O preço do loteamento

O melhor caminho para evitar a corrupção e aumentar a eficiência dos governos é escolher ministros e dirigentes competentes e honestos, independentemente de pressão ou filiação partidária. O loteamento político do governo leva a essa sucessão sem fim dos escândalos.

Ethevaldo Siqueira

23 de julho de 2011 | 17h01

No passado, como milhões de outros brasileiros, eu tinha a ilusão de que o PT, se um dia chegasse ao poder, seria um partido diferente: ético, republicano e democrático. Quando Lula venceu as eleições presidenciais, pela primeira vez, em 2002, mesmo discordando da plataforma ideológica de seu partido e da visão de mundo petista, ainda esperávamos, em nossa doce ingenuidade, que o presidente-operário fosse, acima de tudo, ético.

E mesmo em 2010, com a eleição de Dilma Rousseff, tínhamos um fio de esperança na possibilidade de um novo quadro ético na política e na administração deste País. Mas não foi ainda desta vez.

Para mim, o grande mal que o PT e seus aliados fizeram ao Brasil nos últimos nove anos foi destruir aquele o sonho de milhões de jovens, de trabalhadores e de cidadãos honestos de todas as classes na possibilidade de uma radical transformação dos costumes políticos no Brasil.

Há pouco mais de 200 dias, eu ainda supunha que Dilma Rousseff fosse inaugurar um novo estilo de governo, bem diferente de seu antecessor. Mas a simples formação de sua equipe ministerial já me desalentou. O loteamento político, isto é, a partilha do poder entre os partidos que apoiam o governo da presidente, sepultou minhas últimas e tênues esperanças de transformação do Brasil num país politicamente sério, republicano e democrático.

Governar deveria ser algo muito mais sério do que promover esse aparelhamento de ministérios e empresas estatais entre as legendas políticas e figuras impolutas conhecidas de todos nós – como José Sarney, Renan Calheiros, Antonio Palocci, Fernando Collor, Jader Barbalho, Valdemar da Costa Neves, Alfredo Nascimento, Roberto Requião e tantos outros.

Há décadas, o Brasil já nos mostrou que o preço do loteamento político-administrativo do governo é a ineficiência e a corrupção. E a prova aí está: a presidente Dilma Rousseff está pagando o preço do loteamento do poder imposto pela base de apoio partidário de seu governo. O que a quadrilha do PR fez no Ministério dos Transportes, com a complacência do PT, já era previsível desde janeiro de 2011, quando aquela pasta foi entregue a esse partido.

Ainda bem que Dilma não vem a público dizer, como seu antecessor: “Eu não sabia de nada”. Ela promete faxina. Mas isso é pouco. É preciso prometer que não vai mais entregar nenhum ministério ou empresa pública a partidos, mas confiá-los a gestores competentes e honestos. Apenas isso, presidente Dilma.

Dirijo-me, agora, à presidente: “É claro que a senhora não tem coragem para tomar essa decisão – única aceitável e que o Brasil poderia aplaudir. Se escolhesse gente de bem e capaz, não haveria nenhuma rebelião no Congresso. Pense nisso, presidente.”

O primeiro presidente da República que trilhar esse caminho será aplaudido de norte a sul e não terá, ao contrário do que preveem os fisiologistas, nenhum problema de ingovernabilidade, pois a opinião pública estará ao seu lado. O PT e seus aliados começam a perder o apoio de milhões de pessoas sérias da classe média e dos próprios trabalhadores.

Além da exigência de honestidade, a escolha de ministros deveria prever um pouco de familiaridade dos escolhidos com as áreas que vão conduzir. Meritocracia e democracia são coisas que deveriam sempre andar de mãos dadas. Essa familiaridade do ministro com as áreas técnicas não é apenas algo desejável mas essencial para o sucesso do País.

O critério puramente político-partidário leva a coisas estranhas como estes dois exemplos de nomes escolhidos para o ministério de Dilma Rousseff, em janeiro de 2011: Edison Lobão, ministro das Minas e Energia, com certeza por seu extraordinário conhecimento técnico e econômico nesse setor; e Aluísio Mercadante, ministro de Ciência e Tecnologia, talvez por seu notório saber e conhecimento científico e tecnológico.

É claro que o loteamento do poder ainda vai prevalecer, infelizmente, por muito tempo. Por isso, tudo a que assistimos estupefatos em matéria de escândalos, em pouco mais de seis meses de governo da nova presidente, é apenas uma amostra do que ainda pode vir por aí.

Apenas para insistir na linha de ingenuidade e otimismo, eu arriscaria sugerir à presidente Dilma que, daqui para frente, escolha gente honesta e competente, independentemente de sua cor partidária.

O Brasil irá aplaudi-la e o seu governo será consagrado.

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