PIB 2015: até setores que cresceram desempregaram!

Alexandre Cabral

03 de março de 2016 | 17h21

O resultado do PIB divulgado hoje comprova por que temos tantos desempregados no Brasil. Se o País não cresce, não emprega. E mais: a economia brasileira voltou para fevereiro de 2012. É isso mesmo! Voltamos ao tamanho que tínhamos há 1.402 dias.

Curiosidade: as famílias diminuíram o seu consumo em R$ 150 bilhões no ano passado.

Vamos falar de dados e tentar descobrir por que isso ocorreu.

Detalhe: para escrever este texto, eu combinei informações de PIB, desemprego e balança comercial. Acho que fica mais fácil para a compreensão do leitor.

 

Introdução

PIB: Produto Interno Bruto. Mede a produção de bens e serviços em um país.

Quem calcula: no Brasil, o cálculo do PIB é feito pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Qual foi a variação dos últimos anos: queda de 3,85% em 2015, alta de 0,10% em 2014, alta de 3,01% em 2013, alta de 1,92% em 2012 e alta de 3,91% em 2011.

Quanto produzimos no ano passado: R$ 5,9 trilhões.

 

Como cheguei nos 1.402 dias?

Vamos dizer que a economia, em 31 de dezembro de 2015, estivesse valendo R$ 1.000,00.

Em 31 de dezembro de 2014, valia: 1.000,00 / (1 – 3,85/100) = R$ 1.040,04. Como o PIB caiu em 2015, R$ 1.040,04 no final de dezembro de 2014 valiam, em termos reais, no final de 2015, R$ 1.000,00 (queda de 3,85%). E assim sigo com as contas.

Continuando neste raciocínio, R$ 1.000,00 em fevereiro de 2012 (1.402 dias para trás) valem hoje os mesmos R$ 1.000,00. Ou seja: estamos parados no tempo. 1.402 dias perdidos.

O auge de valorização da economia foi em março de 2014, quando bateu R$ 1.071,34. De março de 2014 até dezembro de 2015, a economia brasileira teve uma queda de 7,13%! Desesperador!

 

Vamos ver os principais dados divulgados do PIB de 2015 para então debater por que fomos tão mal

Desempenho do PIB: queda de 3,85%, o pior número de todo o Plano Real.

Nível de emprego: Diminuição de 1.542.371 trabalhadores com carteira assinada.

 

Em nem todos os setores é possível mensurar a quantidade de pessoas empregadas. O consumo das famílias também é calculado pelo governo. Mas é complexo demais saber quem está consumindo o que de uma loja.

 

Setores que tiveram variação positiva:

 

– Agropecuário: alta de 1,83%, com aumento de 9.821 pessoas empregadas.

O setor, que, no primeiro trimestre de 2015, chegou a crescer 5,44%, não aguentou a crise ao longo do ano e perdeu a força. Foi o segundo pior número da era Dilma, à frente apenas de 2012, quando tivemos queda de 3,08%, causada principalmente por condições climáticas adversas, com secas extremas em algumas regiões e chuvas torrenciais em outras.

Os números mostram, portanto, que o setor que todos nós, economistas, acreditávamos que seguraria o PIB de 2015 acabou desacelerando no decorrer do ano. Apesar do número positivo, empregou apenas 9.821 pessoas a mais, na comparação com 2014. Os destaques de alta foram a soja (11,9%), favorecida pela variação cambial, gerando bastante exportação, e o milho (7,3%). Os negativos foram trigo (- 13,4), café (- 5,7%) e laranja (- 3,9%).

 

– Extração mineral: alta de 4,85%, com 14.039 pessoas sendo demitidas.

Aqui o destaque foi o aumento da extração de petróleo e gás natural. Se, mesmo com a operação Lava Jato, o setor conseguiu fechar positivo, imagine o leitor se tivéssemos honestidade no comando dessas atividades. Imagine como poderíamos estar crescendo com mais força, com resultados muito melhores que essa queda de 3,85%. Para se ter uma ideia, em 2014, o setor de Extração Mineral registrou crescimento de 8,57%. Em 2015, mesmo com a alta de 4,85%, demitiu mais do que contratou, reduzindo 14.039 postos de trabalho. Assim, houve aumento de produtividade, com queda da quantidade de mão de obra.

 

Setores que tiveram variação negativa

– Comércio: queda de 8,87%, com 218.650 pessoas demitidas.

