Presidente Dilma: não utilize as Reservas Cambiais para aquecer a economia

Alexandre Cabral

29 de janeiro de 2016 | 08h55

Vamos debater se devemos usar ou não as Reservas Cambiais para aquecer a economia

No dia 07 de janeiro de 2001, eu saí do Rio de Janeiro e vim morar em São Paulo. Na ocasião, recebi várias recomendações e dicas dos familiares. Na verdade, até hoje minha mãe liga perguntando se estou com casaco e se não esqueci o guarda-chuva. Mas quero falar especificamente de uma das dicas: sobre compras. (“Para! Ele vai falar de supermercado agora? Pelo amor de Deus”). Os meus pais diziam:

– Filho, se você estiver com pouco dinheiro, só vá à feira aos domingos, depois das 13h. Porque é a hora da xepa e não tem feira às segundas. Portanto, se o feirante não baixar o preço, o produto vai encalhar, vai ter que ficar guardado até a terça-feira e pode estragar. Pense nisso, meu filho.

(“Agora ele enlouqueceu! O que isso tem a ver com a Reserva Cambial que o governo quer usar para investimentos?”). Vamos começar já a falar sobre isso.

O que vem agora? O que? A introdução, para facilitar a leitura.

O que é Reserva Cambial: é a quantidade de moedas estrangeiras sob posse do Banco Central brasileiro, depositada em uma conta corrente no exterior.

Quais moedas temos na Reserva? Predominantemente dólares americanos. Mas também temos euros, dólares australianos etc.

Quanto temos de Reserva hoje? 369,240 bilhões de dólares, em 26/01/16. Na virada do ano, em 31/12/2015, tínhamos 368,739 bilhões de dólares. Neste texto, vou considerar os números do dia 31 de dezembro, pois assim consigo fazer comparações com outros países.

Como surge a Reserva? É o saldo de tudo que entra e sai de dólares na economia, também conhecido como saldo do Balanço de Pagamentos. Para manter o equilíbrio, o excesso de dólares fica com o Banco Central, na forma de reserva cambial.

Como essa Reserva é remunerada? Como se trata de moeda estrangeira, a reserva está aplicada no exterior, remunerada pelas taxas de juros, em dólares, vigentes lá fora. Acredito que atualmente essa remuneração seja de algo próximo a 1% ao ano, na visão mais otimista.

 

Agora que explicamos o que são as reservas, preciso falar de um produto que é o Swap Cambial.

Muito utilizado hoje em dia, o Swap Cambial foi lançado pelo Banco Central há mais de 10 anos. Funciona assim:

1) Ao adquirir o Swap Cambial, o Banco A:

1.1) APLICA na variação do dólar mais uma taxa de juros ao ano – portanto, fica ATIVO na variação da moeda americana

1.2) DEVE ao Banco Central pela taxa Selic – portanto, fica PASSIVO na variação da nossa taxa básica de juros.

Já o BC fica na posição contrária: ATIVO em variação da Selic e PASSIVO em variação do dólar

Se a variação da moeda americana (1.1) for maior que a da Selic (1.2), o banco “A” ganha dinheiro, já que foi remunerado por um montante superior ao valor que teve que pagar.

O produto agradou aos bancos, que passaram a receber a variação do dólar, sem precisar ficar com a moeda americana em mãos. Portanto, o raciocínio é o seguinte: se os bancos acreditam que o real irá desvalorizar, investem em Swap Cambial. Se a moeda brasileira de fato perder valor, terão ganhos. Mas se o real se valorizar, terão perdas. Como o real tem se desvalorizado bastante nos últimos meses, os bancos estão tendo ganhos extraordinários.

O saldo das aplicações nesse Swap em 27/01/16 é de US$ 108,125 bilhões.

 

Já irei usar esses números, mas antes quero falar de um tema complementar.

