Mercado financeiro já aposta na queda dos juros em 2016

Alexandre Cabral

02 de março de 2016 | 12h55

Será que os dois diretores do Copom que votaram pela alta dos juros nas últimas reuniões mudaram de opinião? Eu acho que sim. Por que digo isso? Pela reação do mercado.

 

Vamos entender os meus argumentos.

 

Introdução rapidinha:

Reunião do Copom (Comitê de Política Monetária): serve para decidir a taxa básica de juros da economia. As decisões são tomadas com base em dados econômicos conhecidos e também refletem a expectativa do Banco Central em relação ao comportamento futuro desses dados.

Que dados são analisados: deveriam ser mais relacionados à inflação, mas, diante da atual conjuntura econômica, o Copom também tem demonstrado preocupação com o crescimento do País.

Quem participa: 8 diretores do Banco Central

Taxa oficial de juros: atualmente em 14,25% ao ano, conhecida como Taxa Meta Selic

Taxa de empréstimo de dinheiro entre bancos: 14,13% ao ano, conhecida como Taxa CDI.

Diferença entre as taxas: já faz algumas semanas que a Taxa CDI é igual à Taxa Meta Selic, menos 0,12 ponto percentual ao ano. Ou: 14,25 – 0,12 = 14,13% ao ano.

Por que e como mexer na taxa: se a avaliação é que a inflação pode subir, decide-se pelo aumento da taxa, de modo a inibir o consumo. E vice-versa.

Últimos resultados: nas últimas reuniões, 6 diretores decidiram pela manutenção da taxa de juros e 2 votaram pelo aumento (o mercado acredita que esses 2 agora mudaram de opinião).

Onde eu captei a mudança no pensamento do mercado: existe um produto negociado na bolsa brasileira chamado DI Futuro, cujo objetivo prático é apostar na mudança de juros do Banco Central. Essa aposta fica baseada na Taxa CDI. Se existe a expectativa de que o Banco Central vai baixar os juros em uma reunião do Copom, é esse contrato que capta essa mudança.

Próximas reuniões (sempre com duração de dois dias): 01 e 02 de março, 26 e 27 de abril, 07 e 08 de junho, 19 e 20 de julho, 30 e 31 de agosto, 18 e 19 de outubro e 29 e 30 de novembro.

 

O que o mercado está dizendo em 01 de março de 2016

Que a taxa Meta Selic estará, no fim deste ano, em 13,75% ao ano, com queda de 0,25% ao ano na reunião de outubro e nova redução de 0,25% ao ano no encontro de novembro, totalizando 0,50% ao ano de queda em 2016.

Portanto, o que o mercado está dizendo é que a Taxa CDI estará, em 31 de dezembro deste ano, em 13,63% ao ano (13,75 – 0,12 pp).

Há muitos meses o mercado não tinha essa expectativa de queda de juros ainda em 2016. Mas por que será que mudaram de opinião?

 

Motivos internos

As respostas não obrigatoriamente seguem uma ordem de relevância.

“O Banco Central abandonou a meta de inflação do ano”. Oficialmente temos como objetivo em 2016 uma meta de inflação de 4,50% ao ano, com teto máximo de 6,50% ao ano. Se o mercado acredita que o Banco Central vai baixar os juros, deve estar pensando que a meta foi completamente abandonada para este ano, mas a inflação não deve ficar muito maior do que 7% esse ano, e que a inflação ideal só será alcançada em 2017/18. Por que o BC faria isso? Pode estar pensando que os preços estão se acomodando, devido aos seguintes fatores:

a. O repasse do ano passado já foi feito em janeiro/fevereiro, tenho escrito sobre isso. Em alguns setores, tivemos a volta da reindexação, bem captada, por exemplo, no item Educação. O Banco Central pode estar pensando que o pior da reindexação já passou.

b. Na semana passada, a última agência de classificação de risco que ainda acreditava no Brasil como bom pagador nos rebaixou para o grau especulativo e o dólar se comportou muito bem – na verdade, o real até se valorizou nessa última semana. Isso é bom para segurar a inflação, porque teremos uma menor pressão causada pela moeda americana. Para se ter uma ideia, o real em 2016 valorizou 0,50%. Setores que têm alta dependência do dólar, como produtores de trigo e soja, podem baixar os seus preços devido à queda de custo. Na minha opinião, foi a melhor notícia do ano: fomos rebaixados e o real não estressou.

c. Queda do preço de energia em alguns Estados, com o fim (em alguns casos vai ocorrer uma diminuição nos preços, mas continuará sendo cobrada) da tarifa extra cobrada desde o ano passado (por falta de chuvas, tivemos um aumento extra no custo da energia, porque as termoelétricas – mais caras – passaram a trabalhar a todo vapor). Neste ano, com chuvas em quantidade elevada e queda no consumo, podemos ter reduções de até 6% na tarifa. Em tempo: baixar o preço porque choveu é excelente, mas energia mais barata por falta de demanda, porque a economia não anda, é muito triste…

d. Finalmente, o BC acredita que a retração da economia em 2016 será tão grande, que a crise segurará os preços, por falta de compradores.