Aqui está explicada a perda de 218.650 postos de trabalho em 2015. O principal motivo foi a perda do poder de compra do brasileiro nos últimos anos => consumidor diminui as compras do dia a dia => comércio vende menos => empresas, infelizmente, têm que demitir, para poder fechar o mês. Esse contexto explica por que temos visto tantas placas de “aluga-se”, quando andamos pelas ruas do País. E não vejo sinal de melhora para esses dados em 2016.

 

– Consumo das famílias: queda de 4%.

O pior resultado desde 1996, quando teve início a série histórica. E vale destacar que, de 1996 para cá, o consumo das famílias registrou desempenho negativo em apenas 3 oportunidades. Aqui temos o mesmo problema já citado no item Comércio: perda do poder de compra do trabalhador, devido à inflação, gerando retração no consumo, que levou ao desemprego. Tudo isso acompanhado de juros altos, que inibiram a tomada de crédito. Olha que dado curioso: o consumo das famílias responde por 60% do PIB brasileiro. Se há uma queda de 4%, fica impossível o País andar para frente. Aqui tem que estar o foco do governo para melhorar o PIB de 2016!

Aqui ainda quero destacar a queda de R$ 150 bilhões no consumo das famílias em 2015. Equivale ao PIB do Panamá no ano passado. Retração forte demais para a economia brasileira. Repetindo: as famílias brasileiras, no ano passado, deixaram de consumir o equivalente a toda a produção do Panamá em 2015!

 

– Transformação: queda de 9,75%, com 608.878 mandadas embora em 2015.

Antes de falarmos deste setor, deixe eu explicar quais os grupos que estão nessa amostra: indústrias em geral, como metalúrgica, mecânica, têxtil, calçados, produtos alimentícios (12 setores na pesquisa do IBGE). Em 2015, a indústria de transformação demitiu 608.878 pessoas. Aqui temos a alma da economia. Se não tenho para quem vender, vou produzir o que? Quantas fábricas fecharam as portas no ano passado? Dois exemplos que quero destacar são Microsoft, em Manaus, e Souza Cruz, em Cachoerinha (RS). Outro dado alarmante foi a demissão de 98.825 pessoas no setor têxtil, impulsionada pela mistura de crise interna com invasão chinesa.

 

– Construção: queda de 7,63%, com demissão de 419.959 trabalhadores.

Aqui o contexto é: se a economia não cresce, as famílias ficam sem condições de comprar suas casas e as empresas, de montar os seus escritórios. E um dado que acho que vai ajudar a piorar esse setor em 2016 é a diminuição do depósito na caderneta de poupança. De acordo com a legislação brasileira, os bancos, com destaque para a Caixa Econômica Federal, emprestam dinheiro para a pessoa comprar a sua casa somente se houver recursos de clientes depositados na poupança. É um sistema vinculado: quanto mais depósitos, mais dinheiro o banco tem para emprestar. Se diminuem os depósitos, os empréstimos ficam mais escassos e, portanto, mais caros. É o que tem acontecido. Só para se ter uma ideia, em 2015, foram resgatados da poupança R$ 54 bilhões. Além disso, temos que lembrar que projetos como Minha Casa Minha Vida perderam verba no ano passado, afetando diretamente o setor da construção.

Sabe qual é o meu medo para 2016? A pessoa que comprou apartamento financiado não ter condições de honrar seus compromissos e ter que devolver o imóvel ao banco. Aí Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e CEF podem se tornar instituições financeiras cheias de imóveis na carteira. Tenso!

Só um detalhe que o leitor pode me questionar: existem títulos que podem substituir a caderneta de poupança nessa captação, como LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), altamente emitidos por bancos que possuem poucos depósitos de caderneta de poupança.

