Relatório do Banco Central não dá sinal claro de queda de juros no curto prazo

Alexandre Cabral

27 Setembro 2016 | 21h55

Foi divulgado hoje (27/09) o Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central e, nas entrelinhas, entendi que a queda da taxa de juros, na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), será de, no máximo, 0,25 ponto percentual ao ano. Por que digo isso? Vamos detalhar.

 

Introdução

Relatório Trimestral de Inflação: divulgado pelo Banco Central a cada 3 meses, com informações sobre a inflação passada e a expectativa para os próximos meses.

Taxa Meta Selic: taxa de juros oficial do País, estabelecida pelo Banco Central. Hoje vale 14,25% ao ano.

IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo): é a inflação oficial do Brasil, calculada pelo IBGE.

 

Temas principais:

O relatório fala em um tripé: inflação de alimentos, desinflação de produtos que são afetados pela política monetária e o ajuste fiscal. Vamos falar sobre eles:

O Banco Central acredita na queda da inflação, mas não espera que vá ocorrer muito rapidamente. No relatório, diz que a projeção de inflação para os próximos meses é de: 0,19% em setembro, 0,40% em outubro, 0,45% em novembro e 0,73% em dezembro. Com base em tais estimativas, a inflação acumulada entre dezembro de 2015 e novembro de 2016 bateria em 7,54%, depois fechando o ano em 7,30%. Para 2017, o BC prevê inflação de 4,4%. Em 2018, 3,8%. Atualmente o acumulado em 12 meses (set/15 – ago/16) está em 8,97%.

  1. Detalhando a inflação, o BC acredita que a alta dos preços dos alimentos está começando a abrandar (eu falo há muito tempo que esse setor ia ser “a pedra no sapato” do combate à inflação em 2016) e este foi um dos fatores responsáveis pela queda no último mês. No relatório está escrito: “De fato, uma parte da resistência recente à queda da inflação corrente parece ter sido causada por choques temporários nos preços de alimentos”. A minha interpretação é: inflação de alimentos está entrando no eixo.
  2. A inflação do setor de serviços, que incomoda o Banco Central, ainda não dá sinais claros de queda ou de que pelo menos está sob controle. Aqui está uma das sinalizações do BC de que não deve baixar a taxa de juros em mais do que 0,25 ponto percentual em outubro – se é que vai baixar alguma coisa. Acho que vai esperar mais dados sobre o setor.
  3. O caráter ainda incerto do ajuste fiscal deve ser o cenário que mais preocupa – e, em tese, não depende em nada de decisão do Banco Central. Mas aqui eu acho que rola um círculo vicioso que o próprio Banco Central pode ajudar a resolver. E por que esse cenário incerto sobre o controle das contas públicas atrapalha? Se o governo está no vermelho, tem que emitir dívida e, para atrair compradores para esses títulos, tem que oferecer juros convidativos (numa explicação simples desse problema, pois temos muito mais aspectos envolvidos). Assim, o governo precisa começar logo essa reforma fiscal, ou vai deixar o Banco Central de mão atadas. Vou falar disso mais tarde, quando abordar os juros reais.

 

Desemprego e Capacidade Ociosa

A capacidade ociosa do setor industrial está relativamente alta. Essa condição faz com que, mesmo com a economia voltando a melhorar, não haja estímulo à inflação. Por quê? Imagine uma fábrica que tem capacidade para produzir 100 caros por dia e só está produzindo 40. Se a economia voltar a crescer, o fabricante vai usar a capacidade ociosa para aumentar a produção, não afetando o seu custo (não vai precisar comprar novos equipamentos ou instalar uma nova fábrica). O que ele vai fazer é pegar a parte da fábrica que já está pronta e que ficou parada durante a crise, para agora começar a produzir mais carros. Esse é apenas um exemplo, mas que pode ser estendido à maioria das indústrias. E, como temos muitos desempregados, provavelmente a indústria vai contratar uma mão de obra não muito cara, o que é mais um fator a contribuir para o não aumento de preços por parte do produtor. Logo, esses dois itens – desemprego e capacidade ociosa – não alimentam a inflação. Sem contar que, se a produção voltar ao normal, qualquer efeito inflacionário vai demorar a ser sentido.

 

Eu, no Banco Central, baixaria os juros em outubro

Vamos olhar uma série histórica de juros reais de 12 meses (Taxa Meta Selic menos IPCA, ambos acumulados nos últimos 12 meses). Mas antes, vamos entender o que são os juros reais, a partir do seguinte exemplo:

Taxa meta Selic atual (14,25% ao ano) – IPCA 12 meses (8,97%aa – entre set/15 e ago/16) = 4,84% ao ano.

Esses 4,84% ao ano, portanto, são a diferença entre a taxa de juros oficial e a inflação e é esse resultado que chamamos de Juros Reais. E como têm se comportado historicamente essas taxas, considerando os dados desde janeiro de 2014 até dezembro de 2016, sendo os últimos 4 meses deste ano baseados em projeção do Banco Central? Vejamos:

– Em dezembro de 2014, os juros reais estavam em 4,30% ao ano. Bateram na mínima em julho de 2015, com 2,40% ao ano e fecharam dezembro de 2015 em 2,53% ao ano.

– O ano de 2016 começou com juros reais a 2,53% ao ano em janeiro. Em agosto, a taxa bateu 4,84% ao ano e agora, se o governo não derrubar a Selic, vai fechar 2016 a 6,48% aa – patamar considerado muito alto.

Se houver dois cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual ao ano, nos meses de outubro e novembro, os juros reais chegarão ao fim de 2016 em 6,35% ao ano. Ou seja: mesmo se o governo baixar os juros em 0,50 ponto percentual ao ano em outubro e depois repetir a dose em novembro, os nossos juros reais acumulados ainda ficariam muito altos. Se considerarmos o projetado para 2017, esse valor é maior ainda.

 

Conclusão

Está mais do que na hora do governo baixar os juros. Motivos: a inflação de alimentos, que tem sido o grande vilão, está se acalmando; a alta de preços dos demais itens também começa a suavizar; o desemprego e a capacidade ociosa não pressionam os custos de produção em uma esperada retomada da economia; o real está controlado e não deve ficar pressionado tão cedo. O lado ruim é a reforma fiscal, que ainda precisa mostrar sua cara.

Sem contar que um corte nas taxas de juros ajudaria a economia, pois diminuiria levemente os gastos de emissão, dando mais fôlego para o governo negociar a reforma fiscal. Não adianta, o Banco Central também tem que pensar na economia como um todo. Sou a favor de um Banco Central independente, mas tem horas que precisa dar uma ajuda.

Porém, pelo relatório escrito pelo BC, eu acredito em uma queda de, no máximo, 0,25 ponto percentual ao ano em outubro e uma possiblidade de queda maior em novembro. Se eu fosse o Banco Central já cortaria 0,5 ponto percentual ao ano na próxima reunião e jogaria a pressão no colo do governo/Congresso, como quem diz: ”eu comecei a fazer a minha parte. Agora cabe a vocês fazerem as reformas, que eu derrubo os juros de maneira mais agressiva”.

Vamos esperar os próximos passos e, principalmente, os dados. Anotem: IPCA de setembro – o Banco Central espera inflação de 0,19%.