Título do Tesouro bate poupança em aplicação de apenas um mês

Economista Alexandre Cabral, que estreia blog no 'Estado', fala sobre os melhores investimentos em tempos de recessão e inflação de dois dígitos

Bianca Pinto Lima

12 de novembro de 2015 | 16h51

No cenário atual, a poupança é algo para ser esquecido. Pelos cálculos do economista Alexandre Cabral, que estreia hoje o blog Economia à vista, o título do Tesouro que segue a taxa básica de juros (Tesouro Selic) será sempre mais vantajoso para o investidor do que a caderneta, mesmo em aplicações de apenas trinta dias (que é o prazo mínimo de rendimento da poupança). Enquanto o título rende 11,4% ao ano, já livre de impostos, a poupança deve fechar 2015 com retorno próximo de 8% – insuficiente para bater a inflação de quase dois dígitos.

“Antes de um mês, o Imposto sobre Operações Financeiras é muito alto e estraga o resgate do título, mas depois disso só incide IR”, comenta Cabral, que trabalhou durante dezesseis anos no mercado financeiro e hoje é professor na Fundação Instituto de Administração (FIA) e na Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Para aproveitar a temporada de juros altos, outras opções são as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). “São isentas de Imposto de Renda e chegam a pagar, líquido, mais de 90% do DI”, afirma o economista. Mas, para isso, o investidor precisa deixar o dinheiro parado por pelo menos um ano.

Apesar de o destaque ser a renda fixa, Cabral não descarta pequenos aportes na Bolsa, principalmente no setor bancário, que é mais resistente à inflação e às incertezas. Já para quem vai viajar, a orientação é comprar dólares aos poucos, para fazer um preço médio. “Se for embarcar daqui a seis meses, por exemplo, compre a moeda em seis vezes.” Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Qual o melhor investimento para proteger o patrimônio da inflação, que já beira os dois dígitos?

Depende do prazo. Se for até um ano, uma boa opção é o Tesouro Selic, título emitido pelo governo, que tem liquidez diária e está com rendimento líquido próximo de 10,6% ao ano (isso se o investidor ficar com o título por um mês; se ficar por um ano, o rendimento sobe para 11,41%). Ou então a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) ou a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), que são isentas de Imposto de Renda (IR) e chegam a pagar, líquido, mais de 90% do DI (taxa do sistema interfinanceiro que fica muito próxima à Selic). Ou seja, a LCI e LCA rendem um pouco mais, mas o investidor ficará com o dinheiro preso por doze meses. Para mais de um ano, há outras opções de títulos do governo – todos com liquidez diária, então podem ser resgatados a qualquer momento. O chamado Tesouro Prefixado, por exemplo, está com retorno superior a 15%. Se aplicar hoje e resgatar em 2021, a pessoa vai receber, líquido, 90% do capital. Ou seja, se aplicou R$ 100, vai ter R$ 190 ao final. E não acredito que teremos 90% de inflação em cinco anos. Outra opção é o Tesouro IPCA, que tem vencimentos em 2019, 2024 e 2035. Nele, o investidor ganha toda a inflação do período mais cerca de 7%. A debênture incentivada também é um caminho, mas esse produto tem liquidez bem ruim, ou seja, o investidor tem dificuldade para sair dele no meio do caminho.

Mesmo para prazos muito curtos, como um mês, o Tesouro Selic vale mais a pena do que a poupança?

Esqueça a poupança, pelo amor de Deus. A partir de um mês, o rendimento do Tesouro Selic já supera o da poupança. Como na caderneta o rendimento é mensal, ela é sempre pior. Antes de um mês, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) é muito alto e estraga o resgate do Tesouro Selic, mas depois de trinta dias o IOF acaba e só incide IR.

Em meio à crise fiscal, você considera que há algum risco de o governo não honrar os pagamentos do Tesouro Direto?

Não, a chance é praticamente zero. Se você olhar a história, todos os grandes calotes são externos. Um calote interno pode gerar uma confusão muito grande… No externo, o americano não vem aqui para dar um soco em algum membro do governo. No interno, sim. Além disso, o governo deve para o setor financeiro R$ 2,6 trilhões, enquanto que para pessoa física, R$ 21 bilhões. Então não faz sentido brigar com R$ 21 bilhões.

E os CDBs, valem a pena?

Há bancos que estão dando uma taxa muito boa, mas é mais raro. Mas tem CDB de banco pequeno com bom rendimento, só não pode esquecer do limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Ou seja, não aplique acima de R$ 250 mil por CPF (que é o valor limite coberto pelo FGC em caso de o banco quebrar). Na verdade, não é nem aplicar, precisa fazer a conta de chegada. Se vai ficar cinco anos com o produto, ao final do prazo precisa ter, no máximo, R$ 250 mil.

