Temos o rating pior que o da Bolívia e igual ao de Angola

Temos o rating pior que o da Bolívia e igual ao de Angola

Alexandre Cabral

25 Fevereiro 2016 | 09h10

A presidente Dilma Rousseff recebe os cumprimentos do presidente da Bolívia, Evo Morales, durante sua posse, em janeiro de 2015

A presidente Dilma Rousseff recebe os cumprimentos do presidente da Bolívia, Evo Morales, durante sua posse, em janeiro de 2015

História de vida que podemos comparar à atual situação do Brasil.

Quando eu tinha 10 anos de idade, meus pais resolveram me mudar de escola e me colocaram em uma mais forte. Fiz a prova de admissão e fui aprovado para a 5ª série do 1º grau (que hoje eu acho que equivale ao 6º ano do ensino fundamental). Mas, apesar da aprovação, meus pais decidiram que eu faria a 4ª série novamente. O que eles pensaram: “é melhor repetir agora e formar uma boa base, do que ter dificuldade para acompanhar as aulas”. Lembro que, na época, fiquei muito triste pelo fato de repetir, mas, como conhecia poucas pessoas no novo colégio, aceitei de boa. Anos depois, passei direto do colégio para a UFRJ, para cursar Economia. Acho que a decisão dos meus pais valeu a pena.

O que isso tem a ver com o texto de hoje? Às vezes, é melhor sermos repreendidos hoje e aprendermos a lição, do que passarem a mão na nossa cabeça e continuarmos errando. Uma reflexão que lembra muito o momento que estamos vivendo hoje no do Brasil.

Introdução

Agências de Rating: empresas que, por meio de análises quantitativas (dados numéricos) e qualitativas (reputação), avaliam se o país está em boas condições econômicas.

Dados numéricos que embasam essas análises: inflação, crescimento econômico, PIB, dívida do governo, movimentação do câmbio etc.

Quantas agências temos: várias, mas as principais são Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch.

Como avaliam: por letras. AAA é a elite; AA+ é o Vasco, quer dizer, o vice; AA, o terceiro colocado; e assim vai. Quanto mais letras, melhor – sempre em ordem alfabética. Os países com as melhores notas têm o chamado grau de investimento, uma espécie de selo de bons pagadores. Já aqueles com notas mais baixas são classificados como grau especulativo e representam maior risco.

Como está a classificação (rating) do Brasil nessas agências: já estamos na categoria de países com grau especulativo nas três. E pior: em todas elas, com perspectiva negativa – ou seja, a expectativa é de novos rebaixamentos em até 1 ano.

Nossas notas: na Moody’s, Ba2 com perspectiva negativa; na S&P, BB com perspectiva negativa; e na Fitch, BB+, também com perspectiva negativa.

Neste texto, vou comparar dois momentos da economia brasileira: 2008/2009, quando recebemos o grau de investimento, e 2015/2016, quando perdemos esse selo de bons pagadores e passamos à categoria de grau especulativo.

Como estão alguns países na visão das agências de classificação de risco

Para facilitar a compreensão do texto, dividi os países em grupos, do melhor para o pior. No primeiro grupo, coloquei apenas as posições dos países no ranking de cada agência. Não especifiquei as notas de avaliação, devido ao excesso de particularidades das agências. Lembrando que a Moody’s analisa 130 países; a S&P, 127 países; e a Fitch, 112 países.

 

– Países que têm grau de investimento:

Chile: Moody’s, 25º; S&P, 24º; e Fitch, 26º

México e Peru: Moody’s, 40º; S&P, 42º; e Fitch, 40º

Colômbia e África do Sul: Moody’s, 49º; S&P, 50º; e Fitch, 49º

 

– Países que podem ou não ter grau de investimento, mas estão em posição melhor que a do Brasil:

Pela Moody’s: Costa Rica, Marrocos e Paraguai;

Pela S&P: Bolívia, Costa Rica e Guatemala;

Pela Fitch: Uruguai e Portugal.

 

– Países que estão junto com o Brasil:

Pela Moody’s: Angola;

Pela S&P: Croácia;

Pela Fitch: Costa Rica e Macedônia.

 

– Nossa posição no ranking das agências:

Pela Moody’s: 77º;

Pela S&P: 76º;

Pela Fitch: 68º.

 

Portanto, podemos afirmar que temos rating pior que o da Bolívia (na avaliação da S&P) e igual ao de Angola (segundo a Moody’s).

Meu objetivo aqui não é escrever sobre os outros países do mundo e, sim, sobre o Brasil.

