O bando de idiotas atrasa tudo

Falta tudo para a Copa de 2014 no Brasil: estádios, aeroportos, hotéis, trem-bala, transportes, telecomunicações e muito mais coisas. A pior consequência do atraso dessas obras será o aumento brutal dos custos e o risco de corrupção, com a pressa e a urgência. Esse atraso poderá também se transferir às Olimpíadas de 2016 no Rio. Por que o Brasil não se inspira no exemplo britânico -- em especial na área de telecomunicações?

Ethevaldo Siqueira

18 de julho de 2010 | 22h26

Falta tudo para a Copa de 2014 no Brasil: estádios, aeroportos, hotéis em quantidade e qualidade, trem-bala, transportes urbanos decentes, telecomunicações e muito mais coisas. Além desses itens que já sabíamos, descobri também esse último item: telecomunicações adequadas.

Não há como negar o atraso geral. O secretário-geral da Fifa, Jerôme Valcke, fez o alerta em maio e o reiterou há duas semanas. O presidente da entidade, Joseph Blatter, tem repetido suas críticas na mesma direção. Até Ricardo Teixeira, o eterno presidente da CBF, mesmo minimizando os problemas, diz que sua maior preocupação é com os aeroportos brasileiros.

E que responde o Brasil? Com sua polidez e finesse características, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva respondeu a todas essas críticas na semana passada, durante a cerimônia de anúncio da concessão para a construção do trem-bala, com estas pérolas: “Terminou a Copa da África e já começam a dizer: Cadê os aeroportos brasileiros? Como se nos fôssemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas.”

É provável que a maioria dos responsáveis pela Copa de 2014 não seja, mesmo, um bando de idiotas. Mas tudo indica que não sabe fazer as coisas. O que nos preocupa é o preço do atraso, pois quanto maior for o atraso de tudo, maior será o preço das obras, que terão de ser construídas em regime de urgência. E não tenhamos dúvida: maior será o risco de corrupção. Projetos orçados em R$ 100 milhões, poderão custar mais de R$ 1 bilhão. Será que alguém tem dúvida?

E digo mais: o atraso da Copa poderá refletir-se até nas Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Vejam só o que eu descobri sobre as Olimpíadas de Londres, de 2012, que antecedem as do Rio.

Show de tecnologia

Acompanho de perto o trabalho da Inglaterra para conhecer o estado das obras e o projeto nacional daquele país para sediar os Jogos Olímpicos de Londres, de 2012. Além do espetáculo esportivo incomparável, o mundo assistirá a um impressionante show de tecnologia.

Para realizar esse evento, o Reino Unido está investindo nada menos que £ 9,3 bilhões – equivalentes a US$ 14,2 bilhões ou R$ 25,2 bilhões – em novos estádios, parques, conjuntos residenciais, hotéis, empresas de serviço, lazer, transportes, segurança, computação e comunicações.

Fiz duas entrevistas exclusivas via Telepresença com diretores da British Telecom (BT) para conhecer especialmente o projeto de telecomunicações previsto para as Olimpíadas de 2012 e que envolve a integração total entre redes fixas e móveis, com a maior infraestrutura de fibras ópticas já instalada em uma região metropolitana no mundo, serviços convergentes de banda larga, internet a 30 Megabits por segundo (Mbps), TV digital de alta definição (HDTV) e 3D, satélites e inovações que mais parecem ficção.

A BT, maior empresa de telecomunicações de do Reino Unido, conhecida anteriormente por British Telecom, é uma das patrocinadoras das Olimpíadas de Londres, com uma cota de £ 83 milhões (mais de R$ 237 milhões). Embora a BT faça sigilo sobre o montante de seus investimentos na nova infraestrutura de tecnologia de informação (TI) e telecomunicações e TI – é provável que esse total seja algo próximo de £ 4 bilhões (R$ 11,5 bilhões), segundo estimam alguns analistas.

Após vencer a licitação internacional para prover todos os serviços de comunicações e TI, em 2005, a BT decidiu usar a oportunidade única das Olimpíadas de 2012 para lançar o máximo de inovações, mas com a maior confiabilidade possível.

“Além de contar com moderna infraestrutura de telecomunicações espalhada pelo Reino Unido, a BT está implantando uma rede especial, exclusiva para prover a demanda de serviços gerada pela Olimpíada de 2012, com 80 mil terminais para interligação de 94 diferentes locais vinculados ao evento, tais como estádios, conjuntos habitacionais e instalações olímpicas” – diz Stuart Hill, vice-presidente e diretor do programa para as Olimpíadas de Londres-2012.

Essa rede interconectará as instalações e locais olímpicos por meio de uma infraestrutura de 4,5 mil quilômetros de cabos (coaxiais e de fibras ópticas), 16,5 mil linhas telefônicas e 14 mil chips (Sim-cards) para celulares. Centenas de telões mostrarão flashes das provas olímpicas em toda a cidade.

Cerca de 25 mil jornalistas que deverão cobrir as Olimpíadas terão à sua disposição mais de mil pontos de acessos sem fio, para celulares avançados (smartphones), via redes 3G, WiFi e WiMax. Essa infraestrutura servirá também às centenas de milhares de visitantes que poderão acompanhar as provas e jogos, ao vivo, em seus laptops e celulares mais avançados.

Até uma central de segurança da internet contra ataques de hackers foi planejada para as 4 semanas das Olimpíadas bem como para os Jogos Paraolímpicos, que se realizam no mês de setembro de 2012. Em dezenas de pontos de Londres, haverá telões de grandes dimensões e HDTV que mostrarão os principais momentos dos jogos e provas olímpicas.

Paul Excell, diretor de inovações, responsável pelo investimento da BT em pesquisa e desenvolvimento, explica que a rede olímpica será capaz de transportar 6 gigabits por segundo (Gbps) de informação, volume de dados equivalente ao conteúdo de 6 mil livros ou de 170 CDs de música em apenas um segundo.

Tudo mudará com o legado de telecomunicações das Olimpíadas, a partir de 2012: o usuário britânico poderá ter um novo telefone fixo instalado em apenas algumas horas. Hoje, o prazo de instalação é de uma semana. Todos os benefícios de uma rede de padrão IP (o protocolo da internet) estarão disponíveis para a população britânica. Uma nova rede de fibras ópticas interconectará todas as escolas e hospitais do país, com a possibilidade de comunicações de centenas de megabits por segundo.

De Pequim ao Rio

A BT enviou quase uma centena de especialistas à China para acompanhar tudo que a China fazia na preparação da Olimpíada de Pequim, em 2008, em especial na área de telecomunicações e de tecnologia da informação.

Na opinião dos diretores da BT seria altamente desejável que os responsáveis pelas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, acompanhassem de perto tudo que se faz no Reino Unido, especialmente na área de telecomunicações, para planejar a infraestrutura e a tecnologia que serão exigidas no evento, no Brasil.

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