PIB da era Dilma em ritmo de Quarta-feira de Cinzas!

Alexandre Cabral

04 Fevereiro 2016 | 08h24

Neste texto, vamos discutir se o governo Dilma soube ou não aproveitar o crescimento mundial. Será que ficamos para trás? Quais os motivos que nos levaram a surfar ou não essa era.

 

Estamos a poucas horas de um dos eventos mais esperados do ano: o Carnaval. Eu, como bom carioca, amo o Carnaval e resolvi usar uma música para começar o texto de hoje: o samba-enredo da escola de samba União da Ilha, de 1978, chamado “O Amanhã”. Diz o seguinte:

“A cigana leu o meu destino
Eu sonhei
Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante
Eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino
E vai chegando o amanhecer
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Como será o amanhã
Responda quem puder
O que irá me acontecer
O meu destino será como Deus quiser”

Mas o que essa música tem a ver com o texto? Muita coisa. Principalmente a pergunta “o que será o amanhã?”.

 

Uma pequena explicação antes da discussão

O que iremos estudar: o crescimento econômico (PIB) dos principais países do mundo.

O que é PIB: O Produto Interno Bruto é a soma de todos os bens e serviços produzidos por um país. Todos os países do mundo calculam o seu PIB, nas respectivas moedas. No Brasil, portanto, o PIB é a soma, em reais, de todos os bens e serviços que produzimos por aqui.

Fonte dos dados deste texto: para evitar qualquer dúvida, consultei o site do FMI – Fundo Monetário Internacional.

Para adotar uma única linguagem entre os diferentes países, vou considerar os dados em dólar – já convertidos pelo FMI.

A variação em percentual, porém, será na moeda de cada país. Portanto, a variação do nosso PIB será calculada em reais e a dos demais países, em suas respectivas moedas. Um padrão usado por nós, economistas.

Os dados de 2015 e 2016 são expectativas do PIB, pois, na maioria dos países, esses dados ainda não são oficiais.

 

Como separei os dados – parte 1

Num primeiro momento, só considerei países que têm disponível toda a base de dados entre 1995 e 2016. Por que isso? Para utilizar uma amostra que inclui todo o período de Plano Real.

Cheguei assim a 171 países.

Entre 1995 e 2016, o Brasil cresceu 73,74% , o que dá uma média anual de 2,54%. Isso nos deixa na posição 123, do total de 171 países. Quem lidera o ranking é a Guiné Equatorial, com crescimento de 4.721,53% no período, ou uma média anual de 19,26%. A China aparece em quarto lugar, com alta de 603,17% no período, ou média de 9,27% ao ano.
Nossos 3 vizinhos sul-americanos mais bem colocados, todos na nossa frente, são: Peru, com crescimento de 171,86% no período, ou 4,65% de média ao ano; Chile, com 151,28% no período e média anual de 4,28%; e Bolívia, com alta de 142,71% no período e média de 4,11% ao ano.

Ficamos melhores que vários países desenvolvidos. Para não exagerar na quantidade de números, vou colocar neste parágrafo somente a porcentagem para o período de 1995 a 2016, todos com crescimento: Estados Unidos, com 69,82%; Inglaterra, 59,80%; França, 41,21%; Alemanha, 34,02%; Portugal, 29,92%; e Japão, 19,96%.

Até aqui, nesta análise, não estamos propriamente em um paraíso, mas também não está ruim. Crescemos mais que vários países desenvolvidos.

 

Como separei os dados – parte 2

Em seguida, resolvi separar os dados em dois períodos: de 1995 até 2010 e de 2011 até 2016, isolando assim a era Dilma.

Vejamos o que aconteceu:

Entre 1995 e 2010, o Brasil cresceu 66,39% , com média de 3,23% ao ano, o que nos deu a posição 104, dentro do grupo de 171 países. Percebemos então que, se considerarmos todo o Plano Real, crescemos, em média, 2,54% ao ano. Mas, se considerarmos somente o período antes da presidente Dilma assumir o poder, o crescimento é 27% maior, ficando com média de 3,23% ao ano. A pergunta é: será que estamos perdendo a onda de crescimento do mundo? Antes de responder, vamos aos dados do segundo período, a era Dilma (desculpe ser chato com muitos números, mas eles são essenciais, para que eu possa defender uma linha de pensamento neste artigo).
Se considerarmos somente o período entre 2011 e 2016 (vejam bem, não estou falando que a Dilma sai em 2016. É que a previsão para os próximos anos, até 2018, deve sofrer muita influência de fatores que podem mudar a qualquer momento. Por isso, não me senti confortável em usar), crescemos, em média, 0,72% ao ano e caímos para a posição 151. O que? Sim, isso mesmo! Descemos da posição 104 (1995 – 2010) para a 151. Dentre os países desenvolvidos, só ficamos à frente de 4: Japão, Espanha, Itália e Portugal. Com relação aos nossos vizinhos da América do Sul, superamos apenas a Venezuela (pelo amor de Deus, ganhar da Venezuela não é mérito para ninguém, é obrigação!).