 

Por que fomos rebaixados? Vamos conversar sobre alguns dados:

Inflação:

– Primeiro momento: 5,90% ao ano, em 2008; e 4,31% ao ano, em 2009.

– Segundo momento: 10,67% ao ano, em 2015; e 7,62% ao ano, em 2016 (expectativa).

Sendo que, em 2015 , houve grande responsabilidade do governo federal (como já discutido em outros textos). Para o leitor ter uma ideia, os preços administrados pelo governo subiram mais de 18% no ano passado, graças a uma política errada adotada em 2013/2014. Pelo amor de Deus, não venham me falar de crise de água para justificar o aumento do preço da energia. A seca até influenciou, mas bem menos que a canetada do governo federal, segurando as tarifas na marra em 2013/2014.

E os primeiros dados de 2016 não estão dando refresco. O IPCA-15 de fevereiro veio em 1,42%, com pressão de alimentos (clima e dolarização de alguns produtos) e forte reindexação em alguns setores (que geralmente aumentam os seus preços uma vez ao ano). Nesse grupo, o que mais me chamou a atenção foi a educação, com aumento entre 10% e 12%. Será que as escolas olharam os seus custos ou simplesmente aumentaram com base na inflação de 2015?

Tenho medo demais da volta da reindexação. E, com certeza, as agências de classificação de risco também têm esse temor.

Desemprego:

– Primeiro momento: 7,2%, em 2008; e 8,1%, em 2009.

– Segundo momento: 6,8%, em 2015; e 11,0%, em 2016 (expectativa).

Aqui podemos ver que os dados de 2015 são melhores que na época em que ganhamos o grau de investimento. Porém, o que assusta as agências de rating é a grande piora nos últimos tempos. Fechamos 2014 com 4,8%, subimos em 2015 e vamos piorar demais em 2016. Provavelmente o desemprego neste ano vai mais do que dobrar em relação a dois anos antes. Um piora rápida demais, que deteriora o consumo das famílias e abala a vontade de investir do empresário.

PIB:

– Primeiro momento: crescimento de 5,2% ao ano, em 2008; queda de 0,3% ao ano, em 2009; e crescimento de 7,5% ao ano, em 2010.

– Segundo momento: queda de 3,7% ao ano, em 2015 (expectativa); e queda de 3,40% ao ano, em 2016 (expectativa).

Maior prova de que a economia brasileira se deteriorou: no período 2008/2010, estávamos com o PIB a todo vapor e agora estamos com a máquina andando de ré. Imagina o gringo olhando para um país onde a economia, em dois anos (2015/2016), deve cair 7,0%. É muita coisa! E a expectativa para 2017 não é de uma grande recuperação. Sem crescimento => sem emprego => sem melhora da arrecadação => sem investimentos por parte do governo….

Caixa do governo:

Como ficou o resultado primário, que é a diferença entre o que o governo arrecadou e o que ele gastou, sem considerar o pagamento de juros.

– Primeiro momento: superávit de R$ 103,5 bilhões, em 2008; e superávit de R$ 64,7 bilhões, em 2009.

– Segundo momento: déficit de R$ 111,2 bilhões, em 2015; e superávit de R$ 30,5 bilhões em 2016 (expectativa, na visão mais otimista).

Resumindo: o governo está gastando muito mais do que arrecada. A solução para esse problema passa obrigatoriamente pelo corte de gastos, mas o governo não faz nada para isso, ou, quando faz, corta despesas em setores de incentivos como Minha Casa Minha Vida, FIES etc, o que pode piorar ainda mais a situação de recessão da economia, acelerando a marcha ré. Temos que cortar despesa sim, mas em áreas que não geram efeito positivo em cadeia para a economia, como esses programas geram.

Sobre 2016, eu acho que teremos um resultado bem negativo. Melhor que no ano passado, mas nada animador.
“Solução”, na cabeça do governo: aumentar o endividamento público. O governo vai ter que pegar emprestado com o setor financeiro para conseguir fechar o ano. Parecido com você, leitor, quando entra no cheque especial do banco. Por esse empréstimo, o governo paga algo próximo de 15% ao ano de remuneração. Em 2015, se considerarmos as despesas com juros, o nosso déficit foi de mais de R$ 600 bilhões!

Mais alguns dados:

– O volume de vendas no varejo caiu 8,6% em 2015, o pior resultado desde 2005.

– O volume de vendas no atacado subiu 0,44% em 2015, o pior resultado desde 2003.

– O estoque de crédito bancário caiu 4% em 2015, o pior resultado desde 2007

– Entre janeiro e outubro de 2015, foram fechadas 302,7 mil empresas, o maior número para a série, que começou em 2000. O saldo do ano está positivo em 86 mil, mas o resultado em 2008/2009 era positivo em 200 mil empresas. Quer dizer, temos menos empresas sobrevivendo nessa economia turbulenta.

