O fascínio dos designers

Para a criação dos melhores produtos do mundo, não bastam as inovações tecnológicas. A criatividade humana é essencial, como provam alguns gênios do design industrial. Tony Fadell, o criador do iPod, é um deles. Mas há outros gurus que precisam ser conhecidos.

Ethevaldo Siqueira

17 de março de 2012 | 11h32

Outro dia, conheci um dos gênios do design da Apple, Tony Fadell, o criador do iPod. Depois de ouvi-lo, compreendi as verdadeiras razões por que a Apple conquistou o status de  empresa mais criativa do mundo, reconhecido até por suas concorrentes. Seu depoimento me reforçou a convicção de que essa empresa talvez seja no futuro mais brilhante e alcance ainda maior sucesso, com base no maior legado de Steve Jobs, que foi, em minha opinião, a formação de uma extraordinária equipe de criadores dotados de sólida cultura de design.

Tony Fadell tem hoje sua própria empresa, a Nest, mas continua dando lições de criatividade, sem esquecer o papel de Steve Jobs em seu trabalho e a inspiração que dele recebeu. A maioria dos designers da Apple, entre os quais, Fadell, aprendeu a materializar aquilo que a imaginação do líder lhes pedia.

Duas criações de Fadell: o iPod e o termostato inteligente (foto Ethevaldo Siqueira)

Em sua palestra em fevereiro, no evento SolidWorks 2012, em San Diego, Tony Fadell resumiu suas diretrizes de vida como designer, lembrando, entre tantas coisas, que, “para se criar um produto revolucionário, o projetista tem que atender a dois pontos essenciais: funcionalidade e design. E tudo tem que ser feito com a alma e o coração”.

Um super botão

 

A empresa de Tony Fadell cria soluções para a casa digital. Vale lembrar que o próprio nome da empresa, Nest, tem muito a ver com casa ou moradia, porque, em inglês, significa ninho. Tony fala com um entusiasmo juvenil sobre o primeiro produto que sua empresa está lançando: o Nest Learning Thermostat, um controle de ar condicionado. Ou melhor: um termostato inteligente que faz mil coisas e as memoriza para sempre.

Com esse botão mágico, o usuário não gasta eletricidade quando está fora de casa ou de um cômodo. O termostato inteligente indica a melhor temperatura para economizar energia quando não há ninguém em casa. Poupa esforço dos moradores em levantar dez vezes só para programar a temperatura ideal. O sistema pode desligar ou religar rigorosamente na hora programada. É o controle de funções mais inteligente e mais amigável que eu já vi.

A revista Wired apelidou o controle de funções criado pela Nest de “iPhone dos termostatos”. O produto só foi lançado nos Estados Unidos. Suponho até que dele surgirão novos produtos, como, por exemplo, um controle geral da casa digital, baseado em um único botão, que poderá ser programado para fazer mil coisas. E ele obedecerá com precisão matemática.

Jornalista isento?

É claro que o design mais avançado desperta a paixão dos consumidores. A propósito, durante décadas, aprendi que jornalista não pode comportar-se como fã de nenhum produto. Mas, algumas vezes, confesso que, mesmo me esforçando, não consigo refrear meu entusiasmo, como já ocorreu juntamente com uma plateia de usuários e fãs ruidosos, nos auditórios de São Francisco ou Cupertino, na cobertura de novos lançamentos da Apple. De repente, eu me surpreendia aplaudindo e gritando ao ouvir a descrição de cada recurso exclusivo ou característica dos novos produtos anunciados por Steve Jobs.

Nunca me recriminei muito por isso, até porque sempre via dezenas de jornalistas reagindo do mesmo modo, diante especialmente da capacidade incomum de comunicação que Steve demonstrava a cada lançamento de inovações geniais, como o iMac, o iPod, o iPhone, o iPad ou o Macbook Air retirado de dentro de um envelope amarelo. Como qualquer mortal, eu aplaudi tudo aquilo, sim, leitor. Mas só agora tenho a coragem de confessá-lo.

Minha consciência ficou mais aliviada depois de conversar há duas semanas com o jornalista Walter Isaacson, biógrafo de Steve Jobs, quando ele  participou do programa Roda Viva, da TV Cultura. Numa conversa rápida, antes de entrar no estúdio, Isaacson fez uma confissão que me tranquilizou: “Eu também nunca resisti ao entusiasmo daqueles lançamentos. Aplaudi e gritei, pois sou usuário e fã ardoroso dos produtos da Apple”.

O mundo do design

Nos últimos anos, bem antes de ouvir Tony Fadell e Walter Isaacson, eu já havia redescoberto a beleza do design ao entrevistar dois outros gurus desse setor. Um deles foi o professor Donald A. Norman, da Northwestern University e da Universidade da Califórnia em San Diego, que também foi vice-presidente da Apple. O outro foi Stefano Marzano, ex-executivo-chefe-designer da Philips holandesa, que acaba de assumir posição semelhante na Electrolux sueca.

Pensadores e visionários do designer como o professor Norman mostram o poder e as grandes tendências da criatividade industrial em todo o mundo, entre as quais, a usabilidade – de que resultam os produtos mais fascinantes para o usuário, chamados de users friendly. Essa facilidade de uso, aliás, é a marca dominante dos produtos da Apple e da dinamarquesa Bang & Olufsen, entre outras.

Sugiro a quem quiser aprofundar o tema a leitura de O Design do Futuro (The Design of Future Things) e O Design do Dia a Dia, de Donald Norman, lançados em português pela Editora Rocco.

Stefano Marzano e Emile Aarts são coautores de um livro extraordinário, publicado pela 010 Publishers, de Rotterdam, Holanda, mas difícil de ser encontrado no Brasil. Seu título em inglês: The New Everyday.

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