 

Resumindo até agora: entrei no site do FMI e peguei o percentual de crescimento de 171 países. Aí separei o estudo em 3 cenários:

– Primeiro cenário: todo o Plano real, de 1995 a 2016. Resultado: crescemos, em média, 2,54% ao ano e estamos na posição 123.

– Segundo cenário: Plano Real, antes da presidente Dilma (1995 – 2010). Resultado: crescemos, em média, 3,23% ao ano, ficando na posição 104.

– Terceiro cenário: somente o período sob o comando da presidente Dilma (2011 – 2016). Resultado: crescemos, em média, 0,72% ao ano e ficamos na posição 151.

 

Mas aí eu fiquei em um dilema: não acho justo comparar, em um mesmo estudo, países com as maiores economias do mundo e outros com o PIB menor que alguns municípios brasileiros. Qualquer empresa que se instale ou a descoberta de um produto novo podem fazer com que a economia desses países menores cresça de forma vertiginosa. Então resolvi fazer o meu último filtro e, aí sim, discutir o que ocorreu no Brasil.

 

Como separei os dados – parte 3

Fiz o seguinte recorte: considerando a expectativa para o ano de 2016, coloquei os países em ordem de tamanho do PIB, do maior para o menor, e parei em 90,10% do PIB mundial. Fiquei então com 34 países, que devem produzir 90,10% de todos os bens e serviços em 2016.

Vejamos então como fica nossa posição nos rankings:

– Primeiro cenário: todo o Plano Real, de 1995 a 2016. Resultado: crescemos, em média, 2,54% ao ano e estamos na posição 19.

– Segundo cenário: Plano Real, antes da Presidente Dilma (1995 – 2010). Resultado: crescemos, em média, 3,23% ao ano, ficando na posição 18.

– Terceiro cenário: somente o período sob o comando da presidente Dilma (2011 – 2016). Resultado: crescemos, em média, 0,72% ao ano. E ficamos na posição 30.

Repare que nossa taxa média de crescimento anual entre 2011 e 2016 nos coloca em trigésimo lugar, numa lista de 34 países! Ficamos à frente apenas de Japão, Irã, Espanha e Itália.

 

Agora a questão: Por que perdemos essa onda de crescimento mundial nos últimos 6 anos?

1) Existe uma premissa básica na vida: nunca gaste mais do que ganha. Ou pelo menos evite ao máximo que isso aconteça. Mas o Brasil esqueceu essa premissa. Em 2010 (último ano do Lula), fechamos o caixa positivo em R$ 101,60 bilhões (quer dizer, arrecadamos bem mais do que gastamos). Em 2013, o superávit foi de R$ 91,30 bilhões. Em 2014, ficamos negativos em R$ 32,50 bilhões. E, no ano passado, o rombo do caixa foi de R$ 111,20 bilhões. Como pode um país fechar o ano com as contas negativas em R$ 111,20 bilhões? Se fosse com você, leitor, pessoa física, o que poderia ocorrer? Você iria ao banco pegar dinheiro emprestado – pagando juros mais caros, porque os bancos teriam maior receio sobre suas condições de honrar a dívida. Seu nome passaria a ter uma bola preta ao lado: empreste, mas com cuidado. E isso ocorreu com o Brasil também. Perdemos o grau de investimento – ou o selo de bom pagador – em duas, das três principais agências de classificação de risco.

Antes de explicar como chegamos a esse ponto, temos que lembrar que, em 2015, o governo acertou as contas das famosas pedaladas fiscais. Vale então ressaltar que, dos R$ 111,20 bilhões de déficit, R$ 72,40 bilhões foram destinados ao pagamento das pedaladas.

Mas por que chegamos a essa situação tão dramática nas contas públicas? Na parte da receita, com a recessão por que estamos passando, a arrecadação dos impostos caiu bastante. Menos venda, menos imposto recolhido.

Na parte dos custos, mesmo o governo sabendo que o ano seria ruim, continuou com grandes gastos em programas sociais. Infelizmente, em um momento de crise, todos têm que sentir um pouco na carne. Não dá para somente uma minoria pagar por todos.

Além disso, o governo diminuiu alguns impostos para tentar aquecer a economia. Em vez de reduzir os gastos, tentou aumentar a receita via desoneração de tributos. Que frase doida! Mas o raciocínio era que a diminuição de alguns impostos tornaria os produtos mais baratos, aumentando as vendas e, portanto, reforçando a arrecadação. Só que não deu certo.

 

2) Outro aspecto importante é a Previdência (INSS). O rombo em 2015 foi de R$ 85,81 bilhões. Todos sabem que precisamos de uma reforma para ontem! Só que parece não haver uma vontade muito grande do poder Executivo para resolver o problema (qualquer medida necessária é absurdamente antipopular) e também não vemos esforço por parte do Congresso Nacional. Mas essa reforma está se tornando cada vez mais urgente. Ou muda agora, ou não sei se, no futuro, eu irei receber algo do INSS. A população está envelhecendo rapidamente demais e a arrecadação não está acompanhando.