Mesmo com toda a volatilidade e a incerteza em relação à economia brasileira, é possível achar boas oportunidades na Bolsa?

Tenho gostado bastante do setor bancário, que sempre se da bem com inflação e incerteza. A única questão é se a economia encolher demais, ai podemos ter dificuldades com a concessão de crédito. Já o setor produtivo pode ter problemas. E evite as ações das elétricas, já que nada impede de a presidente Dilma voltar três anos no tempo e brincar de tarifa. Além disso, a economia está andando de lado e o consumo de energia pode diminuir. Já as exportadoras podem ter, no médio prazo, um grande problema chamado China. Além de estar crescendo menos, a China pode resolver fazer uma política de exportação mais agressiva e acabar concorrendo com alguns produtos.

Com esse cenário difícil para a Bolsa, os fundos ganham espaço? Principalmente depois das mudanças de regras, que possibilitaram maiores investimentos no exterior…

Sim, eles ficaram mais atraentes, mas ainda é para poucos, pois os fundos de investimentos no exterior só são acessíveis a investidores qualificados (que têm mais de R$ 1 milhão em aplicações). Mas quem tiver esse capital vale a pena, pois a economia norte-americana está muito boa, praticamente com pleno emprego e inflação sob controle – tanto que o medo lá é de que o banco central suba os juros.

Essa recuperação dos EUA e a perspectiva de aumento de juros pelo Fed têm ajudado a puxar o dólar para cima, além de toda a instabilidade no Brasil, é claro. Com a moeda em torno de R$ 4, você acredita que ainda há espaço para investir em produtos cambiais?

Como investimento, eu não aconselho colocar dinheiro em produtos cambiais. Porque a oscilação do dólar depende de muitos fatores e o investidor pode perder muito dinheiro no caminho. Há fatores, inclusive, que estão ligados ao cenário externo e não dependem do Brasil. Agora, se você vai viajar a orientação é comprar a moeda aos poucos. Se for embarcar daqui a seis meses, por exemplo, compre o dólar em seis vezes, assim fará um preço médio. Mas não consigo ver a moeda muito longe da cotação dos R$ 4 esse ano.

E para a taxa de juros, você espera mais alguma alta esse ano?

Não. Inclusive, acredito que esses 14,25% ao ano vão se manter durante todo o primeiro semestre de 2016. O Banco Central deve suportar uma inflação mais alta para tentar não afundar tanto a economia. Aliás, inflação de dois dígitos esse ano, para mim, já está dada – algo em torno de 10%. E no ano que vem deve estourar o teto da meta (6,5% ao ano) por vários motivos. Podemos destacar que o governo está em um dilema em relação aos preços administrados: se sobe, piora bem a inflação. mas se não sobe atrapalha a vida das empresas e diminui a sua receita com impostos. Mesmo assim, não vejo um IPCA de dois dígitos em 2016. Já o PIB deve cair cerca de 3% esse ano. Para o ano que vem, se o governo conseguir passar parte da reforma fiscal no Congresso, o Natal já pode ser bom, mas o ano de 2016 ainda deve fechar em queda. Não podemos esquecer que o teto da meta para 2017 é mais baixo, de 6% ao ano. O Banco Central deve está olhando com carinho para todo esse período…

A alta do desemprego não pode brecar essa melhora no ano que vem?

Sim, o governo já deve estar pensando nisso, já que muita gente perdeu o emprego nos últimos quatro meses. Só que essas pessoas ficaram cinco anos empregadas, estão com a rescisão em mãos e conseguem sobreviver por um período de mais ou menos um ano. Até junho do ano que vem, portanto, o governo precisa começar a mostrar uma recuperação da economia. Se isso não acontecer, 2017 pode ser pior do que 2016, porque essa massa desempregada vai para o pânico e aí podemos ter um aumento considerável do custo social.

Diante desse cenário, qual é o maior risco para a economia brasileira atualmente?

É um conjunto. Você tem estagflação, que é o pior dos mundos: economia estagnada com preços subindo. E, ao mesmo tempo, quem poderia ajudar a levantar a nossa economia, que é a China, não vai tão bem. Além da parte fiscal, que está muito ruim. E um dos motivos para isso é que a arrecadação está caindo muito por conta da crise e a despesa é fixa ou está aumentando. Por isso que sou a favor da CPMF nesse momento, mas para durar no máximo dois anos. Infelizmente a população vai ter de pagar um pouco pelos erros do passado.