 

Motivos externos

Eu, no último texto, falei de uma possibilidade remota de retração ou crescimento próximo de zero dos EUA em 2017. Isso pode não correr. Dados divulgados no dia 26 de fevereiro mostram uma alta de 1% no PIB americano no último trimestre de 2015, revendo para cima o valor anterior que havia sido divulgado e que previa alta de 0,70%. Isso quer dizer que podemos, via exportação, melhorar a performance da nossa economia. Portanto, os EUA estão ajudando a economia brasileira. A única notícia ruim é a possibilidade de alta dos juros americanos por parte do FED (Banco Central americano), que pode gerar uma desvalorização no real. Mas eu particularmente não acredito nessa alta. Portanto, a melhora do PIB americano é uma notícia boa para nós.

A China, nos últimos dias, lançou incentivos para a economia, com destaque para a diminuição do compulsório bancário. O que isso quer dizer na prática? Que os bancos terão mais dinheiro para emprestar, gerando mais investimentos e, portanto, estimulando o consumo. Esses incentivos também podem conter a queda no ritmo de crescimento da economia chinesa. Para este ano, espera-se algo próximo de 6,5%. Com os estímulos, essa variação pode ser maior. Onde podemos ver essa reação? Na alta dos preços do minério de ferro e do petróleo nos últimos dias. E, internamente, na alta dos preços de ações do setor imobiliário chinês. Como vendemos muitas commodities para a China, podemos ter incrementos na exportação, o que, por consequência, vai segurar a desvalorização do real, diminuindo a pressão dos preços atrelados ao dólar.

 

Na última ata que o Banco Central divulgou, ele demonstrava algumas preocupações, que podem estar sendo revisadas para esta reunião do Copom.

“11. Sobre a atividade global, indicadores antecedentes apontam tendência de moderação no horizonte relevante para a política monetária, com taxas de crescimento relativamente mais homogêneas nas economias maduras, ainda que baixas e abaixo do crescimento potencial. (…) Nos Estados Unidos, a tendência é de recuperação da economia, entretanto antecipa-se algum arrefecimento na dinâmica de crescimento. Nas economias emergentes, o ritmo de atividade tem sido constantemente revisado para baixo, em cenário cercado de incertezas quanto aos desdobramentos da perda de dinamismo na China e suas implicações para a economia mundial.”

Aqui os membros do Copom podem rever o pensamento, já que existem dados divulgados (EUA) e novas expectativas (China) que melhoram o cenário econômico e podem ser benéficos para a economia brasileira, como já explicado anteriormente.

 

“14. Para o conjunto de preços administrados por contrato e monitorados, projeta-se variação de 6,3% em 2016. Entre outros fatores, essa projeção considera reajuste médio nas tarifas de ônibus urbano de 8,9% e variação de 3,7% nos preços da energia elétrica, mantida a bandeira tarifária em vigor.”

Podemos ter uma previsão igual ou uma pequena alta neste item, devido a mudanças nos preços da energia, como citado anteriormente. Mas é importante frisar que podemos ter uma queda mais acentuada das tarifas, se os níveis dos reservatórios continuarem subindo e a dependência das termoelétricas diminuírem.

 

“31. O Copom reitera que a demanda agregada continuará a se apresentar moderada no horizonte relevante para a política monetária. De um lado, o consumo das famílias tende a ser influenciado por fatores como emprego, renda e crédito; de outro, a concessão de serviços públicos e a ampliação da renda agrícola, entre outros, tendem a favorecer os investimentos. Por sua vez, as exportações líquidas apresentam melhor resultado, seja pelo aumento das exportações, beneficiadas pela depreciação do real, seja pelo processo de substituição de importações em curso. Para o Comitê, os efeitos conjugados desses elementos, o desenvolvimento nos âmbitos fiscal, parafiscal e no mercado de ativos e, em 2016, a dinâmica dos preços administrados são fatores importantes do contexto em que decisões futuras de política monetária serão tomadas, com vistas a assegurar a convergência da inflação para a meta de 4,5% estabelecida pelo CMN, em 2017.”

Aqui eu acho que eles continuam preocupados com o ambiente interno, mas o cenário externo pode ajudar a segurar a economia.

