Já sinto saudade do CD

Aproveite os últimos tempos de bons CDs clássicos, de jazz ou música popular internacional. A indústria fonográfica mundial está acabando. Em 10 anos, os CDs serão produtos raros.

Ethevaldo Siqueira

18 de setembro de 2010 | 06h59

Se você gosta da fase de ouro da música popular francesa, fique de olho na sua loja de CDs e garanta o seu exemplar de um álbum maravilhoso: Fleur de Paris, com 12 violoncelistas da Filarmônica de Berlim. Além da beleza sonora, você curtirá melodias tão lindas quanto Sous les Ponts de Paris, Pavane (de Fauré), Pigalle, Que reste-t-il de nos amours?, Pavane pour une Infante Défunte (Ravel), Une Femme est une Femme, Fleur de Paris, Clair de Lune (Debussy), La Vie em Rose, Sous le Ciel de Paris, Gymnopédie Nº 1 e Figure Humaine.

Navegar entre a música clássica e a popular é umas das minhas paixões. Tenho também CDs de música popular tocada por músicos de grandes orquestras, da London Symphony Orchestra, da Orquestra do Teatro Bolshoi, da Filarmônica de Nova York e outras. São conjuntos formados por violinistas ou celistas de primeiro nível tocando arranjos de obras primas do jazz ou da música popular internacional ou clássicos mais leves (encores ou clássicos ligeiros, como se dizia noutros tempos).

Em recentes viagens à Alemanha, pude ouvir duas orquestras de primeiro nível mundial, que não ouvia há pelo menos 10 anos: a Filarmônica de Berlim e a Concertgebow de Amsterdã. Talvez sem grande fundamento, eu goste um pouquinho mais da Filarmônica, especialmente quando regida por Seiji Ozawa.

Mas minha grande experiência desta vez foi com a orquestra holandesa, sob a regência do maestro letão Mariss Jansons, que ouvi tocando duas peças de Stravinsky (Sinfonia de Instrumentos de Sopro e O Pássaro de Fogo), Béla Bartók (Música para Cordas, Percussão e Celesta) e Luciano Berio (Quattre Dédicaces). No dia seguinte ao concerto, fui a uma das melhores lojas de CDs de Berlim e encontrei exatamente a gravação do Pássaro de Fogo, com a Concertgebow, dirigida por Jansons.

A morte das gravadoras 

A tecnologia digital revolucionou a música gravada em todo o mundo, com boas e más conseqüências. De um lado, universalizou a qualidade superior dos CDs, eternizou a música erudita e levou a milhões de pessoas o som mais puro das melhores orquestras e intérpretes do planeta. O problema foi tornar o acervo erudito altamente vulnerável à ação dos piratas na internet e pôr em risco a sobrevivência da própria indústria de música gravada em todo o mundo.

 Quem visita as maiores lojas de discos do mundo, como as da Virgin ou da Tower Records, em Londres ou Nova York, comprova tudo isso: as seções de música erudita estão reduzidas a um terço do que eram há 10 ou 12 anos. Não há mais dúvida, portanto, de que os novos paradigmas tecnológicos condenaram a velha indústria fonográfica à morte.

Já escrevi sobre o tema, mostrando que essa derrocada não teve apenas fatores tecnológicos, mas outras causas, não-tecnológicas, que levaram a indústria à agonia, como demonstra o crítico musical britânico, Norman Lebrecht, em seu livro Maestros, Obras-Primas & Loucura (A vida secreta e a morte vergonhosa da indústria de música clássica) – Editora Record. O crítico britânico conta praticamente a história de cada grande gravadora, analisando as causas de sua decadência e mostrando a ganância de alguns maestros e intérpretes que ganharam muitos milhões de dólares. Karajan vendeu 200 milhões de discos. Luciano Pavarotti, 100 milhões. Georg Solti, 50 milhões. O CD dos Três Tenores (Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras), com Zubin Mehta, vendeu 10 milhões. 

O melhor do livro de Lebrecht, a meu ver, é a segunda parte, em que ele seleciona e comenta as “Obras-primas: 100 marcos do século da gravação” – um trabalho de pesquisa histórica que começa com as Primeiras Gravações, de Caruso, de abril de 1902, passa pelos discos de 78 rotações por minuto (rpm), LPs de 33,3 rpm e chegam ao último CD, de 2004, uma gravação dos Prelúdios, de Debussy. 

Na terceira parte, “Loucura: 20 gravações que nunca deveriam ter sido feitas”, Lebrecht arrasa com alguns discos, inclusive de celebridades como Jascha Heifetz, Sviatoslav Richter, David Oistrach, Mstislav Rostropovitch, Fritz Kreisler, Gidon Kremer, Pavarotti e a soprano Kiri te Kanawa. 

Polêmico, arrogante e dono da verdade, Norman Lebrecht escreve no estilo dos tablóides sensacionalistas britânicos – pois trabalha num deles, o Evening Standard. Mas é, sem dúvida, profundo conhecedor de música clássica, de compositores, de regentes, intérpretes e da indústria. Por tudo isso, o livro tem, seguramente, grande valor informativo.

Futuro digital

Pessoalmente, lamento a derrocada da indústria, que compromete praticamente a produção fonográfica atual e futura, não apenas de música popular, mas, em especial, a de música clássica, pela qual sempre tive paixão. Em minhas viagens de trabalho pelo mundo, investi quase tudo que minhas parcas economias me permitiam em gravações de música clássica, para formar uma boa discoteca particular de CDs.

É claro que os CDs, as gravações em MP3 e a internet mudaram radicalmente o cenário elitista de acesso à música clássica que dominava o mundo até os anos 1970, embora os amantes do som de alta fidelidade (os audiófilos) mais exigentes torçam o nariz diante de meu home theater e de inovações como o som surround, com seis canais, 5.1.

Como cidadão do século 20, venci todas as resistências para usar o iPod, onde armazeno mais mil músicas clássicas e populares, para ouvi-las no avião, nos aeroportos e nos hotéis, com um fone de ouvidos cancelador de ruídos. Em casa, meu grande prazer ainda é ouvir música, dos melhores CDs e DVDs, em meu home theater, de madrugada, no silêncio mais completo da noite, afundado numa poltrona, com o mesmo volume que ouviria numa sala de concerto, na sétima fileira central. 

Minha geração aprendeu a curtir o melhor som analógico dos LPs de vinil dos anos 1970, em equipamentos modulares a válvula. Mesmo assim, não teve dificuldade para aderir ao som digital. Hoje, contudo, tenho que transferir a maior parte do conteúdo de minha discoteca clássica dos CDs convencionais para o formato MP3, mas o faço à velocidade de 192 quilobits por segundo (kbps) – taxa de amostragem que melhora sensivelmente a qualidade em relação ao MP3 convencional. Mas que não se compara ao som dos Super Audio CDs, ou DVDs Audio. Nem dos futuros Blu-rays de música clássica, em alta definição e seis canais de áudio. 

Um conselho 

Se você tem bons CDs, DVDs, fitas analógicas de áudio ou vídeo, velhos LPs, discos 78 rotações por minuto (rpm) ou qualquer outra mídia – cuide com o maior carinho de todo esse acervo e procure quem possa digitalizá-lo, com a melhor qualidade possível. Conheço muita gente que não cuidou bem de sua discoteca e hoje se arrepende.

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