PIB 2018: em um ano, andamos 120 dias

PIB 2018: em um ano, andamos 120 dias

Saiu hoje o PIB de 2018 e o crescimento foi de 1,13%. Foi um desempenho abaixo do esperado, que era 1,35%. Em relação ao quarto trimestre de 2016, que foi nosso “fundo do poço”, houve alta de 3,40%. Mas o fato é que ainda estamos longe do topo histórico de março de 2014.

Alexandre Cabral

01 de março de 2019 | 05h40

Saiu hoje o PIB de 2018 e o crescimento foi de 1,13%. Foi um desempenho abaixo do esperado, que era 1,35%. Em relação ao quarto trimestre de 2016, que foi nosso “fundo do poço”, houve alta de 3,40%. Mas o fato é que ainda estamos longe do topo histórico de março de 2014. De lá para cá, o tombo foi de 5,06%. Assim, o País precisa crescer algo próximo de 5,30% para voltar à sua melhor performance.

 

Mas vamos explicar o título deste texto.

O IBGE divulga o PIB em um relatório cheio de recortes. Um deles é a “Série Encadeada do Índice de Volume Trimestral com Ajuste Sazonal”, que mostra, em pontos, o PIB acumulado desde 1995. Olhando o gráfico a seguir, podemos visualizar o que estou dizendo. Vamos por partes:

a. No fim de 2018, o número índice era 167,56 e, no fim de 2017, 165,70. Dividindo um número pelo outro, chegamos à variação do PIB de 2018 (1,13%).

b. Repare que o número do fim de 2017 (165,70) é muito próximo do número do fim de 2015 (165,79).

c. Os números de 2015 foram todos declinantes: 2ºTri15, 169,55; 3ºTri15, 167,16; e 4ºTri15, 165,79.

d. O meu objetivo foi achar, em 2015, o 167,56 (resultado do fim de 2018). Em um primeiro momento, vi que estava entre o 2ºTri15 (169,55) e o 3ºTri15 (167,16).

e. Transformei esse período em meses e concluí que, no fim de agosto de 2015, o índice era 167,95 – bem próximo, portanto, do 167,56 do fim de 2018.

f. No fim de agosto de 2015, foi 167,95; no fim de dezembro de 2015, tivemos 165,79; e, no fim de 2017, 165,70. Números índices bem próximos.

g. Logo, conclui-se que o crescimento do ano passado (1,13%) recupera a queda de apenas 4 meses de 2015 (setembro, outubro, novembro e dezembro). Por isso que digo que, em um ano (2018), andamos módicos 120 dias. É muito pouco! Mas muito pouco mesmo!!

 

Quais as notícias boas de 2018?

a. O PIB não caiu. Esse fato já é excelente.

b. A conta Formação Bruta de Capital Fixo teve alta de 4,13%, o primeiro número positivo após 4 quedas seguidas. O que significa essa conta? “Acréscimos ao estoque de bens duráveis destinados ao uso das unidades produtivas, realizados em cada ano, visando ao aumento da capacidade produtiva do País.” Mas por que essa notícia é boa? Pelo fato de esse crescimento ter sido puxado pelo aumento da produção interna e também pelas importações de produtos ligados a bens de capital.

c. O consumo das famílias (+1,90%) foi maior que a alta do PIB como um todo.

d. As importações cresceram 8,49%.

Isso mostra que a economia tem condições de crescer, só falta ajuda do governo e do Congresso.

 

Quais as notícias ruins?

a. O setor agro teve alta apenas leve, de 0,10%.

b. A construção civil registrou queda de 2,53%

c. O consumo do governo apresentou inexpressiva alta de 0,02%

 

O que atrapalhou em 2018

a. Greve dos caminhoneiros – quase não resolveu nada e fez com que a economia parasse por algumas boas semanas.

b. As turbulências do período eleitoral. Desde as várias semanas de indefinição da candidatura Lula até um segundo turno entre Bolsonaro (que o mercado não ama e, sim, atura) e Haddad. Um período de grande falta de confiança na economia, afinal, durante um semestre inteiro, não se tinha ideia de quem poderia comandar o Brasil de 2019 até 2022.

c. Capacidade ociosa das indústrias. Em alguns setores, temos algo como 75% de ocupação – ou seja, 25% de máquinas paradas.

d. Problema fiscal. Imagine o medo que sente o grande investidor, local ou estrangeiro, quando olha os números do governo federal, com rombo crescente por anos seguidos

e. Desemprego ainda alto. Aqui vale lembrar que as pessoas físicas representam 64,3% de tudo que é consumido no País.

 

O que esperar de 2019?

Não estou otimista, mas também não estou pessimista. Acredito que, em 2019, o PIB cresça algo próximo de 1,40% a 1,60%. Ainda não consigo vislumbrar os 2% citados por muita gente por aí. Preocupam-me demais as contas públicas. E, falando nelas, temos que lembrar da Reforma da Previdência. Digo o seguinte: a proposta apresentada pelo governo Bolsonaro é tão boa, que não vai passar. Ou, se passar, vai ser tão desidratada, que parecerá mais um “quebra-galho” que uma reforma ideal. Mas deixo esse tema para outro texto.

Temos também que nos preocupar com o cenário internacional. Existe a possibilidade de um crescimento menor, em 2019, de vários países que são parceiros importantes do Brasil. O FMI tem liberado relatórios alertando sobre o impacto negativo que a guerra comercial entre China e EUA pode ter também sobre as demais economias. Isso, sem falar em questões potencialmente explosivas, como a do mimado Trump em relação ao muro na fronteira com o México. Como o Brasil depende de vários desses países, sentiremos por tabela essa crise.

 

Só mais um dado

A Bolsa divulga diariamente o volume de ações compradas e vendidas pelos estrangeiros e o saldo. Em 2019, o valor está positivo em R$ 311 milhões (até o dia 26 de fevereiro). Mas, no acumulado de outubro de 2018 até o último dia 26, temos uma saída de R$ 11,5 bilhões. Isso mostra que os investidores estrangeiros estão esperando alguma medida mais concreta do governo, para só então acreditar que o Brasil vai dar certo. E digo que parte considerável da culpa por essa situação nós vamos poder jogar no colo do Congresso, caso nossos parlamentares resolvam fazer gracinha na Reforma da Previdência.

Claro que não podemos esquecer a família Bolsonaro e seus aliados, que nos brindam com uma “surpresa” a cada dia.

 

Conclusão

Em 1 ano, avançamos 120 dias e isso é muito ruim. Tomara que o governo consiga aprovar as reformas necessárias, para que o País possa voltar a crescer de maneira consistente.

 

Edição Patrícia Monken