos: Estados Unidos, + 2,08%; China, + 7,60%; Japão, +0,60%; Alemanha, +1,54%; Reino Unido, +2,07%; França, + 0,90%; Índia, + 6,80%; e Itália -0,41%. Ufa! Ganhamos de alguém…

Aqui vou repetir o que escrevi no texto de fevereiro, pois não temos muito o que mudar:

“Por que perdemos essa onda de crescimento mundial nos últimos 6 anos?

1) Existe uma premissa básica na vida: nunca gaste mais do que ganha. Ou pelo menos evite ao máximo que isso aconteça. Mas o Brasil esqueceu essa premissa. Em 2010 (último ano do Lula), fechamos o caixa positivo em R$ 101,60 bilhões (quer dizer, arrecadamos bem mais do que gastamos). Em 2013, o superávit foi de R$ 91,30 bilhões. Em 2014, ficamos negativos em R$ 32,50 bilhões. E, no ano passado, o rombo do caixa foi de R$ 111,20 bilhões. Como pode um país fechar o ano com as contas negativas em R$ 111,20 bilhões? Se fosse com você, leitor, pessoa física, o que poderia ocorrer? Você iria ao banco pegar dinheiro emprestado – pagando juros mais caros, porque os bancos teriam maior receio sobre suas condições de honrar a dívida. Seu nome passaria a ter uma bola preta ao lado: empreste, mas com cuidado. E isso ocorreu com o Brasil também. Perdemos o grau de investimento – ou o selo de bom pagador – em duas das três principais agências de classificação de risco. (atualização: em 24/02, a Moody’s juntou-se à Standard & Poor’s e à Fitch e também rebaixou a nota do Brasil, tirando o grau de investimento).

Antes de explicar como chegamos a esse ponto, temos que lembrar que, em 2015, o governo acertou as contas das famosas pedaladas fiscais. Vale então ressaltar que, dos R$ 111,20 bilhões de déficit, R$ 72,40 bilhões foram destinados ao pagamento das pedaladas.

Mas por que chegamos a essa situação tão dramática nas contas públicas? Na parte da receita, com a recessão por que estamos passando, a arrecadação dos impostos caiu bastante. Menos venda, menos imposto recolhido.

Na parte dos custos, mesmo o governo sabendo que o ano seria ruim, continuou com grandes gastos em programas sociais. Infelizmente, em um momento de crise, todos têm que sentir um pouco na carne. Não dá para somente uma minoria pagar por todos.

Além disso, o governo diminuiu alguns impostos para tentar aquecer a economia. Em vez de reduzir os gastos, tentou aumentar a receita via desoneração de tributos. Que frase doida! Mas o raciocínio era que a diminuição de alguns impostos tornaria os produtos mais baratos, aumentando as vendas e, portanto, reforçando a arrecadação. Só que não deu certo.

2) Outro aspecto importante é a Previdência (INSS). O rombo em 2015 foi de R$ 85,81 bilhões. Todos sabem que precisamos de uma reforma para ontem! Só que parece não haver uma vontade muito grande do poder Executivo para resolver o problema (qualquer medida necessária é absurdamente impopular) e também não vemos esforço por parte do Congresso Nacional. Mas essa reforma está se tornando cada vez mais urgente. Ou muda agora, ou não sei se, no futuro, eu irei receber algo do INSS. A população está envelhecendo rapidamente demais e a arrecadação não está acompanhando.

3) Se acrescentarmos aos itens 1 e 2 os juros pagos pelo governo, o nosso rombo vai para R$ 613 bilhões. Detalhe: o pior resultado anual de todo o Plano Real. Como estamos com inflação alta, temos que subir os juros (já discutido em outros artigos) e isso torna a nossa dívida muito cara. Para se ter uma ideia, o governo federal fechou o ano de 2015 com uma dívida próxima de R$ 2,8 trilhões.

4) Outro aspecto crucial foi a estratégia adotada para manter a inflação dentro da meta. O que? (Eu até escrevi um artigo sobre esse tema aqui no blog). Em 2013, com medo de estourar o teto da meta de inflação, o governo, na canetada, diminuiu a conta de luz, levando a um represamento dos preços. Um dia essa fatura ia chegar e foi o que aconteceu em 2015. Tivemos uma inflação de mais de 10%. Em vez de deixar os preços flutuarem de acordo com oferta e demanda, e, por meio de política de juros, tentar segurar a demanda e evitar a disparada da inflação, o governo optou por segurar os preços de maneira artificial. Assim, concluo que o governo fez escolhas erradas na tentativa de segurar a inflação.

