As adoráveis orquestras Pops

Poucas orquestras populares, do gênero Pops, sobreviveram aos anos 1960 e 1970. Só conseguimos resgatá-las com boas gravações que chegaram até nós, sejam de vinil ou CDs. Vale a pena recordá-las.

Ethevaldo Siqueira

07 de junho de 2010 | 11h21

Em duas ocasiões, nos anos 1980, fui jantar ao som da Boston Pops, na sala de concertos da orquestra,  em Boston. Na primeira oportunidade, a convite e em companhia do professor José Armando Valente, que concluía seu PhD no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Era um ambiente totalmente diferente do formalismo das salas de concerto. No lugar das poltronas da plateia, havia mesas e cadeiras, como num grande restaurante. Jantávamos ali em silêncio, sem bater os talheres nos pratos, enquanto ouvíamos a orquestra, tocando deliciosas melodias populares, interpretadas pelos excelentes músicos da Orquestra de Boston, uma das melhores dos Estados Unidos.

Na primeira vez, tínhamos no palco a orquestra, regida por John Williams, tocando coisas deliciosas, como as músicas de Gershwin, Jerome Kern, Jobim e canções de famosas trilhas sonoras do cinema. Na segunda parte, assistimos a um show de George Shearing, pianista de jazz. Noutra ocasião, três anos depois, ouvi a Boston Pops num programa de músicas famosas do cinema, em arranjos do próprio John Williams. Soube que esses shows da Boston Pops continuam até hoje.

O regente mais popular da Boston Pops foi, sem dúvida, Arthur  Fiedler, que gravou centenas de arranjos de músicas populares e clássicos ligeiros, inclusive as marchas de John Philip Sousa, o maestro americano, filho de pai português e mãe bávara, compositor de sucessos como The Washigton Post March, Stars and Stripes Forever, Semper Fidelis e dezenas de outros.

Sobre Arthur Fiedler, o maestro Eleazar de Carvalho dizia, com alguma ironia, que “ele era uma espécie de Armando Belardi americano”. Para quem não se lembra, o maestro Armando Belardi era um autodidata de talento que regia orquestras paulistas nos anos 1950 e 1960, tocando desde La Cumparsita até O Guarany, de Carlos Gomes.

Não tenho dúvida de que alguns leitores sorrirão com superioridade e dirão que aquelas orquestras eram conjuntos “água-com-açúcar” para tocar músicas de supermercado. Para outros, menos radicais, minha paixão por essas orquestras é puro saudosismo. Não me preocupo com essas opiniões. O importante é que o som daqueles violinos, violoncelos e metais me dá muito prazer. Além disso, aquelas melodias embalaram minha juventude e estão associadas à minha história de vida. É pouco?

Por todas essas razões e lembranças, selecionei alguns CDs para ouvir durante boa parte de meu tempo livre neste feriadão de Corpus Christi. Os jovens talvez não saibam muito sobre as orquestras Pops do passado. Acho que, além das Big Bands dos anos 1940 e 50, os mais velhos se lembram de orquestras como as de Victor Young, David Rose, George Melachrino, Mantovani, André Kostelanetz, Henry Mancini, Percy Faith, Paul Mauriat, Morton Gould e, nos clássicos mais populares, as diversas Pops, como a Boston Pops (especialmente as gravações do tempo de Arthur Fiedler), The New York Pops, Cincinatti Pops, a Rochester Pops, a London Symphony Orchestra, a London Philarmonia e a magnífica The Academy of St. Martin in-the-Fields, regida por Sir Neville Marriner. É claro que existem muitas outras, mas essas foram as que eu selecionei para curtir nos quatro dias de relativa paz e descanso.

Faço aqui um breve comentário sobre algumas dessas orquestras. Começo pela de Victor Young, que enriqueceu a trilha sonora de tantos filmes nos anos 1940 e começo dos 50. Victor Young compôs músicas inesquecíveis como When I Fall in Love, Love Letters, Around the World, My Foolish Heart e Stella by Starlight.

O som de George Melachrino e sua orquestra me traz velhas e boas recordações, especialmente quando ouço Indian Summer (de Victor Herbert), Poema (Fibich), Moonlight Serenade (Glen Miller), Begin the Beguine (Cole Porter), Autumn Leaves (Joseph Kosma)  ou Malagueña (Lecuona). É claro que os CDs de gravações mais antigas não têm a beleza dos LPs daqueles discos de vinil dos anos 60. Mas, mesmo assim, a música nos evoca outros tempos.

Quem se lembra da orquestra de David Rose? Seu melhor disco para mim era o que tinha o título da música principal, Holiday for Strings, composta pelo próprio Rose. Mas, havia outras melodias que me trazem belas lembranças, que vocês, com certeza conhecem: Poinciana, September Song, Tenderly, Deep Purple e An American in Paris, de Gershwin. Lembro-me que Tenderly (de Walter Gross) foi uma de minhas preferidas e mais tocadas por meu grupo de seresta, que tocava nas ruas desertas das madrugadas boêmias de Jaboticabal, de 1949 a 52.

E a orquestra de Percy Faith? Ouvi com saudade e prazer o CD com suas 16 mais solicitadas ( cujo título era exatamente esse: Sixteen Most Requested Songs) entre as quais as músicas de filmes de sucesso, como A Summer Place (Amores Clandestinos), The Sound of Music (Noviça Rebelde), Moulin Rouge, e outras.

A orquestra de Mantovani gravou mais de uma centena de LPs e CDs, com as melodias populares de maior sucesso de três décadas. Tenho talvez uns 30 CDs dessa orquestra. Disputando com Mantovani, com um número um pouco menor de gravações, vieram as orquestras de Henry Mancini e André Kostelanetz, para cobrir um repertório que incluía desde boleros, blues, canções franceses, tangos, bossa nova, música cigana e clássicos populares.

Da orquestra de Morton Gould, o CD que mais me agrada é chamado Blues in the Night, como melodias como Saint Louis Blues, Deep Purple, Sophisticated Lady e Moonglow. Esta última melodia, dos anos 1930, ficou famosa porque foi mesclada ao tema do filme Pic Nic, de 1955, cuja cena mais famosa era a de Kim Novak e William Holden dançando ao som daquela canção, numa plataforma sobre um lago, numa noite de luar. Quem se lembra?

Voltei mais descansado do feriadão. Minha próxima oportunidade de ócio com dignidade será nas férias de julho, quando terei mais tempo para curtir minhas orquestras favoritas, populares e clássicas, bem como as Big Bands dos melhores tempos do jazz.

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