Ômicron deve atrapalhar a economia no verão, mas pode ajudar no resto do ano

Ômicron deve atrapalhar a economia no verão, mas pode ajudar no resto do ano

Alexandre Cabral

12 de janeiro de 2022 | 07h46

Vi pelos jornais que setores inteiros de algumas empresas estão trabalhando em casa, devido à variante ômicron – ou ao medo de pegá-la e de que ela se espalhe ainda mais. Vamos ver o que temos de bom e de ruim nessa situação.

 

Foto: Daniel Teixeira / Estadão

 

O lado bom é que, ao pegar a doença, as pessoas acabam ajudando a alcançar, mesmo que de uma forma não ideal e bastante perigosa, a chamada “imunidade de rebanho”. Juntando isso às vacinas, essas sim a melhor maneira de garantir proteção, em pouco tempo podemos chegar mais perto de uma relação de normalidade entre as pessoas. E, olhando os números, temos visto que, entre aqueles que são infectados, vários são hospitalizados (isso pode se tornar um problema, com falta de leitos e/ou funcionários), mas poucos vêm a óbito. O mundo ideal, claro, é que ninguém morra. Mas temos que olhar as estatísticas para entender o comportamento das doenças.

 

E o lado ruim? Inflação e receita das empresas.

a. Inflação: pode faltar mercadoria. Como assim? O setor de logística não tem como fazer home office. Você consegue imaginar um caminhoneiro que transporta alimentos fazer isso trabalhando de casa? O funcionário do supermercado consegue repor as mercadorias das gôndolas trabalhando em sistema remoto? O trabalhador do porto que ajuda na movimentação dos containers consegue fazer isso à distância? A construção civil pode construir um prédio sem trabalho presencial? Claro que não. Se as empresas tiverem que afastar esses funcionários, certamente haverá consequências. E todas essas particularidades vão ajudar a pressionar a inflação de janeiro, fevereiro e março (espero que isso não afete os demais meses ou de maneira não relevante). Espero que o Banco Central entenda que esse cenário não necessariamente é uma tendência e, compreendendo isso, não jogue os juros para 12% aa. Mas isso é outra história.

b. E a receita das empresas? Muitas das empresas que necessitam de funcionários presencialmente podem sentir o impacto em seus resultados. Exemplo: restaurantes. Aí você, leitor, me diz: mas tem o delivery. Sim, mas como a comida vai chegar à sua casa se a pessoa que a levaria está de licença? E a velocidade de contaminação está tão rápida que a empresa pode demorar a conseguir substituir esse funcionário.

Alguns exemplos práticos do que já está ocorrendo: Azul e Latam cancelando voos (somente na segunda, dia 10 de janeiro, foram 140). Setores como hotelaria, transportes, restaurantes, bebidas e afins já sentem os efeitos do cancelamento do Carnaval em vários grandes centros como Rio, São Paulo e Salvador. Aí podemos incluir: CVC, AMBEV, Grupo IMC etc…

 

Isso sem contar as dificuldades nas cadeias produtivas pelo mundo. Temos problemas na China, Europa e EUA, onde setores inteiros estão em home office também. É bem provável que continuemos a escutar o velho problema: não temos chips. O que poderá levar a mais escassez de produtos (como carros e eletrônicos) e, consequentemente, maior pressão sobre os preços – também torço para que isso seja temporário.

 

Quero destacar mais um detalhe para o setor de turismo: as chuvas torrenciais deste início de ano estão afastando turistas de várias regiões. Isso é preocupante, pois janeiro é o mês da família viajar e muitas acabaram mudando de planos – como aqui em casa: imagina ir para a praia e só pegar chuva?

 

Enfim, um texto breve para dizer que a ômicron pode ser uma péssima notícia no curto prazo, mas, quem sabe, trazer benefícios no médio prazo.

 

Obs.: Várias cidades estão com campanha para atualizar a carteira de vacinação. Vá e não se esqueça de levar seus filhos. Quantas vacinas deixaram de ser tomadas em 2020 e 2021 devido à pandemia? Proteja você e quem você ama!

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