E agora também está ajudando na inflação da iniciativa privada. Como assim? Para aumentar a arrecadação, o governo está elevando impostos de alguns produtos e essa alteração será repassada para os preços. Opa, o que? Isso mesmo. Em vez de adotar medidas para aquecer a economia, o governo aumenta os impostos para arrecadar mais (e assim tentar diminuir o rombo nas contas públicas) e acaba ajudando a aumentar a inflação dos preços que ele não controla. Produtos como chocolate e vinho já tiveram impostos aumentados. Em 2016, a previsão é que a inflação fique por volta de 8%, se não piorar mais ainda no decorrer do ano.

5) Ainda sobre a questão inflação, o governo teve que aplicar um tarifaço em 2015, em vários produtos com preços administrados. Logo, o que ocorreu? Os trabalhadores tiveram uma diminuição do seu poder de compra => começaram a consumir menos => os empresários passaram a vender menos => começaram a ter problemas de receita => passaram a demitir.

O raciocínio é simples. Se não tenho para quem vender, a minha empresa não arrecada. Se não arrecada, eu não consigo pagar os meus funcionários. Solução? Demissão. Não estou dizendo aqui que os empresários são culpados, longe disso! Estou dizendo que eles estão sentindo na carne a paralisia do País.

Sem contar que, com o aumento dos juros para segurar a inflação, ficou muito caro para o consumidor pegar dinheiro emprestado para financiar a compra de produtos, como automóveis por exemplo, gerando ainda mais problemas para a economia.

6) O escândalo da Lava Jato paralisou a Petrobras e várias outras grandes empresas. Se elas não investem, diversos setores sentem.

7) Para piorar a situação, a alta variação no preço internacional do petróleo, vários projetos da Petrobras foram paralisados, com medo dessa incerteza.

8) Problemas de infraestrutura. Olha para o nosso setor de transporte de mercadorias. É muito ruim, tornando muito caro levar o produto da origem até o porto.

Além disso, mesmo com o real desvalorizado, as nossas exportações não sobem como deveriam. Aqui temos um problema, a grande dependência ainda de venda para o exterior de produtos básicos, como commodities agrícolas e minerais. E a culpa é puramente nossa: a indústria brasileira ainda não é tão competitiva lá fora.

9) Questão política. Em 2014, a presidente Dilma foi eleita por uma diferença pequena de votos. E até hoje ainda tem uma dificuldade muito grande para fazer maioria nas votações do Congresso. Só olharmos o processo de impeachment que sofreu várias derrotas.

10) Possibilidade de a presidente sair do poder, via impeachment ou julgamento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

11) O menor crescimento da China, mas por favor não queira jogar toda a culpa nela.

Diante de todo esse quadro, os empresários ficam com receio de investir no Brasil. Será que o governo vai manter as regras e metas? Ou será que, a qualquer momento, pode mudar, para favorecer dados econômicos? Será que vai honrar a dívida que eu assumir com o Estado? O desemprego vai continuar crescendo? E a inflação? São muitas dúvidas, que afastam o empresariado, não só brasileiro, mas do mundo todo.”

Conclusão

Perdemos, sim, o “bonde da história”. Estamos crescendo muito menos do que o mundo. Para se ter ideia, nesse período de 2011 a 2016, os 36 principais países do mundo devem crescer, em média, 2,57% ao ano. E nós, apenas 0,17%. A maior parte da responsabilidade por esse desempenho ruim foi do governo federal, com a adoção de uma série de medidas equivocadas. Além do fato de alguns parceiros nossos (EUA e China) ficarem com crescimento menor que o esperado.

O que fica de legado desses 6 anos? Queda do PIB de mais de 3,50% (2015 e 2016), inflação de 9,38% (acumulada dos últimos 12 meses), mais de 9 milhões de desempregados…

Que país as minhas filhas vão herdar? Muito triste isso.

Como cantava Gardel
“Por una cabeza
De un noble potrillo
Que justo en la raya
Afloja al llegar
Y que al regresar
Parece decir:
No olvidéis, hermano
Vos sabés, no hay que jugar.”