A privatização do espaço

Tanto nos Estados Unidos, quanto na Rússia e no Cazaquistão, a tendência crescente é a da privatização da maioria das atividades espaciais. Confira.

Ethevaldo Siqueira

26 de abril de 2011 | 17h14

Estados Unidos, Rússia e Cazaquistão estão considerando a possibilidade de privatizar boa parte de seus projetos e atividades espaciais. A pergunta que muitos especialistas têm feito é a seguinte: “Que vai fazer a Agência Espacial Norte-Americana (NASA) sem os ônibus espaciais?”

Os dois últimos voos dessas naves serão feitos até o começo de julho. Nesta sexta-feira (29 de abril), dia do casamento do príncipe Williams e Kate, deverá ser lançado o Endeavour. No dia 28 de junho, o Atlantis. Inicialmente, o fim dos ônibus espaciais poderá significar a interrupção de missões tripuladas. O fato concreto é que os orçamentos da agência espacial americana têm sido cortados sistematicamente, diante do déficit público dos Estados Unidos.

Ninguém sabe o que vai acontecer com os projetos da NASA depois de julho, quando o último ônibus espacial fizer sua despedida. O que é bem claro é que a NASA não terá nos próximos anos um veículo espacial para substituir os ônibus espaciais em missões de órbita baixa, como as da própria Estação Espacial Internacional (ISS). Mais do que isso: a NASA não terá novos foguetes para projetos mais ambiciosos no futuro. 

Muitos perguntam se esses cortes de investimentos e de orçamentos significam o fim da NASA e dos projetos espaciais norte-americanos. Talvez, não. O que deverá ocorrer será uma mudança radical nas origens do financiamento da pesquisa e dos novos projetos, que, até aqui, dependiam quase exclusivamente de recursos estatais.

A consequência humana mais dramática com essa mudança de rumos é a demissão de 9.000 funcionários da NASA.

Um artigo do Financial Times, na semana passada, sugere que, a partir de agora, a NASA abre caminho para uma participação muito maior nas atividades espaciais americanas.

 “Isso significaria também uma tendência à privatização das atividades espaciais?” – perguntam alguns especialistas. Talvez, sim. Aliás, diversas empresas privadas já se dedicam ao setor, a começar do chamado turismo espacial, com empresas como a Virgin Galactic e a XCOR Aerospace. Além dessas, há empresas que têm sido tradicionais fornecedoras das NASA, como a Lockheed Martin e a Boeing. Outra empresa privada, a SpaceX desenvolve foguetes reutilizáveis.

O bilionário Richard Branson, dono da Virgin Galactic, constrói no Estado do Novo México, o spaceport, para uso das naves de turismo espacial.

Essas novas empresas já contam com pessoal qualificado. A grande maioria deles são profissionais altamente experientes que deixaram a NASA nos últimos anos. E, agora, com os 9.000 desempregados da agência, será ainda mais fácil escolher os mais competentes. Em para os 9.000 recém-demitidos a grande esperança de novo emprego dentro de suas especialidades serão exatamente as empresas privadas.

 Rússia e Cazaquistão também privatizam

O Cazaquistão está pronto para considerar a proposta russa de converter o Centro Espacial de Baikonur em uma empresa binacional, ou seja, uma joint venture, com maioria de capitais russos, segundo informou nesta terça-feira o diretor da Kazcosmos (agência espacial do Cazaquistão), Talgat Musabyev. Segundo Musabayev, o Cazaquistão vai trabalhar em conjunto com a Rússia e outros países. A informação foi dada nesta terça-feira pela agência de notícias RIA Novosti e pelo site especializado Space Daily News.

Vale lembrar que o Centro Espacial de Baikonur, no Cazaquistão, foi a primeira base espacial e ainda é a maior do mundo nessa área. Utilizado atualmente pela Rússia para muitos lançamentos espaciais, Baikonur está alugado à Rússia até o ano 2050. A Rússia, no entanto, planeja concentrar futuramente a maioria de seus voos nas novas instalações de lançamentos espaciais de Vostochny, que deverá entrar em operação em 2015. Apenas 11% dos lançamentos deverão permanecer em Baikonur.

Vostochny, que está situado em território russo, será utilizado inicialmente para o lançamento de naves não tripuladas e satélites. Os voos tripulados só serão operados nessa base a partir de 2018.

Na semana passada, Anatoly Perminov, diretor da Roscosmos, a agência espacial russa, sugeriu transformar a base de Vostochny numa empresa mista, com 70% de capitais russos, tão logo ela entre em operação.

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