Para “salvar” o Lula, o ideal seria ter no comando a dupla Meirelles e Volpon

Alexandre Cabral

18 de março de 2016 | 06h53

Antes de mais nada, quero deixar claro que o meu texto não tem como objetivo defender nenhum ideal político. Só quero demonstrar aqui o que pode ocorrer nos próximos dias, caso Lula seja confirmado como ministro da Casa Civil. Ou o que seria ideal que acontecesse nos próximos dias.

 

Primeira retomada a frase do compositor clássico alemão Johannes Brahms, que escrevi em outro texto:
– “A confiança perdida é difícil de recuperar. Ela não cresce como as unhas”.

 

No mercado, especula-se sobre a possível saída do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e eu acho que existe, sim, uma possibilidade de ele ser substituído por Henrique Meirelles. Na verdade, na minha opinião, a dupla perfeita, neste momento, para comandar a economia brasileira seria formada por Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda e Tony Volpon no Banco Central. E seria de agrado também do mercado financeiro internacional.

 

Vamos então ver o que esses dois têm dito sobre dólar, juros, inflação e reformas.

 

Quem é quem:

Henrique Meirelles: ex-presidente do Banco Central na era Lula, fez um trabalho bem eficiente. É o menino dos olhos do Lula, mas não tem muita aceitação por parte da Dilma e de parcela considerável do PT.

Tony Volpon: atual diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, fez toda a sua carreira no mercado financeiro, em instituições como CM Capital Markets e Nomura. Combina uma capacidade técnica invejável com a prática do dia a dia do mercado. Uma pessoa que dificilmente se deixa influenciar. Aqui, nem Lula nem Dilma dariam pitaco. Como trabalhou no mercado financeiro, tem um diferencial tremendo, pois sabe o que o mercado espera do Banco Central.

 

Introdução

Reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, ocorrem para definir a Taxa Meta Selic, que é a taxa básica de juros da economia e atualmente está em 14,25% ao ano.

Próximas reuniões: dias 26 e 27 de abril e 07 e 08 de junho.

 

Inflação e juros

Henrique Meirelles: declarou em 17 de março que “vivemos uma Inflação elevada e resiliente” (AE News).

Tony Volpon: é um dos dois diretores que têm votado nas últimas reuniões do Banco Central para uma alta da taxa de juros. Esta declaração, em um discurso feito em dezembro último, demonstra bem o seu pensamento: “Um ajuste monetário eficiente vai contribuir para a retomada da economia. Hoje o controle efetivo da inflação é uma condição necessária para a recuperação do crescimento econômico sustentável”.

Aqui eles pensam igual e existe uma chance de as taxas de juros não caírem por um tempo maior do que o mercado espera. Hoje o mercado está apostando que os juros caem já na próxima reunião do Copom, em abril, com um corte de 0,25 ponto percentual, passando para 14,00% ao ano. Particularmente, não acredito que o Volpon consiga influenciar os outros diretores para que votem pela alta dos juros, mas podemos demorar mais a ter uma queda nessa taxa.

Portanto, a curva de juros para médio e longo prazo deve subir. Não acredito que a taxa de juros suba agora, apesar de o Volpon defender isso. Mas acho que pode demorar mais a cair.

Aqui quero relembrar um pouco de história. Quando Meirelles assumiu a presidência do Banco Central, em janeiro de 2003, a taxa Meta Selic estava em 25,00% ao ano e a inflação acumulada em 12 meses era de 12,53% ao ano. No primeiro ano sob o comando de Meirelles, o BC elevou a taxa de juros para 26,50% ao ano. Com isso, o juro real (o que ultrapassa a inflação) ficou próximo de 8,30% ao ano. Se fôssemos trazer essa estratégia para hoje em dia, deveríamos subir a nossa taxa Meta Selic dos atuais 14,25% ao ano para algo próximo de 17,00% ao ano. Eu, particularmente, acho imprudente fazer isso, considerando as condições que temos na economia, com forte recessão e elevado desemprego. Na verdade, acho uma loucura fazer isso. Imagina para quanto vai a dívida interna!

Obs.: Aqui não é uma questão de “seguir a cabeça do mercado financeiro”. Não, longe disso. Temos que seguir o que é melhor para o Brasil. Mas não podemos esquecer que os bancos financiam parte considerável da produção. E são eles que estabelecem as taxas dos empréstimos. Quanto mais claro fica o cenário para esse setor, mais barata tende a ser a taxa. Por outro lado, quanto maior a incerteza, mais elevados são os juros

 

Câmbio

Henrique Meirelles: durante sua atuação como presidente do Banco Central na era Lula, o real teve forte valorização, algo que não deve acontecer neste momento. Já que, nos seus últimos pronunciamentos, Meirelles ressaltou que o setor exportador tem se beneficiado bastante do real desvalorizado – o que eu também tenho destacado. Acho inviável para a economia o dólar abaixo de R$ 3,40, pelo menos no curto prazo. Mas não é meu objetivo aqui discutir o meu pensamento e, sim, as ideias dos dois.

