Rating Brasil: nos últimos 6 meses, conseguimos recuar 10 anos

Alexandre Cabral

07 de maio de 2016 | 08h51

Ontem (05 de maio de 2016) a nota de crédito do Brasil foi rebaixada de BB+ para BB pela agência de rating Fitch. Com isso, o Brasil tem agora a mesma nota que havia recebido em 28 de junho de 2006. Para se ter uma ideia em outubro de 2015 fomos rebaixados de BBB para BBB-, em dezembro do mesmo ano perdemos o grau de investimento indo para BB+. Portanto em 6 meses voltamos 10 anos.
O que será que mudou nesse período? Por que as nossas notas ultimamente só caem?

 

Introdução

Nota de crédito: é a nota atribuída pelas agências de rating (ou classificação de risco), a partir de avaliações sobre as condições do país honrar (ou não) os seus compromissos da dívida.

Quem avalia: existem várias agências de rating no mundo, mas as 3 mais respeitadas são Fitch, Standard & Poor’s (S&P) e Moody’s.

Objetivo desse estudo: falar somente da avaliação feita pela empresa Fitch.

Como são representadas as notas: por letras, sendo que AAA é a melhor nota, seguida por AA+ e assim por diante, em um total de 20 possíveis avaliações.

 

Como estão nossos vizinhos:

A+: Chile;

BBB+: México e Peru;

BBB: Colômbia;

BBB-: Uruguai;

BB estável: Bolívia e Paraguai;

BB com possibilidade de queda: Brasil.

 

Como foi a nossa evolução das notas – vou considerar aqui apenas o período do Plano Real e considerarei o rating em moeda estrangeira, pois fica mais fácil observar o histórico.
a. Primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-98): começamos com a nota B+ e terminamos em B+. Nada mudou em 4 anos.

b. Segundo mandato do presidente FHC (1999-2002): começamos com B+ e terminamos em B. Caímos 1 degrau.

c. Primeiro mandato do presidente Lula (2003-2006): começamos com B e terminamos em BB. Subimos 3 degraus.

d. Segundo mandato do presidente Lula (2007-2010): começamos com BB e terminamos em BBB-. Subimos 2 degraus.

e. Primeiro mandado da presidente Dilma (2011-2014): começamos com BBB- e terminamos em BBB. Subimos 1 degrau.

f. Segundo mandato da presidente Dilma (2015-16): começamos com BBB e estamos em BB. Caímos 3 degraus.

 

Por que BB em 2006 era bom?

Inflação: tivemos 9,30% ao ano em 2003, 7,60% ao ano em 2004, 5,69% ao ano em 2005 e 3,14% ao ano em 2006 (a segunda menor inflação do Plano Real). Naquele momento, a trajetória de queda dos preços era uma excelente notícia. Isso porque um dos principais motivos para atrapalhar a distribuição de renda é a escalada dos preços, que faz com que o poder de compra se deteriore rapidamente.

Desemprego: estava em 12,2% em 2003, foi para 11,4% em 2004, caiu para 9,8% em 2005 e ficou em 9,9% em 2006. Portanto, estávamos conseguindo gerar mais empregos. Isso impulsiona o consumo e a economia cresce. E ainda havia a expectativa de que o desemprego seguiria caindo.

PIB: crescimento de 1,14% em 2003, alta de 5,76% em 2004, +3,20% em 2005 e crescimento de 3,96% em 2006. Um acumulado, no período, de 14,76%, que nos deixou na posição 135 em um total de 189 países, conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). E com expectativa de melhora.

Relação Dívida x PIB: devido à restrição de dados só consigo ver o ano de 2006. Naquele momento, a relação entre dívida e PIB era de 55,50%. A dívida total da União era de R$ 1,34 trilhão, para um PIB de R$ 2,41 trilhões.
Risco Brasil: por volta de 250 pontos. O que isso quer dizer? Que, naquele momento, conseguíamos emitir títulos de dívida à taxa de juros americana mais 2,50% ao ano, em dólares.