 

– Formação Bruta de Capital Fixo: queda, tombo (ou o substantivo que queira) de 14,10%

O pior da série histórica, calculada desde 1996. O que seria esse setor? Representa os investimentos na construção civil, em máquinas e equipamentos. Aliás, quero destacar com carinho o setor de máquinas e equipamentos, que registrou queda de 26,5% em 2015 (preste atenção em um problema que podemos ter em 2016). Isso ocorreu porque o setor industrial não conseguiu renovar o seu parque, devido à falta de incentivo para investir, achando que não conseguiria vender o produto final, e principalmente por causa da desvalorização do real, que tornou muito cara a compra de máquinas no exterior. Conclusão: perdemos um ano de evolução, nossas máquinas podem estar ficando obsoletas e, portanto, o nosso preço final da mercadoria não deve se tornar tão competitivo, já que a produtividade não vai aumentar. Olha que perigo: não estamos preparando as nossas indústrias para aumentar a produção! Assim, existe uma chance dos nossos produtos não se tornarem atraentes para o mundo. Se o real valorizar muito rápido, isso pode ser um grande problema para o setor exportador em 2016. Vamos acompanhar com atenção.

 

Separei dois setores para analisar juntos:

– Exportação: alta de 6,09%.

Um setor que poderia salvar o ano, subiu, mas deveria ter subido muito mais. Em 2015, a PTAX (dólar usado como referência para o comércio exterior) média foi de R$ 3,38, contra R$ 2,35 em 2014. Podemos concluir que, no ano passado, o dólar ajudou nossas vendas, mas não o suficiente para termos crescido com muito mais força. Alguns vão dizer que foi porque a economia chinesa desacelerou, outros vão argumentar que os preços das commodities caíram bem em 2015, mas eu acho que nenhum dos dois aspectos é justificativa para o crescimento de apenas 6,09% nas nossas exportações. Uma coisa que precisamos ter em mente, como já citado em outros parágrafos, é que o nosso setor industrial está se tornando pouco competitivo em relação aos concorrentes de outros países. Aqui quero destacar um problema grave, que está atrapalhando demais as nossas exportações: a logística dos transportes terrestre, aéreo e marítimo. É só andar pelo Brasil, para ver esses problemas estampados. Então, quem poderia ajudar demais, ajudou sim, mas pouco. Segundo o IBGE, os setores que mais se destacaram foram: petróleo, soja, produtos siderúrgicos e minério de ferro.

– Importação: queda de 14,32%.

Não quero ser repetitivo, mas sabemos os motivos: uma mistura de real desvalorizado (tornando mais cara a compra no exterior) com queda da economia. Tanto é que, em 2015, tivemos um saldo positivo na Balança Comercial (Exportação – Importação) de US$ 20 bilhões, o maior valor dos últimos 4 anos. Isso só ocorreu porque a importações despencaram. As maiores quedas foram dos setores de máquinas e equipamentos (como explicado anteriormente), automóveis, petróleo e derivados.

 

Causa de todos esses números ruins

Condução equivocada da política econômica nos últimos 4 anos:

a. Usar os preços administrados como política de combate à inflação, aumentando ou diminuindo os preços ao bel-prazer e não de acordo com a necessidade das empresas (lembrar do setor elétrico, cujas tarifas o governo derrubou na canetada!);

b. Gastar muito mais do que arrecada;

c. Não fazer reforma da Previdência, que gera um enorme prejuízo para os cofres públicos;

d. Colocar um ministro da Fazenda (Joaquim Levy) que não tinha apoio nem da Presidência da República;

e. Briga eterna com o Congresso, não conseguindo aprovar medidas importantes para economia;

f. Tentativa de aumentar a arrecadação via aumento de impostos e não via aumento da produção. Essa decisão é inflacionária.

 

Lava Jato impactando demais o setor de extração mineral.

 

E, no ambiente externo, podemos destacar: queda no preço das commodities no mundo e um menor ritmo de crescimento chinês.

 

Conclusão

Perdemos o bonde da história! As 34 maiores economias do mundo (90% do PIB mundial) devem crescer em 2015, em média, por volta de 2,40%. E nós caímos 3,85%!

 

Temos que trabalhar, trabalhar e trabalhar. E isso inclui, hoje em dia, principalmente o governo, que precisa propor medidas que ajudem a melhorar a economia. Precisa se acertar com o Congresso. Não ter acordo com os parlamentares atrapalha demais. Se isso não for resolvido, podemos ter saudades de 2015. Espero que não.

 

Só um último dado: pela ordem, as 3 piores quedas da economia na história do Brasil, desde 1500: 4,35% em 1990 (Plano Collor), 4,25% em 1981 (crise do Petróleo) e 3,85% em 2015 (dentro destes parênteses, o leitor escolhe o que colocar).

 

Leitores, bem-vindos ao carnaval de 2012. Voltamos no tempo, que tristeza!

Tendências: