Por que será que o Banco Central não subiu os juros?

Alexandre Cabral

21 de janeiro de 2016 | 09h44

O famoso filósofo brasileiro Chacrinha falava:

– “Quem não se comunica se trumbica”

Agora você me pergunta: o que isso tem a ver com a reunião do Banco Central de ontem (20 de janeiro de 2016), à noite? Leitor, é exatamente isso que vou explicar agora.

Primeiro, a famosa e tão esperada introdução:

O que é o Copom?

É o Comitê de Política Monetária, composto por oito diretores do Banco Central, que se reúnem a cada 45 dias para decidir qual será a taxa de juros oficial do Brasil (esse mesmo padrão é utilizado nas principais economias do mundo).

Qual o objetivo prático?

Tomar medidas para deixar a inflação brasileira dentro de uma banda. E qual é essa banda? A inflação ideal brasileira fixada pelo BC é de 4,50% ao ano, podendo oscilar 2 pontos percentuais para cima ou para baixo. Logo, a banda varia entre 2,50% e 6,50% ao ano (4,50 – 2,00 = 2,50 e 4,50 + 2,00 = 6,50) e é dentro deste intervalo que a inflação brasileira precisa fechar o ano. Esse mecanismo também é conhecido como “regime de metas para a inflação”. Dentro desse regime, 4,5% ao ano são o chamado centro da meta e 6,5% ao ano, o teto da meta.

O que o Copom faz para alcançar essa meta de inflação?

Aumenta ou diminui a taxa de juros.

Quando opta por aumentar?

Quando acha que a inflação está subindo muito e acredita que a alta da taxa de juros irá inibir o consumo.

Mas como consegue inibir o consumo por meio dos juros?

Devido a três fatores:
1) Com taxas mais altas, os consumidores podem preferir poupar a consumir, já que as aplicações financeiras darão um bom rendimento.

2) As taxas mais altas também podem levar à dificuldade de crédito, já que deixam mais caras as prestações no financiamento dos produtos. Com isso, o consumo cai.

3) A retração nas vendas pode fazer com que os empresários segurem ou até diminuam os preços. Assim, a inflação não sobe ou até pode cair.

Qual o nome dessa taxa fixada pelo Copom?

Taxa Meta Selic, que hoje está valendo 14,25% ao ano.

Qual o efeito prático dessa taxa?

Aqui o leitor pode falar: “a taxa do cartão de crédito é de 300% ao ano; a do cheque especial, 220% ao ano. Para que servem 14,25% ao ano na minha vida? Se subir para 14,50% ao ano, nada muda”. Aí é que você se engana! A simples demonstração de que a taxa básica de juros mudou já altera toda a expectativa futura. Mudando essa expectativa futura, os bancos também mexem nas taxas de juros cobradas do consumidor. Então, rola um efeito em cascata.

Ok, entendi essa introdução. Mas o que ocorreu ontem (20/01)?

Peço um pouquinho de paciência e vou ter que voltar rapidinho à reunião anterior do Copom, que aconteceu em novembro de 2015.

Naquela reunião, a última do ano passado, o mercado financeiro esperava que os juros não subissem. Mas, para surpresa geral, dois diretores votaram a favor do aumento da taxa em 0,50% ao ano. Como os outros seis membros do Copom votaram pela manutenção da taxa em 14,25% ao ano, os juros não subiram. A divergência dentro do Copom foi mencionada na ata da reunião, divulgada no início de dezembro. Diz o texto:

“ 28.(…) Parte de seus membros argumentou que seria oportuno ajustar, de imediato, as condições monetárias, de modo a reduzir os riscos de não cumprimento dos objetivos do regime de metas para a inflação. No entanto, a maioria dos membros do Copom considerou monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião para, então, definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.”

Esmiuçando: a meta de inflação está entre 2,50% e 6,50% ao ano. O risco é a inflação ficar maior do que 6,50% ao ano em 2015 e 2016.

Mas qual foi a mensagem que o mercado financeiro entendeu desse parágrafo da ata? “O gato subiu no telhado” e agora existe uma chance considerável dos juros subirem na reunião de janeiro de 2016. A leitura foi que, no fim de 2015, dois diretores do Banco Central começaram a perceber a mudança na expectativa de cenário inflacionário e o discurso do BC sobre comportamento da taxa de juros mudou.

Outro trecho da ata que me chamou a atenção foi:

“32. (…) o Comitê adotará as medidas necessárias de forma a assegurar o cumprimento dos objetivos do regime de metas, ou seja, trazer a inflação o mais próximo possível de 4,5% em 2016, circunscrevendo-a aos limites estabelecidos pelo CMN, e fazer convergir a inflação para a meta de 4,5% em 2017”.

Aí foi a cartada final, que eliminou qualquer dúvida: a Meta Selic vai subir em janeiro de 2016! A interpretação do comunicado do BC foi que o combate à inflação não seria fácil em 2016 e o objetivo de manter a taxa dentro da banda (como explicado anteriormente) só seria alcançado em 2017. Conclusão: os juros sobem em 2016 e ficam altos por um período considerável, para tentar segurar a inflação em 2016 e chegar à meta em 2017.

Falou, falou, falou… Mas e ontem (20/01)?

Até a segunda feira, dia 18/01, a maior parte do mercado financeiro (88%) apostava que os juros subiriam 0,50% ao ano agora em janeiro. Essa expectativa é captada por meio de contratos negociados no mercado financeiro, que não são o objetivo prático deste texto (em outra oportunidade, explico como cheguei em 88%).

Mas, voltando à sensação do mercado, a expectativa de alta dos juros era muito forte. No dia 19/01 (terça), o FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou relatório revisando os números para o Brasil. O fundo passou a acreditar que a economia brasileira vai encolher 3,5% em 2016 (no comentário anterior, estimava queda de 1%) e que, em 2017, terá performance próxima de zero, só voltando a crescer em 2018.

Curiosamente – e para surpresa geral do mercado -, o presidente do Banco Central brasileiro, Alexandre Tombini, se pronunciou sobre essa posição do FMI e divulgou comunicado, dizendo que “todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado”. Como o mercado leu essa declaração? Os juros sobem agora 0,25% ao ano, em vez de 0,50%, como esperado desde a última reunião em novembro. Até aí, aceitável essa manifestação, concorda? Não é ideal o BC se pronunciar na véspera de uma reunião do Copom, mas também o mundo não acaba se falar algo.

Só que, para entornar mais ainda o caldo, o presidente do Banco Central havia se reunido com a presidente Dilma Rousseff na segunda-feira (18/01), véspera da divulgação do comunicado. Qual foi a conclusão dos analistas? Que a Presidência da República, de certa forma, cobrou o não aumento ou uma subida muito leve das taxas de juros, para não atrapalhar a condução da economia.

Conclusão até agora:
O Banco Central, no fim de 2015, dá a entender que os juros iriam subir em janeiro => O presidente do Banco Central se reúne com a Dilma no dia 18 de janeiro => No dia seguinte, o FMI libera um relatório dizendo que a economia brasileira vai ficar bem ruim neste ano => No mesmo dia, o BC diz que o relatório do FMI será considerado para a reunião do Copom. Opa! Será que o BC pensou isso sozinho ou teve influência do Palácio do Planalto para liberar o comentário divulgado no dia 19? Eu, sinceramente, espero que tenha pensado sozinho.

Mas o Copom deveria mesmo subir os juros agora?

Na minha modesta opinião, não!

Por que os juros não devem subir? A inflação brasileira não está sendo gerada por excesso de demanda das pessoas (lembra do que comentei, lá no começo do texto, sobre subir juros para segurar o consumo?). Ao contrário, estamos em uma recessão tão grande, que os indivíduos estão evitando gastar. Leitor, pare para pensar. Quantos produtos ou serviços você deixou de consumir nos últimos meses porque os preços subiram demais ou porque está com medo da recessão? Se ficar desempregado, você, leitor, pode ter uma grande dificuldade de se realocar. Pense nisso.

Fora que a economia está afundando, mas afundando forte. Mais juros vai jogar uma pá de cal no país e piorar o ambiente.

Portanto, se não há pressão de demanda, subir os juros não vai adiantar nada.

Mas de onde então está vindo a inflação?

Alguns fatores se destacam, mas quero comentar aqui um: o repasse nos preços por parte do empresariado. Mas como aumentar preços nesse ambiente de caos? Vamos ver o que parte dos empresários está pensando: a inflação de 2015 foi de 10,67% ao ano => Ou seja, meus custos subiram => Se eu não repassar, vou ter prejuízo e logo fecharei o meu negócio => Se eu repassar, alguns consumidores fogem, mas pelo menos eu tento sobreviver, já que meus custos subiram bem em 2015. Então o que alguns empresários estão fazendo? Repassando aumento de custos para o consumidor. Isso é muito perigoso, pois, aos poucos, estamos voltando a ter o fantasma do passado que é a reindexação da economia, também conhecida como repassar a inflação do passado para conseguir manter o próprio negócio.

Logo, não adianta subir os juros neste momento, pois isso não vai diminuir o já deteriorado consumo. Espero que o Banco Central tenha pensado como eu.

Conclusão

Subir os juros agora não adianta nada – ou quase nada. Concordei com a decisão do Banco Central e acho que não houve interferência política, já que a votação ficou igual à da reunião anterior e influenciar a cabeça de 6 diretores seria muito pouco provável. Mas o que ficou estranho foi que tudo começou com uma reunião com a Dilma. E o mercado não gostou disso. Se eu fosse o Banco Central, hoje (21/01) pela manhã chamaria uma coletiva de imprensa para me explicar e dizer por que a taxa de juros não subiu ontem. Por praxe, o BC divulga um relatório, a ata, 8 dias após a reunião. Mas pode ser tarde demais

Uma coisa chata por parte dos membros do nosso Banco Central é que eles acham que estão em um pedestal, de onde não podem se pronunciar. Anda, Banco Central, chama uma coletiva e se explica! É sua OBRIGAÇÃO falar com os brasileiros. Se demorar, a sua fama vai ficar ruim e logo vão começar a pedir para trocar a diretoria. Aí vai ser muito pior para todos nós brasileiros.

Portanto, “Quem não se comunica se trumbica”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.