Tesouro Direto: por que será que os resgates superaram as aplicações em agosto?

Alexandre Cabral

27 Setembro 2017 | 05h00

Pela primeira vez, desde maio de 2015, o volume de resgates no Tesouro Direito superou o de aplicações. A diferença foi de R$ 59 milhões. Vamos conversar então sobre os motivos que podem ter levado a esse resultado.

 

 

Antes, vamos detalhar alguns números:

Em agosto, as aplicações no Tesouro Direto somaram R$ 1,349 bilhão, enquanto os resgates atingiram R$ 1,275 bilhão. Foi o maior volume em resgates, em um único mês, na história do Tesouro Direto.

Ainda assim, a diferença entre aplicação e resgate resultou em saldo positivo de R$ 74,10 milhões. Mas foi o menor saldo positivo em muito tempo – desde maio de 2013, quando o resultado foi de R$ 51,8 milhões.

E onde entra o resultado negativo mencionado no título e na introdução desse texto? É que, além das aplicações e resgates, em agosto tivemos o pagamento de juros semestrais de um título indexado à inflação (o Tesouro IPCA+ com juros semestrais). Foram R$ 133 milhões em pagamentos dos chamados “cupons”. Assim, somando resgates relativos a recompras pelo Tesouro e cupons referentes aos vencimentos semestrais, chegamos a um volume que supera o total de aplicações em R$ 59 milhões.

 

Agora, sim, vamos aos motivos para o resultado negativo. São eles:

Menos prováveis:

a. O investidor esqueceu de reaplicar o pagamento do cupom recebido em agosto;

b. O investidor decidiu migrar para investimentos mais arriscados;

 

“Mais ou menos” provável:

A crise está batendo na porta e está sobrando menos dinheiro para investir;

 

Mais provável:

a. Investidores resolveram aplicar na poupança antes da queda dos juros, achando que receberiam a regra antiga de TR + 0,50% ao mês – e não os rendimentos de TR + 70% da taxa Selic, aplicados sempre que a Selic fica igual ou abaixo de 8,5% ao ano. Pessoal, essa regra vale para quem aplica desde maio de 2012:. Selic baixou a 8,5% ao ano ou menos, poupança rende 70% da taxa, mais TR;

b. Realização de lucro: em agosto, o volume de resgates do título IPCA+ foi de R$ 534,20 milhões. Foi o maior resultado mensal de 2017, superando maio, quando foram resgatados R$ 416,37 milhões. Entre janeiro e julho, a média mensal de resgates foi de R$ 307,87 milhões.

Boa parte dos resgates de agosto foram de investidores que decidiram realizar lucro das aplicações feitas no passado. Como assim? Explico. Os títulos do Tesouro Direto são cotados pelo chamado valor de mercado, preço pelo qual o Tesouro Nacional consegue emitir os papeis no dia. O IPCA+ garante ao investidor a inflação do período, mais uma taxa de juros. Como a inflação está sob controle e o Banco Central vem baixando os juros, a emissão de novos papeis está dando um rendimento menor. Porém, para quem comprou no passado, a atual conjuntura econômica é excelente. Para ter uma ideia, quem adquiriu o título IPCA+ 2035 no dia 19 de maio pagou por volta de R$ 1.031,00. Três meses depois, em 18 de agosto, esse mesmo título valia R$ 1.202,16, dando um lucro de 16,60% em 90 dias! E resultados semelhantes ocorreram com outras modalidades de títulos. Então esse grande volume de resgate em agosto também vem de investidores que decidiram vender seus papeis porque tiveram ganhos excepcionais em poucos meses.

c. Com a Selic em queda, as pessoas estão preferindo aplicar o dinheiro em outros investimentos, que estão dando rendimentos melhores, como CDBs (em agosto, o estoque de CDBs subiu bem, comparado ao mês anterior) ou LCI (Letra de Crédito Imobiliário).

Vamos dar exemplos de alguns investimentos, para comparar. Vou considerar um investidor que tem R$ 7 mil para aplicar, mantendo o investimento por 12 meses. Por que R$ 7 mil? Estou arredondando o valor médio de aplicação no Tesouro Direito no mês de agosto, que foi de R$ 6.808,62. Nos exemplos, vou considerar todos os resultados líquidos – ou seja, descontando custos operacionais e impostos.

– LCI com rendimento de 94,5% do CDI deve dar resultado líquido de R$ 7.468,22

– LCI com rendimento de 91,0% do CDI deve dar resultado líquido de R$ 7.450,33

– CDB com rendimento de 109% do CDI deve dar resultado líquido de R$ 7.447,79

– CDB com rendimento de 100% do CDI deve dar resultado líquido de R$ 7.409,54

– Tesouro Selic com rendimento de Selic + 0,01% ao ano deve dar resultado líquido de R$ 7.392,88

– CDB com rendimento de 96% do CDI deve dar resultado líquido de: R$ 7.392,61

– caderneta de poupança nova (com as novas regras de rendimento para Selic igual ou abaixo de 8,5% ao ano) deve dar resultado líquido de: R$ 7.347,81

Para calcular os resultados de aplicações em LCI e CDB, usei a projeção de juros de 7,18% ao ano; para o Tesouro Selic, 7,19% ao ano; e, para a poupança nova, 5,03% ao ano.

 

Conclusão

Acho que as pessoas estão tomando conhecimento de que existem outras modalidades de investimentos – principalmente para quem pensa em prazo de até 3 anos -, que estão dando rendimentos melhores que o do Tesouro Direto.

Mas vamos observar os próximos meses, para ver como se comportarão os investidores em relação a suas aplicações. Eu acho que o Tesouro Direto ainda tem muito espaço para crescer, principalmente para investidores de longo prazo, que podem aplicar no Tesouro IPCA para 2024, 2035 ou 2045 e manter o título até o vencimento. Essas são excelentes opções para quem pensa em deixar o dinheiro aplicado por mais tempo.

 

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Edição: Patrícia Monken