O Brasil que eu quero

Que qualidades e compromissos devo exigir de meus candidatos? Confira com os seus, meu amigo.

Ethevaldo Siqueira

19 de setembro de 2010 | 15h31

Outro dia me perguntaram em quem irei votar. Em lugar de dar nome de candidatos ou partidos, eu disse que estou na reta final do processo de escolha, mas que meus candidatos serão aqueles que se comprometerem de corpo e alma com a construção do Brasil que queremos para todos nós e com a realização das seguintes aspirações:

Quero viver num país livre, democrático, progressista e moderno – que seja governado por estadistas e não por demagogos. E, para que não fique nenhuma dúvida, defino demagogo como “o político inescrupuloso e hábil que se vale das paixões populares para fins menos lícitos”, exatamente como ensina o Aurélio.

Quero viver num país sem impunidade, um país justo, de alto a baixo, onde o bandido não tenha mais direito nem mais proteção do que suas vítimas. Um país sem leis bastardas que reduzem sempre e cada vez mais suas penas, em progressões vergonhosas, para que o pior criminoso volte logo a matar, roubar e estuprar. Quero um país com leis duras e implacáveis com todos os corruptos e delinquentes. Um país que não faça valer os direitos humanos apenas em benefício de assassinos, ladrões e malfeitores.

Quero que meu país dê tratamento prioritário à educação, que valorize o professor e a criança. Que invista em pesquisa, em ciência, em saúde pública, em preservação da natureza e no desenvolvimento sustentável. Um país que privilegie o mérito, o trabalho, a honestidade, a dedicação, a fidelidade e o cumprimento dos deveres fundamentais do cidadão.

Quero um país com eleições verdadeiramente livres. Com voto distrital misto e não-obrigatório. Quero um Congresso atuante, batalhador e sério. Repudio os parlamentos dóceis, submissos, fisiológicos, que votam em bloco, que trabalham três dias por semana e apenas seis meses por ano. Quero que meu país conte sempre com uma oposição valente, corajosa, capaz de nos defender do assalto dos eternos oligarcas e governistas.

Quero que a imprensa de meu país seja livre em toda a plenitude democrática, sem mordaças, sem censura, sem supostos “controles sociais”. E comprometida exclusivamente com a verdade e com o bem do Brasil. Quero a mesma liberdade para a arte, a cultura e a internet.

Quero um país que incentive e apoie todos os cidadãos de baixa renda ou portadores de deficiências, para que eles possam superar suas limitações e alcançar a qualidade de vida que merecem. Mas, ao final, o que deve prevalecer é o mérito, sempre, sempre.

Falo como usuário, consumidor, aquele cidadão que, ao longo das últimas décadas, tem pago a conta de todos os protecionismos e cotas. Lembram-se da reserva de mercado de informática que nos obrigou a comprar e a usar computadores caros, defasados e de baixa qualidade, durante quase 20 anos? E tudo em nome da soberania nacional e da emancipação tecnológica do País. O resultado foi o que vimos: quase duas décadas de atraso tecnológico.

Recuso-me a viver num país com impostos escandinavos e serviços públicos africanos. Não aceito o Estado aparelhado, dominado e corroído pelos cupins, incapaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social, a preservação da natureza e assegurar um futuro mais promissor a nossos filhos.

Olhe à nossa volta, meu amigo, e veja quantos demagogos, populistas e mentirosos disputam nossos votos. Levá-los ao poder depende exclusivamente do voto de cada um de nós. Depois, de nada valerá gritar contra o baixo nível do Congresso ou do governo.

Mas, é claro, existem candidatos que merecem nosso voto. Não são muitos, mas existem. Não me venham com essa desculpa suicida de que é melhor anular nosso voto ou votar em branco, porque nenhum político vale um tostão furado. Isso é rendição. É atirar a toalha. É abrir a porta aos corruptos e canalhas, sem lhes opor qualquer resistência.

O mais triste, no entanto, é ver esse povão – que não lê, não reflete, não debate, não analisa e não estuda a vida de seu candidato – votar sem o menor senso crítico. Ou votar com o estômago. Ou votar com interesse puramente corporativo. É esse mesmo povão que se torna vítima fácil dos demagogos e é mais vulnerável ao discurso populista.

É esse mesmo povão que, aos poucos, parece tornar-se insensível a todos os escândalos. Não permita, meu amigo, que façamos do Brasil aquele triste país de que Ruy Barbosa falava e nos advertia há quase um século:

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Não estaremos próximo desse quadro?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.