Será que a reserva cambial brasileira, comparada ao nosso PIB, é muito alta? Como é a situação em outros países? Para responder a essas perguntas, consultei o site do FMI, para pegar os dados do PIB (tamanho das economias) em dólares, e o site da CIA, para obter as reservas em dólares. Todos os números são de dezembro de 2015.

Resultados do Brasil: Reserva de US$ 359,400 bilhões (um pouco diferente do dado do Banco Central, citado anteriormente) e tamanho esperado da economia de US$ 1,800 trilhão. Se dividirmos 359,400 bilhões / 1,800 trilhão, chegaremos a 19,97%. Portanto, nossa reserva cambial representa 19,97% do tamanho da economia brasileira.

Agora vamos citar alguns países, pela ordem do tamanho da reserva:

1º China – US$ 3,217 trilhões, que equivalem a 28,26% do PIB
2º Japão – US$ 1,261 trilhão, 30,63% do PIB
7º Rússia – US$ 377,800 bilhões, 30,57% do PIB
9º Índia – US$ 370,700 bilhões, 16,98% do PIB
10º Brasil – US$ 359,400 bilhões, 19,97% do PIB
13º México – US$ 204,100 bilhões, 17,57% do PIB
46º Chile – US$ 38,910 bilhões, 16,21% do PIB

Reparem que, em %, estamos perto dos nossos vizinhos latinos. Nada que chame muito a atenção de estar com reserva maior ou menor. Mas será que isso significa que estamos em um ponto de equilíbrio?

Antes de avançar, deixa eu resumir o que escrevi até aqui: O Brasil possui um estoque de moedas estrangeiras de aproximadamente US$ 370 bilhões, que representa quase 20% do nosso PIB. Os nossos vizinhos mais avançados economicamente têm percentuais parecidos. Então será que a ideia de usar a reserva cambial como estímulo da economia faz sentido?

 

O que dizem os defensores da diminuição da reserva:

Aqui o argumento é que o custo de manter estoque em dólares é muito alto.

Vamos explicar isso com exemplos. A Vale vendeu minério de ferro para os chineses, recebeu em dólares e foi ao Banco do Brasil transformar os dólares em reais. Se isso acontecer de uma forma constante, teremos muitos dólares na economia, fazendo com que o real se valorize. Dependendo do tamanho, essa valorização pode prejudicar a economia, principalmente os exportadores, que irão receber menos reais para cada dólar.

Qual a solução? O Banco Central compra os dólares do Banco do Brasil e segura a valorização rápida do real. Só que aqui podemos ter um problema. Qual? O Banco do Brasil, ao receber os reais em troca, pode não ter o que fazer com o dinheiro, ou até pode acabar emprestando e pressionando a inflação. Isso porque mais moeda em circulação pode causar aumento indesejado do consumo e levar à alta dos preços. Percebendo isso, o que faz o Banco Central? Pega os reais do Banco do Brasil emprestados, para devolver daqui a 180 dias, por exemplo. Aqui está o perigo! O Banco Central remunera o Banco do Brasil pela taxa de 14,15% ao ano (Taxa Selic) e é remunerado em dólares a 1% ao ano. Isso pode gerar um prejuízo muito grande para o BC, já que o custo da moeda real é mais alto que a receita na moeda dólar.

Portanto, o excesso de dólares pode aumentar a dívida do governo.

 

E o que dizem os que não gostariam de diminuir as reservas, como eu?

1) Primeiro, gostaria de dizer que não temos US$ 370 bilhões de reserva cambial, não temos mesmo! Mas como não? Lembram que eu falei, no começo do texto, sobre o Swap Cambial? Na minha cabeça, ao contratar o swap, os bancos aceitaram não receber os dólares porque estão sendo remunerados por um título que dá a mesma variação da moeda americana, satisfazendo a necessidade de apostar contra o real. Então, a reserva brasileira deve ser algo próximo de US$ 370 bilhões (reserva oficial) – US$ 108 bilhões (saldo do swap) = US$ 262 bilhões. Mas tem um detalhe: nem todos que saírem do swap vão querer de fato comprar os dólares. Assim, a nossa reserva deve ser algo próximo de US$ 310 bilhões.

