Uma lição de banda larga

O plano de banda larga dos Estados Unidos é dos mais interessantes e criativos. Partindo de uma análise realista da situação medíocre desse setor, propõe metas ambiciosas para os próximos 10 anos.

Ethevaldo Siqueira

19 de março de 2010 | 17h09

Por sua forma, conteúdo e propostas, o plano norte-americano de banda larga é um documento histórico e antológico. Desde a semana passada, o projeto está sendo debatido no Congresso. E chega com atraso, pois os Estados Unidos, embora sejam o país mais rico do planeta e tenham criado a internet, ocupam posição medíocre no ranking mundial de banda larga – ou seja, o 15º lugar – atrás da Coreia do Sul, Luxemburgo, Cingapura, Taiwan, Japão, Suécia, Suíça, Holanda, Dinamarca, Islândia, Austrália, Canadá, Irlanda e Reino Unido.

O plano foi preparado pela Comissão Federal de Comunicações (FCC, sigla de Federal Communications Commission), órgão regulador do setor e enviado ao Legislativo. Seu objetivo central é elevar a taxa de penetração da banda larga de 65% paa 90% das residências americanas, eaumentar a velocidade vigente de 3 ou 4 megabits/segundo (Mbps) para 100 Mbps, até 2020.

Para alcançar essas metas, os Estados Unidos terão que investir US$ 16 bilhões dos fundos administrados pela FCC e destinados até aqui à universalização do telefone, além de investimentos 10 vezes privados 10 vezes maiores. Para viabilizar os principais objetivos do plano, o governo deverá criar poderosos incentivos ao investimento na nova infraestrutura de comunicações e estabelecer áreas prioritárias para a inclusão de mais de 25% da população do país.

A FCC sugere que o governo promova a competição, pela remoção das barreiras, estimule o investimento e prepare os consumidores com as informações de que eles necessitam para utilizar intensamente as redes de banda larga, como alfabetizados digitais – condição fundamental para participar da nova economia.

Em sua mensagem ao Legislativo, o presidente da FCC, Julius Genachowski, além de fazer um diagnóstico bastante realista da situação, propõe uma mudança radical do cenário: ” Os Estados Unidos estão numa encruzilhada. Ou o país se compromete em criar redes de banda larga de importância mundial para garantir que as próximas ondas de inovação e do crescimento de negócios aconteçam aqui, ou ficará à margem do caminho, a ver invenções e empregos migrarem para aquelas partes do mundo que dispuserem de infraestruturas de comunicações melhores, mais rápidas e mais baratas.”

Para assumir uma posição de destaque mundial, os Estados Unidos têm pela frente um imenso desafio, reconhece Genachowski: “Dezenas de milhões de norte-americanos não dispõem hoje de banda larga. Isso é inaceitável, se levarmos em conta o número de interações que hoje circulam online, incluindo as listas de empregos e treinamento profissional que transitaram durante a pior recessão que vivemos em décadas. Esses milhões de cidadãos poderiam e deveriam estar conectados, mas não acessam a rede por três razões: 1) porque não podem pagar pelo serviço; 2) porque não sabem usá-lo; 3) ou ainda porque não estão cientes de seus benefícios potenciais.”

Segundo o presidente da FCC, mesmo entre os que já utilizam a internet, a vasta maioria ainda não dispõe de banda larga suficientemente larga e rápida para se beneficiar do ensino à distância por meio de vídeo ou para obter um diagnóstico médico, ou dezenas de outras aplicações existentes ou emergentes.

Sem banda larga, diz Genachowski, nenhum empreendedor pode cuidar de seu pequeno negócio. “E vale lembrar que 26% das propriedades agrícolas e centros de negócios rurais dos Estados Unidos não dispõem de acesso a um modem de cabo e mais de 70% dos pequenos negócios contam com pouca ou nenhuma banda larga móvel (celular 3G). Para complicar ainda mais a situação, à medida que a banda larga móvel se torna mais importante, os Estados Unidos enfrentam uma enorme escassez de espectro de frequências.”

O plano norte-americano de banda larga tem quatro objetivos principais:

1) Assegurar a cada cidadão norte-americano a oportunidade de acessar todos os serviços essenciais de banda larga em sua residência.

2) Dotar efetivamente os EUA de redes avançadas, que são essenciais para fortalecer sua economia.

3) Permitir que o país capture a próxima onda de mudança e que suas redes móveis sejam as melhores do mundo em velocidade e alcance.

4) Dar maior segurança aos cidadãos, possibilitando que cada interlocutor tenha acesso a uma rede pública de segurança de banda larga interoperável, de âmbito nacional e sem fio.

Na visão do presidente da FCC,  com a banda larga, “os EUA poderão dispor de uma tecnologia com maior potencial para o desenvolvimento e para a conquista do bem-estar econômico e social já surgida desde o advento da eletricidade.”

Entre os apelos que faz na introdução do plano, Genechowski propõe: “Imaginem um mundo onde as crianças nos bairros de baixa renda possam, de suas salas de aulas, ter acesso aos melhores professores do mundo e acessar em casa aos mais atualizados livros de textos. Desenhem em sua imaginação um cenário onde idosos diabéticos moradores da zona rural, sem acesso rápido a médicos, possam aconselhar-se sobre

acesso rápido a médicos, possam aconselhar-se sobre alimentação em seus computadores domésticos. A História nos ensina que as nações que lideram as revoluções tecnológicas obtêm enormes recompensas. Nós podemos liderar a revolução da banda larga com fio e sem fio. O momento de agir é agora.”

Quem quiser acesar o texto integrar do plano de banda larga dos EUA pode usar o link: www.broadband.gov/download-plan ou ainda  visitar o site www.telequest.com.br.

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