 

 

Tony Volpon: declarou em dezembro do ano passado que “uma política fiscal mais restritiva, com cortes de gastos e recomposição da estrutura tributária – bem como um ajuste nos preços administrados – seriam seguidos no tempo por uma política monetária mais acomodatícia, depois de restabelecido o equilíbrio dos preços relativos, inclusive a taxa de câmbio, para garantir sustentação da posição externa”.

 

Portanto, existe uma chance do real, aos poucos, se valorizar frente à moeda americana, se não tivermos uma crise muito grande. Não acredito que o dólar ultrapasse R$ 4,00 com essa dupla no comando, mas também não vejo abaixo de R$ 3,40, já que esse patamar tem favorecido o setor exportador e este tem ajudado bastante a nossa economia. Logo, devemos ter incentivos governamentais para setores altamente exportadores – agrícola e minério de ferro –, com o objetivo de torna-los mais competitivos no exterior.

 

Falar em dólar é igual a falar de futebol: importador puxa para um lado e exportador, para o outro. É um assunto bem árduo, ao qual me comprometo a me dedicar em outro texto.

 

Reservas Cambiais

Não achei nenhum posicionamento do Volpon, mas acredito que ele não ache correto utilizar as reservas para defender a economia.

Meirelles, em outubro do ano passado, escreveu: “… em meio a tanto pessimismo, é preciso ver não só os enormes problemas, como as enormes forças do país, entre elas: (…) as reservas internacionais de mais de US$ 370 bilhões (…)”. (Folha de S. Paulo)

Uma pessoa que coloca como um ponto forte ter uma reserva desse tamanho não vai querer utilizar esses recursos para cobrir rombo ou fazer investimentos.

Eu já escrevi um artigo discutindo se é adequado ou não usar as reservas cambiais. Segue o link: http://economia.estadao.com.br/blogs/economia-a-vista/presidente-dilma-nao-utilize-as-reservas-cambiais-para-aquecer-a-economia/

 

Toda solução passa por Reforma Fiscal

Aqui o Meirelles tem defendido a tese de que não devemos aumentar os impostos e, sim, readequar as despesas. Isso pode ser uma mensagem para não recriar a CPMF. Meirelles tem dito que o ideal seria estabelecer um teto de gastos proporcional ao PIB. Em setembro de 2015, declarou que a nossa arrecadação bruta está por volta de 37% do PIB – então, um número ideal para gastos públicos deveria ser algo em torno de 34% do PIB, com regras de transição claras e com chances de serem realizadas. Só o fato de pensar assim já agradaria a sociedade, pois finalmente teríamos alguém muito preocupado em cortar os custos e despesas – e não em turbinar a receita via aumento de tributos. Portanto, para Meirelles, o ajuste fiscal passa por fixação do limite legal das despesas do governo.

Volpon declarou: “a resposta ótima seria um ajuste fiscal via adequação de despesas”.

Vemos então que os dois pensam igual: temos que fazer uma reforma fiscal para ontem e, nessa reforma, devemos cortar despesas – e não forçar uma receita via tributos. Aqui o principal problema é que muita coisa depende do Congresso. Não sei se o governo terá condições de negociar algo com os parlamentares no cenário atual.

 

Reforma da Previdência

Meirelles declarou que o País não vai conseguir se desenvolver de forma consistente com o modelo de Previdência que temos hoje. Portanto, precisaríamos de uma reforma. Aqui temos o mesmo problema da reforma fiscal: uma dependência muito grande do Congresso. Sem contar que qualquer reforma previdenciária envolve medidas muito antipopulares. Para quem está com a popularidade em baixa, vai ficar complicado aprovar qualquer mudança.

 

Conclusão

Na minha opinião, essa dupla seria perfeita para conduzir a economia brasileira nesse tempo de turbulência e o Lula – se permanecer no cargo de ministro da Casa Civil – teria que convencer o Congresso a aprovar essas mudanças.
Concretizando esse cenário, teríamos alguma chance de, em 2016, registrar uma queda do PIB menor do que no ano passado, para voltar a crescer em 2017. O problema – e grande incógnita – é a parte política.

E, pelo amor de Deus, nada de guinada à esquerda, nem de aumentar gastos com benefícios sociais, para ganhar votos nas eleições municipais. Precisamos levar a nossa economia a sério e parar com gastos desenfreados.

Para terminar, reforço que não estou defendendo nenhuma posição pró ou contra o governo. O que estou dizendo é que, para o momento atual, com Dilma e Lula no poder, a dupla Meirelles e Volpon seria a que melhor se encaixaria no comando da nossa economia, já que agradaria demais ao mercado financeiro internacional – o dono do caixa.

 

Curiosidade
Lula foi anunciado ministro da Casa Civil no dia 16 de março. A reação do mercado, só de imaginar a possibilidade do Meireles se tornar parte do governo, fez as ações da Petrobras subirem 8% (aqui também tivemos a influência da decisão do Banco Central americano de não subir juros). Isso demonstra o apoio à escolha do nome dele.