Neste ano, o real perdeu 47% do seu poder de compra perante o dólar

Alexandre Cabral

31 Dezembro 2015 | 00h23

As três maiores variações do dólar na era do real:
2002 – 52,27% no ano
1999 – 47,83% no ano
2015 – 47,01% no ano

Vou fazer um breve histórico antes de falar de 2015.

Ano de 2002
O que você fazia em 2002? Eu trabalhava em uma corretora, que não existe mais, chamada Quality Corretora. Lembro bem que, em alguns dias daquele ano, a bolsa fechou com o pregão em andamento, porque chegou ao preço máximo de oscilação no dia. Para quem não sabe, existem alguns produtos que não podem oscilar, para cima ou para baixo, a um preço maior que y% no dia. Por que isso? É a forma adotada pelas bolsas para se proteger contra qualquer possibilidade de calote. Usando esse mecanismo, as bolsas sabem que, dentro daquele intervalo, a maior parte dos investidores têm condições de honrar seus compromissos.

Mas por que falo de 2002? Em toda a história do Plano Real, foi o ano em que a moeda brasileira mais se desvalorizou – 52,27% no ano. O que tivemos de atípico naquele ano? A primeira eleição de Lula, que, para o mercado, era um grande mistério. Parte achava que Lula cometeria loucuras quando assumisse o poder. Outros chegaram a temer a possibilidade de Anthony Garotinho passar para o segundo turno e disputar com Lula a Presidência da República. Era a batalha entre o “incerto” e o “não sei o que pode acontecer”. Mas, no final, o segundo turno foi entre Lula e Serra. Devido a todos essa incertezas políticas, o ano foi bem volátil para o dólar, que, pela primeira vez, bateu R$ 4,00 e acabou fechando o ano em R$ 3,5333. Um ano antes, valia R$ 2,3204.

Naquela época, a briga com o dólar era um pouco mais complexa, pois tínhamos US$ 38 bilhões em reservas cambiais. Foi naquele ano que ganhou relevância o Swap Cambial, em que o governo vendia um título atrelado à variação da taxa Selic e colocava outro produto junto (Swap Cambial). No final da história, os bancos ficavam aplicados em variação cambial mais uma taxa e devedores em Selic. E por que colocar o título ao vender o produto? Era a forma que o governo tinha de arrecadar recursos para se financiar. Na época, deu bastante errado. E a moeda brasileira teve a sua maior desvalorização em um ano, na era do real.

Ano de 1999
Começo do segundo mandato de FHC, que teve boa parte do seu primeiro governo baseado no controle do câmbio, fazendo uso da âncora cambial para ajudar a segurar a inflação. Só que a pressão para liberar o dólar estava muito forte, até que, no dia 13 de janeiro, o governo não mais conseguiu segurar a variação da moeda americana, que passou de R$1,21/dólar no dia 12 para R$1,32/dólar no dia 13. No dia 03 de março, o dólar já valia R$ 2,1647. Ficamos quase 50 dias com uma política cambial tão complexa, que o mercado não conseguia interpretar o seu funcionamento – a banda cambial endógena dólar. Quando Armínio Fraga assumiu a presidência do Banco Central, em março de 1999, o dólar deu uma acalmada e terminou o ano variando 47,83%. Uma das principais medidas foi a alta da taxa de juros, que ajudou a segurar os dólares no país, diminuindo a fuga. Naquele ano, tínhamos cerca de US$ 42 bilhões em reservas cambiais.

Ano de 2015
E neste ano? Variamos 47,01%, baseados mais em problemas internos e menos em externos, como nos outros anos. O que ocorreu? Todos nós já sabemos que, nos últimos anos, o governo errou bastante em algumas medidas. Um dia ia dar problema. E deu este ano: déficit nas contas públicas, aumento de inflação – causado em parte pelo represamento dos preços administrados (energia é o melhor exemplo). Com tudo isso – PIB em queda, inflação subindo -, os investidores passaram a ter receio sobre os rumos da economia. Para ajudar a entornar o caldo, duas agências de classificação de risco tiraram nosso grau de investimento, passando a mensagem que o Brasil não é tão confiável para se aplicar. O que os investidores resolveram fazer? Aplicar na variação do dólar. A demora do Banco Central em agir ajudou a piorar ainda mais a especulação – e falei várias vezes no decorrer do ano: só utilizando Swap Cambial (aquele do exemplo anterior, em que os investidores ganham a variação cambial e pagam ao governo a variação da Selic) não ia dar certo. A partir do momento em que o governo começou a utilizar a reserva cambial, tudo começou a acalmar. E acalmou bastante. O dólar, em setembro, chegou a bater R$ 4,25. Fechou o ano cotado a R$ 3,9048/dólar.

Temos mais de US$ 368 bilhões em reservas. Fora um estoque de mais de US$ 100 bilhões em swap. Alguns economistas defendem que a nossa reserva cambial é a diferença entre esses dois valores, porque, no pior dos mundos, se os bancos venderem o swap e resolverem comprar o dólar, a nossa reserva diminui em US$ 100 bilhões. Então, dólares para controlar a variação do real, nós tínhamos. O Banco Central não fez uso das reservas por alguma tática interna. Mas ainda bem que resolveu atuar antes que piorasse mais ainda a variação do real.

Governo Dilma
Entre 2011 e 2014 (primeiro mandato), o real desvalorizou 59,42% e, somente em 2015, oscilou 47,01%. Bastante emoção para um único ano. E sobre ano que vem? O tempo será o senhor da razão.

Todos os meus estudos foram baseados no dólar PTAX, divulgado pelo Banco Central às 13h08min. Não utilizo o dólar de fechamento, porque não existe um número oficial. Podemos ter valores diferentes dependendo da fonte.