 

Resumindo então o que pode estar na cabeça no Banco Central: a inflação administrada pode ser menor do que o esperado; a recessão pode ajudar a segurar preços por fraca demanda; e as economias americana e chinesa não estão tão ruins e podem nos ajudar nas exportações, aumentando a entrada de dólares no Brasil e segurando a inflação dos produtos cambiais.

 

Esses são os principais motivos que levam o mercado a apostar numa possível queda dos juros no final do ano.

 

O que o Banco Central não deveria pensar (pois não é sua função), mas pode estar pensando:

Devemos ter um ano ruim de arrecadação. Portanto, o governo vai ter que se financiar via emissão de dívida para fechar as contas. Com os juros menores, esse financiamento fica mais barato. É como se os diretores do Copom pensassem: já que abandonamos mesmo a meta de inflação em 2016, vamos baixar os juros para pelo menos aliviar as despesas do governo. Espero estar enganado, já que a função do Banco Central é controlar a inflação e não se preocupar com a dívida do governo.

 

E mais um detalhe sobre como cheguei à conclusão de que os juros devem cair em 2016. Algumas contas:

Imagine que você, leitor, fez uma aplicação de R$ 1.000,00 em um produto que rende à Taxa CDI. O banco diz que, se aplicar hoje, você deve ganhar algo próximo de 14,04% ao ano. Por que “próximo”? Porque, como é uma taxa pós-fixada, não dá para antecipar o valor exato, tem que esperar o vencimento do contrato. Detalhe importante: para os bancos, o ano tem 252 dias úteis, período que será considerado nas contas a seguir.

Também vou sempre considerar o efeito dos juros até o dia seguinte ao da reunião do Copom, já que o resultado sai depois das 20h, quando já não é mais possível fazer aplicações com a nova taxa divulgada pelo BC. Assim, quem aplicar hoje nos juros só irá sentir qualquer efeito da reunião do Banco Central amanhã.

Hoje sabemos que a Taxa CDI vale 14,13% ao ano (já explicado no começo dessa matéria) e deve ficar assim até 19 de outubro (entre 01 de março e 19 de outubro, temos 162 dias úteis). Seu rendimento seria de:

1.000,00 x 1,1413^(162/252) = 1.088,68.
Se os juros caírem na reunião de outubro do Banco Central, como o mercado acredita, a Taxa Meta Selic sai de 14,25% ao ano para 14,00% ao ano. Assim, o CDI irá para 13,88% ao ano e sua aplicação irá para:

1.088,68 x 1,1388^(28/252) = 1.104,52.

Por que a atualização de somente 28 dias? Lembra que eu falei, lá no começo, que o mercado acredita em duas quedas de 0,25 ponto percentual ao ano de juros? Uma é essa em outubro. A outra é em dezembro, que irá proporcionar (entre 19 de outubro e 30 de novembro):

1.104,52 x 1,1363^(22/252) = 1.116,91.

Quanto você, leitor, ganhou de juros no final da aplicação? Se somarmos 162 + 28 + 22 = 212 dias úteis, que é a diferença certinha entre 01 de março e 2 de janeiro de 2017, teremos:

1.116,91 / 1.000,00 = 11,69% ao período, o que corresponde a 14,04% ao ano. É a mesma taxa com que o mercado estava operando, no dia 01 de março, o DI Futuro para janeiro de 2017. Portanto, o mercado acredita em duas quedas de 0,25 ponto percentual ao ano.

 

Conclusão

Temos dois diretores do Banco Central que, nas últimas reuniões do Copom, vinham votando pelo aumento dos juros. Mas, na visão do mercado, esse cenário mudou e, na reunião de hoje, eles devem votar pela manutenção da taxa. E o relatório divulgado pelo BC (conhecido como ata) pode dar a entender que teremos queda de juros ainda neste ano. É esperar para ver.

Eu, se fizesse parte do Copom, estaria votando pela manutenção da taxa há muito tempo. Não sei o que passa na cabeça desses dois diretores (que são pessoas altamente competentes no que fazem) para defenderem a alta. E eu também não daria nenhuma mensagem de mudança de rumo: 2016 vai ser muito complicado para já dar a entender o que vai ser feito no final do ano.

Não esqueçam, leitores, que, apesar de nossos dois grandes parceiros (EUA e China) estarem ajudando, as manchetes não mudaram: inflação ainda existe, economia ainda cai, desemprego está aumentando. Dilma agora resolveu peitar o PT também com a famosa frase “eu não governo somente para um partido”. Muitas emoções teremos. Por isso, se os juros caírem, será somente no fim do ano. Pelo menos é isso que o mercado está esperando.

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