R$ 3,23: por que o dólar chegou a esse patamar

Alexandre Cabral

29 Junho 2016 | 17h49

Na semana passada, US$ 1,00 chegou a ser negociado por R$ 3,45. Nesta quarta (29/06), vale R$ 3,23. A pergunta é: o que aconteceu no mercado, que levou a essa flutuação de R$ 0,22 em apenas 5 dias? Vamos conversar sobre isso.

 

Introdução

FED: Federal Reserve – o Banco Central dos Estados Unidos.

 

Vamos entender a cronologia

Quinta-feira (23/06) e Sexta-feira (24/06)

Na última quinta-feira (23/06), fomos dormir com a sensação de que o Reino Unido continuaria membro da União Europeia. Eu, particularmente, tinha tanta certeza, que nem acompanhei a apuração. Acordamos na sexta-feira (24/06) com aquela sensação de “deu droga, a rainha abandonou o continente”. Qual foi a primeira reação do mercado mundial? Pânico! As moedas do mundo se desvalorizaram fortemente frente ao dólar – por motivos já comentados em texto anterior.

Aqui no Brasil, o dólar, que tinha fechado a quinta-feira negociado a R$ 3,3420, abriu a sexta-feira cotado a R$ 3,4309, o que resultou em uma valorização de 2,66% frente à moeda brasileira, na primeira negociação. Ao longo do dia, o mercado deu uma acalmada e a moeda americana fechou cotada a R$ 3,3777, com valorização de 1,07% diante do real, em comparação com o patamar de fechamento da quinta-feira.

Um dos motivos para essa acalmada foi um comunicado do Banco Central, emitido por volta das 9h30 de sexta. Trocando em miúdos, a nota dizia que, se o BC brasileiro julgasse necessário, iria atuar para controlar a volatilidade do dólar. Esse comunicado só saiu graças ao excelente artigo do Fábio Alves, cobrando a manifestação do Banco Central brasileiro.

Fomos todos para o final de semana refletindo e tentando entender direito o que estava ocorrendo.

 

Segunda-feira (27/06)

O dólar abriu negociado a R$ 3,3904 – com o desvalorizando de 0,38% em relação à última cotação de sexta. A moeda americana fechou a segunda-feira negociada a R$ 3,3918 (0,42% de desvalorização do real). Nesse dia, o mercado mundial se acalmou, mas sem muita novidade.

 

Terça-feira (28/06)

Opa, as coisas começaram a mudar. O mundo viu que a saída do Reino Unido da União Europeia poderia não ser tão ruim assim. Começaram a circular, nas mesas de operações do mundo todo, rumores de que os principais Bancos Centrais poderiam atuar de forma conjunta para segurar a valorização do dólar. Como reação imediata, a moeda americana começou a perder força. Dólar perdendo força = real ganhando força. Logo, a nossa moeda começou a se valorizar. Abrimos o dia com o dólar negociado a R$ 3,3545, com uma valorização de 1,10% do real perante a moeda americana, comparado ao fechamento de segunda-feira.

No final da manhã, tivemos mais uma notícia que ajudou a valorizar o real. O presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, deu uma coletiva para falar de vários assuntos e uma das declarações foi que o objetivo de perseguir a meta de inflação é para 2017 (em outras palavras, somente ano que vem, a inflação deverá convergir para a meta). O que o mercado entendeu? Que a taxa de juros vai ficar alta por mais tempo. Como a atual equipe econômica é muito respeitada pelo mundo, o que os operadores pensaram? “Esses caras são competentes. Se conseguirem trabalhar, vão resolver anos de péssima política econômica”. Os gringos também pensaram assim: “teremos fluxo de entrada de dólares no Brasil nos próximos meses”. Como o mercado financeiro antecipa a possibilidade futura, o real acabou se valorizando. E, para colocar mais lenha na fogueira, o Ilan disse que o dólar deve flutuar de forma livre. Aí os operadores aproveitaram o kit “possibilidade de intervenção dos Bancos Centrais em todo mundo para segurar a alta do dólar + manutenção de taxa de juros interna mais alta no Brasil + dólar realmente flutuante no mercado brasileiro”, para testar o Banco Central e começaram a vender a moeda americana. E o dólar chegou a bater, na terça-feira, em R$ 3,3014 e fechou cotado a R$ 3,3046, com uma valorização de 2,57% do real frente ao dólar, na comparação com a cotação do fechamento de segunda.

