É essencial compreender a geração interativa

Pais e adultos ainda não compreendem as diferenças entre as novas gerações e as crianças e jovens de outros tempos. Os estudos especializados revelam não apenas o comportamento como os problemas dessa geração interativa. Um dos problemas mais sérios nessa área é o abandono das crianças durante horas a fio diante da internet ou de videogames.

Ethevaldo Siqueira

27 de julho de 2010 | 10h14

Garotos e adolescentes de hoje dominam o computador, o videogame e o celular com uma facilidade impressionante. Navegam na internet como poucos adultos seriam capazes. Adoram as redes sociais e sites que a maioria dos adultos nem supunha que existissem. Aprendem ou descobrem tudo sozinhos ou com uma troca de informações muito rápida com seus colegas, com base em sua incrível intuição. Até porque não têm medo de errar uma ou dez vezes. Tudo isso não é novidade – nós, adultos, já percebemos que estamos diante de uma geração muito diferente da nossa.

Acabo de conhecer e entrevistar uma grande especialista nessa nova geração: a professora Charo Sádaba Chalezquer, que é diretora do Departamento de Empresa Informativa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra. Em lugar de geração Y ou geração X, seria melhor chamá-las agora de geração interativa ou até no plural, gerações interativas.

“O aspecto mais importante a destacar sobre esses meninos e jovens – diz a professora Sádaba Chalezquer – é que, pela primeira vez, estamos diante de jovens que sabem mais do que seus pais ou do que os adultos em geral (ou pensam que sabem) sobre novas tecnologias. Essa aparente auto-suficiência dos jovens irrita, em geral, os pais e cria barreiras de preconceito e incompreensão nas relações familiares.”

Nossa primeira constatação sobre esses garotos e adolescentes é sua aparente auto-suficiência. E, como usuários de novas tecnologias, eles, realmente, demonstram maior domínio e facilidade do que a maioria esmagadora dos adultos. Mas ninguém deve pensar que essa geração interativa seja homogênea. Há diferenças muito grandes de comportamento entre garotos da mesma idade e da mesma classe econômica. 

Aliás, segundo a especialista espanhola, um equívoco muito comum hoje é pensar que os jovens dessa geração interativa não lêem. Pelo contrário, eles lêem mais do que os adultos. Sua leitura, no entanto, é diferente, fragmentada, sem muita sequência lógica. Esse erro de avaliação leva muitos pais a insistirem que seus filhos leiam livros. E, naturalmente, encontram grande resistência dos garotos.

Essa nova geração passa boa parte de sua infância e adolescência diante de quatro telas: a do computador, da TV, do celular e do videogame. Boa parcela dela já está diante de telas de e-books, iPods, tablets, netbooks e outras. E a situação no Brasil?

 Um livro sobre o tema na América Latina acaba de ser publicado pela Editora Ariel, de Barcelona, e pela Fundación Telefónica. Com o título de “A Geração Interativa na Ibero-América – Crianças e Adolescentes diante das Telas”, esse livro analisa em profundidade os dados de uma pesquisa sobre o tema realizada na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Venezuela.

A professora Charo Sádaba Chalezquer está no Brasil para dar um curso sobre o tema da Geração Interativa a 45 jornalistas, no Instituto Internacional de Ciências Sociais, em São Paulo. Ela foi uma das coordenadoras de um estudo sobre o comportamento dessa nova geração na América Latina, em conjunto com o professor Xavier Bringué Sala, também da Universidade de Navarra.

Os riscos do abandono

A falta de compreensão dos pais em relação ao comportamento e às preferências da geração interativa leva, com freqüência, ao abandono dos garotos e jovens diante da internet pelos pais. Esse problema parece atingir hoje a maioria das famílias estudadas no Brasil, na América Latina e na Espanha.

Aqui como na Europa, segundo a professora Charo Sádaba Chalezquer, há casos realmente sérios desse tipo de abandono, pois as crianças acabam ficando horas e horas, navegando na internet, visitando sites de todos os tipos, sem qualquer consciência dos riscos e perigos que as ameaças – sendo o maior deles a ação dos pedófilos.

Esse perigo já preocupa até a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência das Nações Unidas para esse setor, que desenvolve campanha mundial, com o alerta bem claro: “Proteja seu filho dos perigos da internet”.

Além do abandono dos filhos no lar, porque seus computadores ficam nos quartos de dormir dos garotos, existe ainda o risco das lan-houses e cibercafés. Nesses estabelecimentos, a situação é ainda mais grave porque, entre seus freqüentadores, há até delinqüentes e aliciadores de menores.

Está na hora de abrir os olhos da maioria dos pais, aqui e lá fora.

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