Por que parte do Banco Central deseja o aumento dos juros?

Alexandre Cabral

26 de novembro de 2015 | 21h16

Primeiro vamos ver as encruzilhadas que o Banco Central tem que administrar:
– Não aumentar os juros e ter dificuldade de controlar a inflação?
– Aumentar os juros e elevar a dívida interna?
– Aumentar os juros e piorar o crescimento da economia?

O que é a reunião?

Ontem tivemos a reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, que ocorre a cada 45 dias aproximadamente para definir os juros da economia brasileira. Algo comum em vários países do mundo. O objetivo prático dessa reunião é que se o governo – no caso, o BC – acha que a inflação está subindo de uma forma mais acelerada do que o esperado, ele eleva os juros. Por que faz isso? Porque ao subir os juros a população sente um aumento nos valores dos produtos comprados de forma financiada, podendo adiar a aquisição, com receio de não conseguir honrar o compromisso no futuro. Os empresários, percebendo a dificuldade na venda, poderão abaixar os preços ou mantê-los estáveis para atrair de volta o consumidor, ajudando no controle da inflação. Mas o que ocorreu na reunião de ontem? Dois dos oito diretores do comitê votaram a favor do aumento de 0,50 ponto porcentual da taxa de juros brasileira – a Selic, que hoje está em 14,25% ao ano. Mas a maioria votou pela manutenção do atual patamar.

Não aumentar os juros e ter dificuldade de controlar a inflação?

Mas esse aumento funciona? Perfeitamente, se a culpa da inflação fosse uma relação entre consumidor e produtor. Só que atualmente boa parte da inflação brasileira é baseada em aumento dos produtos administrados (produtos que sobem por decisão governamental, baseados em contratos firmados ou por pura decisão de reajuste, como gasolina e energia elétrica) . Para se ter uma ideia, a inflação (IPCA) deste ano, entre janeiro e outubro, subiu 8,53%, sendo que os produtos cujos preços são controlados pelo governo geraram uma inflação nesse mesmo período de 16,19%. Já os preços livres, que são decididos pela relação consumidor/empresário, tiveram um aumento de 6,37%. Por que a política do governo de subir juros incide muito pouco nos preços administrados? Porque você vai continuar consumindo energia e combustível, por exemplo, independentemente da situação. Você pode até diminuir, mas não consegue zerar. O problema é que o BC, ao não elevar os juros, também pode colocar lenha na fogueira dos preços livres.

Aumentar os juros e elevar a dívida interna?

Para piorar, o aumento de juros pode impactar na elevação da dívida pública. Para se ter uma ideia, se os juros subirem de 14,25% ao ano para 14,75% ao ano, só um título do governo que é atrelado à Taxa Selic (LFT ou Tesouro Selic) deve gerar um aumento de R$ 80 bilhões na dívida interna durante o ano de 2016 (eu fiz esse cálculo baseado no último relatório do Tesouro Nacional). Essa dívida já está em R$ 2,6 trilhões. O aumento dos juros pode até conter a inflação, mas piora a dívida do País.

Aumentar os juros e piorar o crescimento da economia?

A última encruzilhada é a do crescimento econômico. Juros altos e economia em crise não combinam. Vamos imaginar que sua empresa está vendendo cada vez menos e que, para conseguir se financiar, você pega dinheiro emprestado, mas com juros mais altos. Isso vai resolver ou piorar ainda mais a sua empresa? Com o Brasil é a mesma coisa: o aumento de juros pode nos levar para uma recessão em 2016 ainda pior do que está sendo esperado pelos economistas. Tudo porque os empresários vão ter dificuldades de vender e o custo do dinheiro emprestado será maior.

Resumindo, até posso entender a intenção desses dois diretores do Banco Central ao defenderem a alta de juros. Mas tenho muitas dívidas se isso resolverá ou se vai ajudar a piorar a situação.

Um último questionamento: será que o Banco Central já está colocando na conta a perda de grau de investimento do Brasil e, com isso, quer aumentar os juros agora para evitar, no futuro, novas elevações, justamente quando o País for rebaixado?

Para se pensar.

#Oremos

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