Diploma obrigatório é reserva de mercado

A obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercício da profissão fecha as portas da mídia a milhares de profissionais, com formação específica em áreas como medicina, economia, engenharia, tecnologia da informação, sociologia e muitas outras -- impedindo que o próprio jornalismo ganhe mais qualidade e credibilidade. Não melhora a qualidade das publicações nem beneficia a sociedade.

Ethevaldo Siqueira

21 de julho de 2010 | 11h22

Sou contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercício da profissão. Sem nenhuma paixão ideológica nem corporativista. Afirmo-o com base em minha experiência pessoal, pois sou jornalista diplomado na primeira turma de formandos, de 1970, pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), e na qual lecionei durante 14 anos. Mesmo com registro profissional desde 1969, continuei o curso da ECA, e nessa escola fui professor por mais de 14 anos.

Essa experiência me dá plena convicção de que os cursos de jornalismo não são a única, nem a mais completa forma de qualificação do futuro jornalista. É claro que não sou contra o diploma de jornalista nem, muito menos, contra os cursos de jornalismo. Apenas considero que, por melhor que sejam, eles não são suficientes para uma boa formação do jornalista. Eles nos ensinam a técnica, mas não nos dão a cultura, nem sequer a melhor linguagem ou base científica e humanística que a profissão exige. Sua melhor contribuição está nos níveis de pós-graduação.

Ao longo de minha vida profissional, além de ter cursado três anos de Ciências Sociais na mesma universidade, fiz dezenas de outros cursos específicos, de curta duração e de reciclagem, focalizados em matérias que mais me interessavam para escrever na área do jornalismo científico e tecnológico (como Física, Eletrônica, Acústica etc.), especialização a que me dediquei desde o primeiro dia de trabalho neste Estadão, em março de 1967. E ainda sou obrigado a manter-me atualizado com tudo que de relevante acontece em minha especialidade, com viagens, congressos e exposições.

Em minha opinião, o que faz o bom jornalista é, muito mais, o que vem depois do curso de graduação (de qualquer especialidade) que tenha cursado. É a soma de vários esforços que lhe sejam agregados, com a prática, o trabalho cotidiano, a leitura sistemática de tudo que interessa à sua especialização, a atualização pessoal e autodidática, a participação constante em seminários, conferências e congressos e, se possível, em novos cursos em nível de pós-graduação.

Reservar o mercado exclusivamente para portadores de diploma dessas escolas é um retrocesso que prejudica nossa profissão e a própria sociedade, fechando as portas do jornalismo a milhares de talentos e pessoas capazes, médicos, economistas, engenheiros, sociólogos e cientistas de várias especialidades.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) derrubando a obrigatoriedade foi acertada. E a maior besteira é dizer que ela foi resultado de uma pressão patronal. Tentar restabelecer a regra anterior é apenas o reflexo da mentalidade corporativa anacrônica que domina nossas entidades sindicais – e que não representam necessariamente a opinião da própria classe – não leva em conta os verdadeiros benefícios da abertura da profissão a todos os que tenham mérito e qualificação diversificada. E esclareço: sou filiado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Meu colega, Luiz Garcia, jornalista de O Globo, coloca com precisão o problema: “Não é a liberdade de imprensa que está em questão, como acreditam ministros do STF. É a qualidade da informação. Nenhuma empresa jornalística cometeria o suicídio de menosprezar o bom profissional com formação em comunicação social. Mas é absurdo negar à mídia o direito de incluir em suas equipes cidadãos com outro tipo de bagagem: na medicina e na economia, por exemplo. Ou mesmo, em casos raros, mas que existem, aqueles que não têm diploma algum”.

Quando olhamos para as profundas transformações já produzidas pela tecnologia – em especial a revolução da internet – nas últimas duas décadas, ficamos ainda mais admirados da falta de consistência da tese da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista.

Segundo estimativas confiáveis, o mundo conta hoje com mais de 60 milhões de blogs, além de 3 milhões de portais essencialmente jornalísticos. Algumas centenas desses novos espaços estão no Brasil. Como fazer valer qualquer tipo de obrigatoriedade de diploma nesse universo? A proibição será, em breve, inaplicável, caso venha a ser restabelecida.

A efetividade da proibição só poderia vigorar no Brasil no âmbito dos jornais e revistas impressos, do rádio e da TV.  Ora, o jornalismo do futuro será predominantemente eletrônico e virtual. O jornal impresso sobreviverá, na melhor das hipóteses, como atividade de nicho, como veículo de análise, tendências e reflexão – nunca de notícias.

Diploma de jornalista obrigatório é algo tão discriminatório e odioso quanto as cotas raciais e todas as reservas de mercado que proliferam neste país. Espero que o Congresso brasileiro tenha a devida lucidez ao examinar o projeto de lei que tenta restabelecer o absurdo introduzido pelo regime militar em 1969 e que foi, em boa hora, derrubado pelo STF.

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