Política 1:

– Período 2008/2009: Lula tinha uma relação cordial com o Congresso.

– Período 2015/2016: Dilma tem um inimigo público, que é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Este deve ser um ano ainda mais difícil que 2015 sob o aspecto político. Temos processo de impeachment em andamento, possibilidade de cassação via TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a pior aprovação de um presidente da República na história recente do Brasil e, para ajudar a entornar o caldo, com a nova fase da Lava Jato, chamada Operação Acarajé, a investigação está entrando ainda mais no PT, o partido da presidente, aumentando o poder de Eduardo Cunha. Como assim? Com a mudança de foco, ele deixou de ser o centro das atenções e agora vai crescer para cima da base governista, boicotando ou negociando a aprovação de qualquer medida. Resumindo: uma briga entre Poderes que só faz atrapalhar o Brasil.

No segundo semestre, teremos eleições municipais, o que pode levar a uma paralisia do Congresso já a partir de agosto. Que inferno astral!

Política 2:

Estamos em um momento em que a Polícia Federal tem feito várias operações para pegar os envolvidos em escândalos de corrupção. E o envolvimento da Petrobras está paralisando vários investimentos. Li em um estudo – não lembro onde – que o escândalo investigado pela Lava Jato pode ter influenciado em 0,5% a queda do PIB em 2015. Se isso for verdade, é um escândalo político atrapalhando a economia. E agora a Gerdau também está sendo investigada, só empresa grande.

Como um governo sem Congresso vai conseguir aprovar medidas?

Olhando para o mundo

Commodities em geral:

Há queda considerável dos preços de vários ativos e isso atrapalhou uma possível melhora da nossa balança comercial, mesmo com o real desvalorizando frente ao dólar. Somos grandes exportadores mundiais de commodities, mas vender um ativo por US$ 10,00, com o dólar a R$ 3,00 em 2014, e agora vender por US$ 8,00, com o dólar a R$ 4,00, não muda muita coisa. 10 x 3 = R$ 30,00 e 8 x 4 = R$ 32,00, um aumento de arrecadação bem menor do que era esperado anos antes. Portanto, a balança comercial está ajudando, mas não tanto quanto poderia.

Petróleo:

Com a queda do preço do barril de petróleo, várias economias – altamente dependentes da receita de suas vendas – podem ser afetadas, impactando o crescimento mundial. Não estou falando em queda do PIB mundial, mas sim em alguns países isolados, cujos resultados afetariam o desempenho global, fazendo com que o mundo cresça menos. Algo a ser acompanhado com muito, mas muito carinho.

China:

Eles ainda continuam crescendo, mas menos do que antes. No intervalo de 5 anos, saíram de 10% ao ano para 6,8% ao ano. Como temos uma dependência muito forte de nossas vendas para eles, podemos sofrer bastante com esse esfriamento do crescimento chinês. Mas vale destacar: se a nossa economia estivesse de vento em popa, o impacto sobre o Brasil não seria tão forte. O máximo que poderia ocorrer seria a gente crescer menos. Porém, no ambiente atual, a desacelerada da China vai ajudar a piorar a nossa crise. Medo demais.

EUA

Uma chance bem pequena, bem pequenininha, mas real de ter queda no PIB em 2017 ou variação próxima de zero. Vamos ficar atentos para os dados americanos.

Medida inusitada:

Há R$ 1,2 bilhão em depósitos judiciais parados no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, há mais de 5 anos. A ideia “genial” do governo: colocar esse montante de volta nas contas do governo, como receita, melhorando os números via contabilidade. No dia em que o beneficiário aparecer e levar o dinheiro, aí sim o governo voltaria a registrar a quantia como despesa. As agências de rating olham uma medida dessa e não podem deixar o Brasil com grau de investimento, impossível.

Conclusão

Erramos demais na condução da economia e merecemos, sim, perder o grau de investimento, nas avaliações de todas as agências. Elas estão fazendo igual aos meus pais: repreendendo quando ainda dá tempo de consertar, para que a gente se prepare melhor para o futuro. Meu medo é que essa repreensão não sirva para nenhum aprendizado.

Sobre voltarmos a ter grau de investimento, com os fatos econômicos e políticos atuais, não consigo ver isso antes de 2018. Se tivermos uma guinada muito grande de acontecimentos, podemos antecipar essa recuperação para o segundo semestre de 2017. Antes, considero impossível.

Desculpem, Angola e Bolívia, mas termos o rating de vocês é muita incompetência nossa!