 

Quarta-feira (29/06)

Tivemos mais novidades, que eu prefiro separar por temas:

a.O mercado mundial está se acalmando e a saída do Reino Unido da União Europeia está sendo mais bem digerida. David Cameron (futuro “ex”-primeiro ministro britânico) disse que, por enquanto, não vai acionar o Artigo 50. O que é esse artigo? Sua ativação significa o início do processo formal de retirada do bloco. Com isso, o mercado se acalmou. E por que a calmaria? Porque a expectativa é que o Reino Unido faça alguns tratados comerciais nos próximos meses, antes de oficializar a saída da UE. Com isso, sentirá menos o efeito doBrexit. Isso é bom para a economia deles. Não vamos nos esquecer que, nos últimos dias, o Reino Unido teve suas notas rebaixadas por agências de rating. Fechar novos tratados pode acalmar a economia local.

b. Jerome Powell, um dos diretores do FED, deu a entender que a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia pode prejudicar a economia do mundo todo. Em seus relatórios, o FED é bem explícito ao afirmar que um dos principais motivos pelos quais a economia americana não cresce com mais força é que países parceiros do mundo todo estão tendo desempenho pior que o esperado – em um dos artigos, citou até o Brasil. Logo, o mercado interpretou que o FED não deve subir os juros por enquanto. Como eu já havia dito no último artigo, acho que de fato não seria prudente os EUA subirem a taxa de juros em 2016. O fato é que aumentou o apetite dos investidores por risco, o que dá ao Brasil a possibilidade de se dar bem com a entrada de dólares, valorizando a nossa moeda.

c. Os mercados do mundo todo se acalmaram, com o dólar perdendo um pouco de força em relação a outras moedas. Com isso, o real se valorizou em paralelo – como explicado anteriormente.

d. O IGP-M divulgado nesta quarta (29/06) pela manhã foi de 1,69%. O mercado esperava 1,45%. Portanto, a inflação medida por esse índice veio mais forte que o consenso. Com isso, temos a possibilidade de manutenção, por mais tempo, de juros altos por aqui. O mercado avalia que, consequentemente, poderemos ter aumento do fluxo de entrada de dólares, para aproveitar as taxas tão altas.

e. O mercado está testando o BC brasileiro, para ver até onde ele aguenta a valorização do real frente ao dólar, sem fazer nenhuma intervenção.

Hoje o dólar fechou por R$ 3,2373 e o real está com uma valorização em relação a ontem de 2,04%, na semana cai 4,16% e desde o auge da crise na sexta, valoriza 6,08%.

 

Resumindo

A primeira reação à saída do Reino Unido da União Europeia foi bem ruim. Mas o mercado se acalmou diante dos seguintes fatos: decisão de Cameron de adiar o acionamento do artigo 50; atuação dos Bancos Centrais do mundo para segurar a valorização do dólar; possibilidade de não haver aumento das taxas de juros por parte do FED; no Brasil, IGP-M maior do que o esperado, provavelmente fazendo com que os juros fiquem por mais tempo na casa atual de 14,25% ao ano; e mercado testando a postura do Banco Central brasileiro diante da valorização do real.

 

Conclusão

O mercado se acalmou, mas essa calmaria pode ser temporária. Cada dia vai ser um dia. Vamos esperar a evolução dos fatos.

Vocês vão me perguntar o que eu acho que vai acontecer com o dólar. Eu digo que agora ficou bem difícil responder, porque temos a possibilidade de atuação dos Bancos Centrais, inclusive o do Brasil. O detalhe é que ninguém sabe quando.

Uma coisa eu sinto: cheiro de Miami no ar. Entenderam?

 

Detalhe: tinha esquecido de mencionar, esse texto surgiu de uma conversa que eu tive com a competentíssima repórter Karina Trevizan – G1.