Então, era um BB com expectativa de alta, devido à melhora nos dados econômicos. Expectativa que acabou se confirmando e, em 2008, recebemos o grau de investimento.

 

Por que o BB em 2016 é ruim?
Inflação: tivemos 5,83% ao ano em 2012, 5,91% ao ano em 2013, 6,40% ao ano em 2014 e 10,67% ao ano em 2015. Uma inflação altamente ascendente, que corrói todo e qualquer poder de compra do trabalhador. E a expectativa para 2016 é de alta de 7,40% ao ano. Melhoramos em relação ao ano passado, mas ainda estamos bem longe do ideal, que é por volta de 4,50% ao ano. Na semana passada, chegamos a comemorar uma desaceleração da alta de preços, mas hoje (06 de maio) os dados divulgados sobre a inflação voltam a nos preocupar. Em abril, tivemos 0,61%, ainda sob forte pressão dos alimentos. Portanto, a expectativa de inflação só fez piorar nos últimos anos.
Para se ter uma ideia da magnitude disso, no ano passado (10,67% ao ano), tivemos a terceira pior inflação do Plano Real, perdendo apenas para 1995 (22,41% ao ano, que é bem justificável devido a um histórico muito grande de hiperinflação) e 2002 (12,53% ao ano), momento em que o real perdeu poder de compra devido à expectativa do mercado em relação ao processo eleitoral, que resultaria na eleição de Lula para seu primeiro mandato como presidente da República. O medo de como ele poderia agir na área econômica fez com que o dólar disparasse e os preços acabassem subindo junto.
Desemprego: era de 5,5% em 2012, caiu para 5,4% em 2013, nova queda para 4,8% em 2014 e subiu para 6,9% em 2015. E devemos terminar 2016 com mais de 11%. De fato, o desemprego aumentou demais no último ano. Quantas pessoas do seu círculo de amigos estão sem emprego? No País, são mais de 11 milhões de trabalhadores em busca de emprego => logo, sem dinheiro => sem consumo => empresário vai investir menos => mais desemprego. Um grande círculo vicioso pode estar em formação.
PIB: preciso falar mesmo desse tema? Vamos lá. Crescemos 3,01% em 2013, +0,10% em 2014, caímos 3,85% em 2015 e devemos cair 3,90% em 2016. O acumulado do período deve ser algo próximo de – 4,72%. Ficaremos na posição 179 de 189 países, com expectativa de queda. Resumindo: cada vez estamos produzindo menos.
Relação Dívida x PIB: posso pular essa parte? Dá medo de ver os números. Era de 51,3% em 2011, subiu para 53,8% em 2012, caiu para 51,7% em 2013, aí pegou um foguete e foi para 57,2% no fim de 2014 e saltou para 66,5% no fim de 2015. Já se fala que, no fim de 2016, pode bater 80%. É o governo brasileiro se endividando cada vez mais. E o que vai fazer o mercado financeiro, sabendo que o governo federal precisa de dinheiro? Pedir mais taxas para aceitar emprestar.
Risco Brasil hoje na casa de 400 pontos. Portanto, estamos emitindo títulos de dívida à taxa de juros americana mais 4,00% ao ano, em dólares.
Então o nosso BB de 2016 é um BB com cara de piora, com expectativa muito ruim da economia.

 

Resumo
Comparando os dados de 2006 e 2016:
Inflação era de 3,14%, foi para 10,67% no ano passado e deve bater em 7,40% neste ano.

Desemprego era de 9,9% e vai para 11%.

– No PIB, tínhamos uma alta de 3,96% e hoje temos uma queda provável de 3,90%.

Relação Dívida x PIB era de 55,50% e deve ficar neste ano em 80%.

Risco Brasil era de 250 pontos (2,50% ao ano) e foi para 400 pontos (4,00% ao ano).