 

3) Se acrescentarmos aos itens 1 e 2 os juros pagos pelo governo, o nosso rombo vai para R$ 613 bilhões. Detalhe: o pior resultado anual de todo o Plano Real. Como estamos com inflação alta, temos que subir os juros (já discutido em outros artigos) e isso torna a nossa dívida muito cara. Para se ter uma ideia, o governo federal fechou o ano de 2015 com uma dívida próxima de R$ 2,8 trilhões.

 

4) Outro aspecto crucial foi a estratégia adotada para manter a inflação dentro da meta. O que? (Eu até escrevi um artigo sobre esse tema aqui no blog). Em 2013, com medo de estourar o teto da meta de inflação, o governo, na canetada, diminuiu a conta de luz, levando a um represamento dos preços. Um dia essa fatura ia chegar e foi o que aconteceu em 2015. Tivemos uma inflação de mais de 10%. Em vez de deixar os preços flutuarem de acordo com oferta e demanda, e, por meio de política de juros, tentar segurar a demanda e evitar a disparada da inflação, o governo optou por segurar os preços de maneira artificial. Assim, concluo que o governo fez escolhas erradas na tentativa de segurar a inflação.

E agora também está ajudando na inflação da iniciativa privada. Como assim? Para aumentar a arrecadação, o governo está elevando impostos de alguns produtos e essa alteração será repassada para os preços. Opa, o que? Isso mesmo. Em vez de adotar medidas para aquecer a economia, o governo aumenta os impostos para arrecadar mais (e assim tentar diminuir o rombo nas contas públicas) e acaba ajudando a aumentar a inflação dos preços que ele não controla. Produtos como chocolate e vinho já tiveram impostos aumentados. Em 2016, a previsão é que a inflação fique por volta de 8%, se não piorar mais ainda no decorrer do ano.

 

5) Ainda sobre a questão inflação, o governo teve que aplicar um tarifaço em 2015, em vários produtos com preços administrados. Logo, o que ocorreu? Os trabalhadores tiveram uma diminuição do seu poder de compra => começaram a consumir menos => os empresários passaram a vender menos => começaram a ter problemas de receita => passaram a demitir.

O raciocínio é simples. Se não tenho para quem vender, a minha empresa não arrecada. Se não arrecada, eu não consigo pagar os meus funcionários. Solução? Demissão. Não estou dizendo aqui que os empresários são culpados, longe disso! Estou dizendo que eles estão sentindo na carne a paralisia do País.

Sem contar que, com o aumento dos juros para segurar a inflação, ficou muito caro para o consumidor pegar dinheiro emprestado para financiar a compra de produtos, como automóveis por exemplo, gerando ainda mais problemas para a economia.

 

6) O escândalo da Lava Jato paralisou a Petrobras e várias outras grandes empresas. Se elas não investem, diversos setores sentem.

 

7) Para piorar a situação, com a queda do preço internacional do petróleo, vários projetos da Petrobras foram paralisados

 

8) Problemas de infraestrutura. Olha para o nosso setor de transporte de mercadorias. É muito ruim, tornando muito caro levar o produto da origem até o porto.

Além disso, mesmo com o real desvalorizado, as nossas exportações não sobem como deveriam. Aqui temos um problema, a grande dependência ainda de venda para o exterior de produtos básicos, como commodities agrícolas e minerais. E a culpa é puramente nossa: a indústria brasileira ainda não é tão competitiva lá fora.

 

9) Questão política. Em 2014, a presidente Dilma foi eleita por uma diferença pequena de votos. E até hoje ainda tem uma dificuldade muito grande para fazer maioria nas votações do Congresso. Isso deve se estender por todo o ano.

 

10) Possibilidade de a presidente sair do poder, via impeachment ou julgamento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

 

11) O menor crescimento da China, mas por favor não queira jogar toda a culpa nela.

 

Diante de todo esse quadro, os empresários ficam com receio de investir no Brasil. Será que o governo vai manter as regras e metas? Ou será que, a qualquer momento, pode mudar, para favorecer dados econômicos? Será que vai honrar a dívida que eu assumir com o Estado? O desemprego vai continuar crescendo? E a inflação? São muitas dúvidas, que afastam o empresariado, não só brasileiro, mas do mundo todo.

 

Conclusão

Nos últimos anos, perdemos o “bonde” e estamos deixando de crescer, em parte (considerável) devido a medidas tomadas de forma errada pelo governo e, em parte (muito menor), por causa do crescimento um pouco mais modesto do mundo nos últimos anos. Mas repare que eu falei “crescimento mais modesto” e não “recessão”. Em média, os 34 países com as maiores economias devem crescer por volta de 2,25% ao ano, entre 2011 e 2016. Enquanto o Brasil, no período, deve amargar a média de 0,72% ao ano.

O que acontecerá a partir de agora? A julgar pelo ambiente de incertezas, é como diz o samba:
“Como será o amanhã
Responda quem puder…”

 

Fato curioso que descobri no estudo

Em 1995, a economia do Brasil era 1,07 vez maior que a da China, 2,51 vezes maior que a da Rússia e 5,06 vezes maior que a da África do Sul. Hoje somos 0,14 vezes o tamanho da China, 1,41 vez maior que a Rússia e 5,12 vezes maiores que a África do Sul. Esses países são os famosos BRICs.