Refazendo a conta da relação Reserva/PIB, 310,000 bilhões / 1,800 trilhão, chegaremos 17,23%, nada muito diferente dos 19,97%, calculado usando as reservas oficiais.

Não podemos esquecer de contar o grande nervosismo que essa troca do swap por dólares vai causar no mercado financeiro. Serão vários dias de negociações, leilões, comunicados etc. Provavelmente ficaremos em um ambiente de muita especulação, prejudicando a economia como um todo. Sou a favor do fim do swap cambial, mas tem que ser um processo longo e cuidadoso.

2) Sugestão que eu escutei outro dia: vamos vender os dólares para cobrir o rombo da economia. Aí mora um perigo monstruoso. É como se eu quisesse tratar o dependente químico tirando o dinheiro para ele não comprar a droga, quando seria mais adequado colocá-lo em uma clínica para tratamento. Extrapolando esse raciocínio para a economia brasileira, temos que fazer a reforma para cortar os gastos, em vez de ficar a toda hora tapando o buraco com mais impostos ou com ideias inapropriadas. Se não fizer cobrimos o rombo hoje, mas ele volta no próximo ano, já que o problema central não foi resolvido.

3) Outra ideia que tem circulado por aí: vamos vender dólares para aquecer a economia. Acho que a maneira correta de aquecer a economia é tomar medidas que façam sentido para o nosso desenvolvimento, fazendo com que a iniciativa privada tenha vontade de investir. Não é com dinheiro das reservas que vamos conseguir esse crédito com os empresários.

4) O mundo olha com bastante carinho para países que possuem um bom colchão de dólares, porque, em momentos especulativos, eles conseguem se proteger de uma forma melhor. Passam menos sustos, pois, em caso de emergência, o Banco Central pode vender os dólares para segurar uma possível desvalorização da moeda local. Alguns falam da crise de 2008, quando tínhamos algo próximo de US$ 200 bilhões em reservas cambiais e conseguimos passar bem pelo cenário internacional adverso. Mas são tempos e histórias diferentes. Hoje temos crise na China, que vai crescer menos; crise política pesada no Brasil; queda do preço do petróleo, que pode afetar a nossa economia. São crises diferentes, que não podem ser comparadas.

5) Por último, se começarmos a consumir as nossas reservas, vai ficar cada vez mais difícil o Brasil voltar a ter grau de investimento. O que as agencias de risco vão pensar: “o governo brasileiro teve que vender reserva cambial para aquecer a economia. Que país é esse que não tem crédito?”. Seria terrível para nós e acabaríamos sofrendo mais um rebaixamento nas avaliações dessas agências.

 

Mas e se o governo resolver vender?

Aí a grande questão é: como fazer essa venda? Imagina o Banco Central com um caminhão de dólares para vender. Os bancos, sabendo disso, vão querer comprar por preços cada vez menores, forçando uma valorização do real e atrapalhando vários setores da economia. Fora a incerteza que pode causar no mercado, gerando questionamentos como: “O que está na cabeça do Banco Central? Até quando ele vai vender? Por que comprar agora, se posso comprar mais barato amanhã?”. Pode se tornar uma verdadeira desgraça para a paridade da nossa moeda.

 

Conclusão

Sou completamente contra vender dólares para aquecer a economia ou tapar buracos, a não ser em caso de “emergência das emergências”, com o Brasil perdendo totalmente o crédito mundial. Mas ainda estamos bem longe disso.

Portanto, vale o ensinamento dos meus pais sobre aproveitar a xepa. Excesso de oferta e pouca demanda fazem os preços se deteriorarem. No caso da economia brasileira, isso vai mais atrapalhar do que ajudar.

Presidente Dilma, deixa o Banco Central quieto nas suas Políticas Monetária, Cambial e de Crédito. Não inventa moda, pelo amor de Deus!

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