Liberte-se da tecnologia

Imperceptivelmente, nos deixamos dominar pela tecnologia digital: computador, internet, celular, banda larga, o diabo. Caímos na obsessão do aumento da produtividade e nos escravizamos à tecnologia. O resultado é o pior possível: nem produzimos mais, nem curtimos a vida. Mude, leitor.

Ethevaldo Siqueira

25 de abril de 2010 | 12h47

Anos atrás, de modo quase imperceptível, percebi que estava sendo dominado pela tecnologia. O computador, o celular e a internet passavam a devorar horas e horas de meu tempo. Eu perdia quase metade de meu dia de trabalho navegando sem rumo, dispersivamente, na internet. E, pior, estava sacrificando as coisas realmente agradáveis da vida, como o convívio com a família, o lazer, a arte, um pouco de exercício físico e o contato com a natureza.

Suponho que muitos leitores já viveram ou estejam vivendo situação semelhante. A todos eu digo: não se deslumbrem diante da tecnologia, por mais fascinante que ela seja. A vida tem coisas muito melhores. E vocês sabem o quanto eu gosto de tecnologia.

Mas, voltando ao meu problema de há algum tempo, fiz meu diagnóstico com a maior isenção possível e concluí que me havia transformado num usuário obsessivo dessa parafernália tecnológica que nos cerca. Alguns amigos mais próximos me punham apelidos ridículos: webívoro, bitão, hipernerd, mackintóxico, audiovidiota. 

Assim que identifiquei o problema em toda sua extensão, busquei remédio em diversos locais. Quase tudo em vão. É curioso, mas o mundo não sabe lidar com essa doença nem, muito menos, curá-la. Na internet só encontrei sugestões bizarras, desabafos, protestos e gritos de insatisfação como: “Passe um dia sem internet. Fique pelo menos 24 horas sem o Google. Desligue hoje seu celular”. Ou propostas românticas, de fuga para uma espécie de paraíso perdido, que espero um dia poder realizar: “Mude-se para uma casa cercada de flores na Serra Gaúcha, sem TV, sem computador, sem messenger, sem Orkut, sem e-mails, sem telefone”. Ou, como minha mulher aconselha: “Vamos mudar para Ribeirão Preto. Lá tem o chope mais gostoso do Brasil…”

Depois de algumas tumultuadas sessões com um grupo de amigos que viviam o mesmo drama – a que eu chamei de Neuróticos Digitais Anônimos (NDA) – aprendi que não poderia mais permanecer ligado à internet, ansioso, a consultar obsessivamente meu smartphone, em busca de e-mails urgentes, em restaurantes, hotéis ou aeroportos, como tantos executivos e jornalistas que conheço.

Se o seu problema é o mesmo, leitor, reaja. E o caminho é simples: usar a própria tecnologia para defender-se de sua tirania. Como? Use a tecnologia a seu favor, para relaxar, para divertir e para fugir da rotina. Seja mais frio diante dos avanços digitais e resista ao fascínio que eles exercem. Nunca perca o senso crítico diante deles.

Ao final, me curei sem cair nas soluções extremistas, como eliminar a internet nem as novas tecnologias de minha vida. Percebi que a solução está no meio e não no radicalismo (como em quase tudo na vida). Não se tratava de ficar sem tecnologia para sempre. Nem apenas por um dia. Acho até que aprendi a dosar sua utilização para o resto de minha vida, combinando trabalho e lazer na medida certa. 

Por isso, os acessórios mais importantes de meu desktop são hoje as novas caixas acústicas do sistema de multimídia. Com o melhor áudio estéreo, posso interromper meu trabalho por alguns minutos, para ouvir música. Como acabo fazer nos últimos cinco minutos, e continuo escrevendo ao som do Concerto para Piano nº 4 de Beethoven, com Emmanuel Ax e a Royal Philarmonic Orchestra, regida por André Prévin. Com boa música, tudo fica mais calmo e minha cabeça mais leve.

A cada hora de trabalho, aproximadamente, faço uma pausa de cinco minutos. Se for de madrugada, prefiro ouvir coisas mais românticas ainda, como a Balada nº 1 de Chopin, com Arthur Rubinstein, numa gravação em Super Audio CD. Com o silêncio da noite, de olhos fechados, me sinto transportado para a Sala São Paulo ou para a Concertgebow, de Amsterdã.

Com disciplina e planejamento, consegui mudar radicalmente meus hábitos de workaholic digital. E, creiam, hoje trabalho menos, com mais prazer e produzo mais. Consigo planejar melhor minha vida e estar à frente das necessidades. Cumpro rigorosamente os compromissos de lazer e sou mais flexível com as obrigações de trabalho.

Não navego mais a esmo na internet. A não ser intencionalmente, numa forma de serendipitia consciente, só consulto sites e blogs específicos e volto às tarefas anteriores. Outras vezes começo uma turnê planejada pela Wikipedia, por simples prazer, ou vou a um site de música como o www.prs.com (www.classicalarchives.com), do qual sou assinante. Tudo sem neurose.

No começo de abril, tive que fazer longa viagem, para São Francisco e Las Vegas, a trabalho. Diferentemente do que fazia no passado, não passei diversas horas escrevendo no avião, debruçado sobre o laptop. Planejei meu relaxamento e preparei meu fone de ouvido cancelador de ruídos (noise-cancelor) conectado ao meu iPod, e passei a ouvir duas horas de Vivaldi, Bach, Beethoven, Brahms ou Chopin. Reduzindo drasticamente o ruído de fundo das turbinas, pude curtir até o Canon de Pachelbel antes de mergulhar em sete horas de sono mais traquilo. 

É claro que, ao retornar de viagens como essa, tenho que enfrentar a defasagem de fusos horários, o terrível jet leg. Nas primeiras noites de insônia, meu remédio tem sido afundar-me numa poltrona, diante do home theater e rever algo como o show de Andrea Bocelli, Under the Desert Sky, em Las Vegas, o primeiro com canções populares em inglês e espanhol. Ou o show de Celine Dion, no Coliseu, do Hotel Cesaers Palace, Las Vegas, num blu-ray sensacional.

Cada um de nós tem buscar o que mais lhe agrada. O receituário que aprendi com a ajuda dos colegas do grupo dos neuróticos anônimos reúne conselhos que funcionam, leitor. Pense neles. 

Interrompa seu trabalho, para relaxar, para ouvir música ou para três minutos de alongamento. Aprenda a respirar. Você se sentirá outro. Esqueça, pelo menos durante algumas horas, as piores notícias que você viu na TV e os escândalos políticos da semana. Desligue seu celular nos fins de semana e consulte a caixa postal apenas uma vez por dia, no sábado e no domingo. Pratique algum esporte. Tome mais sol e caminhe em praias desertas, ao amanhecer. Brinque com seus filhos ou netos. Viaje nas férias sem laptop. Ouça muito mais música. Troque o uísque por suco de frutas. Nas horas vazias, leia mais. Vá ver o filme Avatar, em cinema digital 3D. Nos Estados Unidos, vi também Alice no País das Maravilhas, igualmente em 3D. Fantástico. Estou curtindo um livro excelente: Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson. Nas últimas férias li Jorge Amado, Lya Luft, Machado de Assis e Carl Sagan.

Em síntese: liberte-se da tecnologia. Você será outro ser humano. É o que estou, finalmente, conseguindo, meu amigo. Ou, pelo menos, tentando.

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