 

Medidas recentes

Provavelmente, vamos perder mais um rating e será merecido. Nossa situação econômica é muito ruim. E olhe as duas medidas propostas nesta semana, que podem piorar mais ainda a nossa expectativa econômica:

– O governo atualizou a tabela do imposto de renda em 5% (perfeita medida, apesar da pequena variação, mas já é um começo), só que não pode correr o risco de perder arrecadação. Solução? Pretende aumentar a taxa cobrada pela transferência de herança, de 15% para 25%.

– Aumento no reajuste da tabela do Bolsa Família em 9%. O governo diz que essa variação está no orçamento, mas não é o momento de aumentar os nossos custos. Sem contar que o Bolsa Família teve, nos últimos anos, um reajuste muito maior que a inflação. Entre 2011 e hoje, a inflação foi de 34,83%, enquanto o reajuste médio do Bolsa Família foi de 73,69%, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento. Se o programa já conta com um bom ganho real, por que deveria receber esse aumento agora, em um período de extrema crise? Só um dado cultural: o Bolsa Família abrange 13,9 milhões de famílias, com uma receita média de R$ 165,00 por mês, por família.

 

Reflexão

Se olharmos um pouco mais para trás, vamos ver que, nos últimos 2 anos, vivemos uma guerra entre Executivo e Legislativo. Os dois erraram, mas o Executivo errou muito mais e o Legislativo não ajudou. No ano passado, o Executivo errou ao não apoiar de forma contundente as propostas do então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que, no Legislativo, era criticado, inclusive, por membros da base aliada e não tinha apoio da oposição. Mas por que o Legislativo não encaminhou propostas próprias para tentar melhorar a economia? Deputados e senadores também erraram.

Imagine uma agência de rating que olha os seguintes dados: inflação deve ficar em 7,5%, desemprego deve bater em 11,00%, o PIB deve afundar 3,90%, a relação Dívida x PIB pode chegar a 80%, sem contar um processo de impeachment que, qualquer dia, vai fazer aniversário, de tão longo que está. Como acreditar nesse país? Não tem milagre. Tem que rebaixar a nota mesmo! Fico feliz pelo rebaixamento. Como assim? Já escrevi isso em um texto: prefiro ser repreendido agora e aprender a lição. Passar a mão na cabeça só pioraria mais ainda a nossa situação.

Isso, sem falar nas várias medidas equivocadas tomadas pelo governo, como já escrevi aqui: http://economia.estadao.com.br/blogs/economia-a-vista/na-era-dilma-2011-16-crescimento-do-brasil-ficara-pior-que-de-argentina-e-bolivia-fonte-fmi/

 

Conclusão

Por que a nossa nota de rating cai cada vez mais? Porque estamos em uma situação bem delicada, com o País parado há mais de 3 anos. A presidente da República não apoia nem a sua própria equipe. Deputados e senadores não propõem medidas para melhorar a economia. Dilma e Eduardo Cunha travaram queda de braço que durou mais que o esperado. Mega operação de investigação (Lava Jato) envolvendo Petrobras e outras grandes empresas brasileiras, com o ex-presidente Lula acusado de ser o chefe da quadrilha. O substituto de Cunha no comando da Câmara dos Deputados também é citado na Lava Jato. O presidente do Senado está envolvido em alguns escândalos. O vice-presidente da República, que deve tomar posse caso o impeachment seja aceito no Senado, também pode se tornar inelegível. A qualquer momento, posso dormir e acordar tendo o presidente do Supremo Tribunal Federal como presidente da República.

Imagine uma pessoa de fora do País olhando isso tudo. O que ela está pensando? Como será possível reerguer o Brasil? Haverá dificuldade de arrecadar? Será que a chance de calote começou a subir a escada e logo estará batendo à porta?

Só um outro detalhe aqui, para terminar: o atual governo está metendo o sarrafo na Câmara dos Deputados. Mas, durante os 13 anos em que tiveram apoio no Congresso, eles eram considerados bem legais. Agora não são? Por quê? Perdido.

Detalhe cultural: tanto em 2006, como esse ano, o Corinthians foi eliminado da Libertadores nas oitavas. Que fase!