A difícil decolagem da TV digital

São três os maiores obstáculos à decolagem da TV digital. O primeiro deles é o desconhecimento do significado da nova tecnologia: mais de 70% da população brasileira não sabe bem o que é TV digital. O segundo é o baixo poder aquisitivo da maioria dos brasileiros. O terceiro é a pequena oferta de conteúdos de boa qualidade em alta definição. Mas este ano poderá ser um dos melhores para a venda de televisores para a indústria.

Ethevaldo Siqueira

20 de julho de 2010 | 22h21

A Copa do Mundo da África do Sul deu um grande impulso à venda de televisores no Brasil. Em dois meses, a comercialização de televisores bateu todos os recordes, com a venda de cerca de 4 milhões de televisores planos com mais de 32 polegadas, a maioria deles destinados a áreas já cobertas pela TV digital no País.

Para quem viu a Copa em alta definição, ficou a certeza de que a qualidade do sistema digital nipo-brasileiro é excelente, pela beleza da imagem, som surround e outros recursos, como recepção móvel em celulares e veículos. Tecnologicamente é, sem dúvida, a mais avançada do mundo. Esse sucesso comercial sazonal causado pela Copa da África não quer dizer a TV digital já tenha decolado no Brasil nem que sua  penetração já seja expressiva.

Por que, então, a TV digital não ganha maior popularidade? Em primeiro lugar, porque as transmissões digitais ainda não cobrem todo o País. Em segundo, porque há pouco conteúdo em alta definição de boa qualidade. O que temos de melhor em high definition (HD) são as novelas, a maioria dos jogos do Brasileirão e filmes importados.

Falta a interatividade prometida. A boa notícia é que esse recurso está pronto, com a conclusão do desenvolvimento do software brasileiro Ginga, o middleware — cujos dispositivos já podem ser industrializados. Em breve, teremos essa tão sonhada mão dupla entre telespectador e emissora. Mas a maturação da interatividade exige longo prazo. Há barreiras culturais, pois as pessoas estão condicionadas à passividade da velha TV unidirecional, ou seja, de mão única, emissora-telespectador.

Do total de aproximadamente de 95% dos domicílios ou 53 milhões de residências que dispõem de receptores de TV aberta no País com TV, já são 2,4 milhões de domicílios que já recebem sinais digitais em televisores Full HD ou sinais digitais decodificados por set-top boxes em televisores analógicos. Esse número equivale a menos de 8% dos domicílios ou dos telespectadores. Existem mais 2 milhões de receptores de alta definição de TV por assinatura (cabo, satélite ou MMDS) que já recebem imagens de alto padrão. Cresce o número de canais a cabo com imagens em alta definição.

A partir de janeiro deste ano, todos os televisores planos de grandes dimensões (de 32 polegadas para cima) já vêm dotados de decodificadores digitais, internos ou externos.

Que é TV digital?

Há várias razões que explicam a lentidão da expansão da TV digital no Brasil.

1.  Em primeiro lugar porque a população brasileira tem baixo poder aquisitivo.

2.  Em segundo porque a oferta de conteúdos de boa qualidade ainda é pequena.

3.  Em terceiro, por que as pessoas não sabem bem o que significa a nova tecnologia, suas vantagens e a relação custo-benefício.

O maior desses obstáculos, a meu ver é o fato de a população não saber bem o que significa a nova tecnologia digital. Tenho participado de pesquisas sobre o assunto e, com base nessa experiência, estimo que mais de 70% dos brasileiros adultos ainda não têm uma idéia clara sobre o que é TV digital.

Para mudar esse quadro, minha sugestão é que a própria TV aberta leve essas informações para a maioria dos brasileiros. Tudo que se tem feito até aqui nesse sentido é muito pouco para ensinar, orientar e educar o público sobre o significado da TV digital.

Do lado industrial, a situação está melhorando, a cada dia, seja com o lançando todos os dias novos televisores planos já com decodificadores embutidos. Mas a faixa de público pode comprar mais televisores digitais são as classes A e B.

Além de explicar o que significa a nova tecnologia, é preciso que o Brasil formule uma política industrial específica para a TV digital visando ao aumento da escala de produção dos televisores, inclusive com redução dos impostos. Algo parecido com a política de popularização de computadores. É preciso também estimular a produção de conteúdos de alta qualidade em alta definição ou HDTV.

A grande decolagem da TV digital só ocorrerá com o tempo e a maturação tecnológica. Precisamos dizer à população, com todas as letras, que a migração total do País da TV analógica para a TV digital deverá levar 12 anos ou mais. Já se passaram dois anos e meio. Temos quase 10 anos pela frente. Até 2020, com certeza chegaremos próximo de 100% de televisores digitais no País.

Visão de governo

No dia 12 de julho, representantes do governo e da iniciativa privada iniciaram estudos para facilitar o acesso à TV digital, com o propósito de baratear os conversores de sinal mediante a adoção de incentivos fiscais e novas linhas de crédito.

André Barbosa, assessor especial da Presidência da República para a Área de Políticas Públicas em Comunicação, apresentou uma proposta ao Fórum Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), sugerindo a possibilidade de compra parcelada de conversores digitais por prestações mensais de R$ 17.

Segundo Barbosa, a meta é fazer com que a tecnologia chegue às classes D e E, que representam 30% da população brasileira. A porcentagem equivale a cerca de 16 milhões de famílias em um país com 54 milhões.

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