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Adeus, ônibus espaciais

O Discovery está fazendo a última viagem de um ônibus espacial. Ele acoplou neste sábado à Estação Espacial Internacional (ISS). Tenho boas histórias a contar sobre essa nave, pois acompanhei de perto sua evolução e suas principais missões. Vou ficar com saudade deles.

Ethevaldo Siqueira

26 de fevereiro de 2011 | 23h30

O ônibus espacial Discovery não vai voar mais. (*) Depois dele, só haverá mais dois voos, do Endeavour e do Atlantis, até junho. Depois, os ônibus espaciais do projeto Space Shuttle serão história. Sentirei muita saudade deles. Eles fazem parte de um período muito feliz de meu trabalho profissional. Por isso, assisti neste sábado, 26, exatamente às 14h14 GMT (11h14 de Brasília), com uma ponta de tristeza e melancolia, a acoplagem da nave Discovery na Estação Espacial Internacional (ISS) exatamente quando a estação passava sobre a parte oeste da Austrália a uma altura de 350 quilômetros. O veículo transporta um novo módulo da ISS e um robô para pesquisas no laboratório espacial.

O Discovery é o mais velho dos ônibus espaciais em serviço. Tem uma bela folha de serviços, pois foi o veículo que levou ao espaço o Telescópio Espacial Hubble, em 1990, e conduziu a segunda e a terceira missões de serviço desse telescópio. Lançou as sondas Ulysses e diversos satélites. Foi o primeiro ônibus espacial a voar tanto após o desastre da Challenger, em 28 de janeiro de 1986, como depois da desintegração do Columbia, no dia 1º de fevereiro de 2003.

Outra missão importante do Discovery foi levar ao espaço, na missão STS-95, em 1998, o astronauta John Glenn, pioneiro do projeto Mercury, já então com 77 anos, que se tornou o mais idoso ser humano a viajar no espaço.

Esta é a missão STS-133, a última do Discovery. Confesso que vou sentir saudade deles. Pude acompanhar sua evolução desde o primeiro voo livre de uma dessas naves que, em seus primeiros testes, era transportada sobre o cockpit de um Jumbo (Boeing 747).

Meu testemunho

Em fevereiro de 1977, eu participava da cobertura do setor espacial, como fazia desde o Projeto Apollo, no final do anos 1960. Eu estava profundamente interessado em assistir ao desprendimento da nave Enterprise do lombo do Jumbo e o momento de sua primeira aterrissagem naquela imensa pista natural de argila seca da Base de Edwards, em pleno deserto de Mojave.

Enfrentei com paciência a viagem de carro de Los Angeles até a Base de Edwards, cruzando os 150 quilômetros de deserto, sob um calor escaldante, em companhia de meu amigo, Don Fleming, então vice-presidente da Ford Aerospace. Na base, vi o ônibus espacial pousar suavemente na imensa pista natural de argila seca e participei de uma entrevista interessantíssima com cientistas e astronautas, inclusive Fred Haise, da missão Apollo-13, que, por pouco, não se transformou numa tragédia.

O pouso foi emocionante. Vale lembrar que naquela fase dos testes, a Enterprise não tinha motores, pois havia sido construída apenas para testar os ônibus espaciais em seus primeiros voos livres (planados) na atmosfera. Com alguns técnicos da Nasa, pude visitar a nave, tocar em seu revestimento de placas de sílica negra e tive uma verdadeira aula sobre as missões futuras do chamado Projeto Space Shuttle.

Ainda em 1977, visitei o Museu Aeroespacial (Air and Space Museum) de Washington, e conheci o diretor da instituição na época, um astronauta famoso, Michael Collins, da Apollo-11, que havia lançado um livro, contando sua experiência no espaço cósmico.

Quatro anos depois, no dia 12 de abril de 1981, no Centro Espacial do Cabo Kennedy, fui fazer a cobertura do lançamento ao espaço do Columbia, o primeiro ônibus espacial tripulado, na missão STS-1. Ao longo das primeiras quatro missões, o Columbia provou que os ônibus espaciais eram os veículos reutilizáveis adequados para os projetos espaciais da Nasa nas décadas seguintes.

Guardo maravilhosas recordações das coberturas dessas missões dos ônibus espaciais e projetos anteriores dos anos 1970. Ficava hospedado na cidadezinha de Cocoa Beach, num Holiday Inn bem modesto, próximo do Centro Espacial Kennedy, no Cabo Canaveral. 

Naquela cidadezinha da Flórida, conheci Mary Bubb, uma repórter solitária, já com mais de 60 anos que havia coberto literalmente todos os lançamentos da Nasa até então ocorridos ali. Mary era uma enciclopédia viva sobre quase todos os projetos espaciais, tais como Mercury, Gemini, Apollo ou Viking. Morava numa casa deliciosa, junto à praia, rodeada de plantas e de milhares de fotos dos eventos mais importantes que havia coberto. 

Neste sábado, 26, a última acoplagem da Discovery na Estação Espacial (Foto NASA)

Entre os cientistas que conheci ao longo dos anos de cobertura da Nasa, nos Estados Unidos, nenhum me impressionou mais do que o astrônomo Carl Sagan, que me despertou duas paixões: uma pela tecnologia espacial; outra pela astronomia.

Hoje, mais de 30 anos depois de conviver com os primeiros ônibus espaciais, olho para a foto do Discovery acoplado à ISS e avalio o imenso privilégio que significou para mim ter podido testemunhar algumas de suas missões. E confesso que, se tivesse tanto dinheiro quanto Dennis Tito ou Paul Allen, não hesitaria também em pagar US$ 20 milhões para dar apenas um passeio cósmico e comprovar, lá de cima, como Yuri Gagárin, que a Terra é azul.

(*) Este texto foi corrigido às 22h30 de 27 de fevereiro, pois o Discovery não será o último voo de um ônibus espacial. Depois dele, haverá mais dois, como está neste novo texto.

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