Desmassificar é a grande tendência

Para Alvin Toffler, a sociedade industrial está sendo substituída pela sociedade do conhecimento, cuja característica é o processo de desmassificação -- ou seja, da criação de segmentos, de nichos e de grupos de pessoas que são, ao mesmo tempo, produtores e consumidores -- ou prosumers.

Ethevaldo Siqueira

07 de outubro de 2010 | 16h07

Alvin Toffler tem mostrado e enfatizado nos últimos meses aquela que é, a seu ver, uma das grandes tendências de nosso tempo: a desmassificação. Em palestra que proferiu recentemente, o famoso escritor e visionário, autor de livros de bestsellers como Choque do Futuro e A Terceira Onda, explica a nova tendência:

“Vivemos neste início do século 21 um momento de reversão do processo de massificação que caracterizou a segunda onda, a da revolução industrial. Tudo naquela fase visava à produção em massa. Os sociólogos criaram a expressão Sociedade de Massa. Os meios de transporte passaram a ser conhecidos como meios de transporte de massa. Os meios de comunicação, como comunicação de massa. E a educação virou um simulacro das fábricas, das linhas de produção industrial, com trabalhos repetitivos, para preparar os garotos para uma vida inteira. Em muitos casos, essa ainda é a educação que temos em todo o mundo”.

Para o futurólogo, alguns de seus conceitos básicos ainda continuam válidos e atuais, como o das três ondas (Sociedade Agrícola, Sociedade Industrial e Sociedade do Conhecimento). Mas diz que um dos pontos fundamentais a ser revisto no tocante à Sociedade do Conhecimento é a emergência do processo de desmassificação. “Pessoalmente – diz Toffler – não tenho dúvida: a Sociedade Industrial está no fim. O mundo vive o auge da Terceira Onda, que transforma continuamente a economia e a sociedade, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Estamos no ponto mais alto do processo de desmassificação.”

Mas que significa desmassificar? O mundo de hoje nos mostra muito mais estilos de vida, muito mais estruturas de famílias, muito mais esportes, muito maior diversidade de entretenimento, de trabalhos, de profissões e de indústrias que trabalham para produções de nicho. Isso tudo se reflete até nos meios de comunicação, nas revistas, rádios, jornais e televisão – que passam a se dirigir, cada dia mais, a segmentos, a grupos de indivíduos e não à massa de toda a sociedade.

“A comunicação deixou de ser homogênea, dirigida a toda a população” – relembra Alvin Toffler. “Essa tendência não se reflete apenas na mídia, mas em toda a infra-estrutura social. Chamo a isso a ascensão do prossumer, neologismo que cunhei para definir o produtor e consumidor ao mesmo tempo. E note que há uma fronteira difusa entre produção e consumo em muitas atividades”.

Alvin Toffler relembra o caso da fotografia, em que dependíamos da aquisição de filmes, de revelação numa loja distante, e, muitos dias depois, as cópias e ampliações encomendadas. Que mudança, com as fotos digitais, em que o cidadão faz quase tudo sozinho e obtém o resultado imediato, sem gastar quase nada, e com a possibilidade de enviar dezenas ou centenas de cópias pela internet. Ou ainda os novos aparelhos que nos permitem monitorar pressão e batimentos cardíacos, em lugar de ter que fazer visitas freqüentes ao médico ou ao hospital. Fazemos um pouco do trabalho do médico. Eis aí a mudança dos prossumers.

O crescimento do volume de informação produzida a cada ano no mundo é algo que impressiona, segundo os dados citados por Alvin Toffler. Em 2006, o mundo produziu 161 exabytes de informação, aí incluídos voz, dados, programas de rádio, imagens, textos, gráficos, filmes, vídeo, mensagens da internet (exceto spans).  Mas que significam 161 exabytes? Significam o equivalente a 3 milhões de vezes o conteúdo de todos os livros já escritos na história do mundo. Se postos um sobre o outro, esses livros corresponderiam a 12 pilhas de livros cobrindo a distância da Terra ao Sol, ou uma média per capita de 24 gigabytes (GB) para cada um dos 6,58 bilhões habitantes do planeta. Mais impressionante é a velocidade do crescimento desse volume de informação. Assim, em 2010, serão 988 exabytes, ou quase um zettabyte, equivalente a 75 pilhas de livros cobrindo a distância da Terra ao Sol, ou uma fatia de 150 GB para cada habitante da Terra.

Alvin Toffler dá outros números impressionantes sobre anúncios classificados, mensagens publicitárias de todos os tipos, notícias, relatórios e conversações telefônicas via celular em todo o mundo: “Imaginem o impacto global desse volume diário de informações que circula entre os 3,4 bilhões de celulares existentes hoje no mundo”. O famoso escritor tem uma das taxas de acerto mais elevadas em suas previsões sobre o futuro. Seu primeiro livro de sucesso – O Choque do Futuro – foi publicado em 1971. A Terceira Onda surgiu em 1980. A maior parte de suas previsões e análises, feita em ambos os livros ainda tem grande atualidade.

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