O segredo do Stradivarius

A tecnologia ainda não conseguiu explicar a sonoridade dos violinos Stradivarius. Um dia, talvez, consiga até fabricar violinos idênticos a essas obras de arte. Quem ama violinos sonha com eles e com uma visita a Cremona, cidade italiana que vive e respira violinos, porque foi o berços dos mais famosos artesãos (luthiers) desse instrumento. Para mim, foi uma festa.

Ethevaldo Siqueira

18 de maio de 2011 | 17h13

Se você já foi à Itália e nunca visitou Cremona, coloque em seus planos uma visita de dois dias a essa pequena e encantadora cidade da Lombardia, a cerca de uma hora de Milão, de carro ou de trem. Fundada no ano 218 antes de Cristo, está bem próxima da margem esquerda do Rio Pó.

Hoje com 72 mil habitantes, Cremona é famosa por seus monumentos, palácios medievais e renascentistas. A torre de sua catedral tem o campanário mais alto da Itália, a 110 metros de altura. Seu apelido jocoso: a Cidade dos Três T – ou seja, Torrazzo, Torrone e Tettone (grande torre, o torrone e as grandes tetas).

Até 2002, um de meus sonhos era conhecer Cremona. Realizei-o na primavera daquele ano e tive a felicidade de voltar mais três vezes a essa cidade, berço de Antonio Stradivari, bem como dos Amati, Guarneri e compositores como Amilcare Ponchielli e Claudio Monteverdi. Meu maior prazer em Cremona: ouvir seus melhores violinos, quando são exibidos e tocados em recital no Palazzo Communale ou prefeitura local. 

Não vou contar aqui a história de Cremona, mas apenas um pouco de minha experiência pessoal com os violinos famosos. Como você sabe, nenhum instrumento musical tem tanta mística e desperta tantas emoções quanto o violino. Mais ainda se for um Stradivarius.

O som inigualável

Como explicar a sonoridade incomparável desses violinos lendários? Para os especialistas, são muitas as respostas: a madeira e seu tratamento; o verniz e seus componentes; a forma e as dimensões perfeitas; o envelhecimento do instrumento e uma dúzia de outros fatores que estão presentes, aliás, em famosos violinos, que mais se aproximam do Stradivarius em som e beleza de formas – como os Guarneri del Gesú, Amati, Guadagnini, Gagliani e outros. 

Não há em português uma palavra especial para designar o artesão que fabrica violinos. Em italiano, esse profissional é chamado de liutaio. Em francês e em inglês, é luthier.

Em minha visita recente a Cremona, recomecei minha aventura pelo Palazzo Comunale, onde se apresentavam jovens violinistas vencedores de um concurso de vários países. Ouvi em primeiro lugar, o legendário violino Carlo IX, de Andrea Amati, de 1566. É algo emocionante. Imaginem um violino de 445 anos, cuja sonoridade já se tornou um pouco mais tênue e doce do que os mais novos, digamos com menos de 300 anos. Em seguida deliciei meus ouvidos com o Hammerle, de 1658, violino feito pelo liutaio Niccolò Amati, filho do mencionado Andrea Amati. O som desse violino é mais pujante, de timbre um pouco mais grave, mas de uma beleza única.

Para concluir, ouvi os violinos mais famosos da coleção de Cremona tocados por jovens intérpretes de talento. Um desses violinos era o Guarneri del Gesu, de 1734, com grande volume sonoro, como a maioria dos violinos feitos por Giuseppe Guarneri “detto del Gesu”, mas de um timbre magnífico. Paganini tocava e tinha paixão por um Guarneri del Gesu, chamado Il Cannone (o canhão), assim apelidado por seu extraordinário volume. Por fim, o violino Stradivari apelidado Il Cremonese, construído no período áureo de produção do genial Antonio Stradivari, em 1715.

O julgamento da qualidade sonora desses violinos é sempre algo muito subjetivo. Varia de pessoa a pessoa. Depende, de um lado, do número de anos que o ouvinte tenha frequentado as salas de concerto e, de outro, da qualidade dos intérpretes que tocam o instrumento.

O mais surpreendente é a incrível variedade de sons, que diferencia cada desses instrumentos. Não há dois violinos no mundo com sonoridade idêntica, dizem os especialistas.

O som gravado

Para conhecer ou relembrar o som dos violinos mais famosos o som gravado desses violinos, consegui adquirir dois CDs com gravações DDD em 44,1 kHz e 16 bits, feitas em novembro de 1993 com alguns desses violinos. O primeiro CD foi I violini di Cremona, com o virtuose italiano Salvatore Accardo, Vol. 1 (Homenagem a Kreisler), com Laura Manzini ao piano, selo Fonè nº 94F04. É uma gravação relativamente rara, mas o leitor mais apaixonado talvez possa encontrá-la em lojas como a Ricordi de Roma ou Virgin Megastore de Londres.

O segundo disco utilizado foi um Super Audio CD do próprio Salvatore Accardo, tocando três Sonatas de Brahms (op. 78, op. 100 e op. 108), para violino e piano (Bruno Canino) e um Scherzo em dó menor para “Sonata FAE”, abreviatura do alemão Frei Aber Einsam (livre mas solitário), disco gravado em 1999, selo Foné 008.

Outro CD extraordinário, mas não comercial, foi gravado em 1994 pelo violinista luso-americano Elmar Oliveira, tocando os violinos famosos pertencentes à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, e produzido por Peter Biddulph, para colecionadores. Descobri-o, por extrema sorte, num luthier francês, na Rue de Rome, Paris. 

Arte vs. tecnologia 

Em todo o mundo, os pesquisadores têm estudado as qualidades das melhores madeiras usadas na fabricação de violinos – além do pinho da Bósnia ou do abeto italiano, para o tampo superior, e do plátano para o tampo inferior. O uso de materiais sintéticos, mesmo com textura parecida com a da madeira e baixa densidade, tem trazido resultados medíocres, embora para alguns pesquisadores esse caminho não deva ser rejeitado.

É inegável, contudo, que a ciência já avançou significativamente na identificação dos fatores responsáveis pelo som incomparável dos Stradivarius. Entre centenas de projetos de pesquisa, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e seu MediaLab desenvolveram em janeiro de 2009 um super arco para violino eletrônico.

O que se aprende

O professor e físico norte-americano William Frederick Jack Fry, da Universidade de Madison, Wisconsin, fabrica violinos e pesquisa instrumentos antigos. Com sua experiência, ao longo dos últimos 30 anos, Fry aprendeu a modificar as proporções dos violinos e, assim, aproximar suas qualidades dos instrumentos mais famosos.

Outro progresso inegável são os violinos eletrônicos, interessantes, originais, de excelente desempenho acústico, mas que não podem ser comparados com os Stradivarius, em timbre, volume e beleza sonora. Tenho dois deles – um Yamaha e um Zeta – e gosto de tocar neles. Mas não são instrumentos comparáveis aos melhores violinos acústicos. O violino eletrônico é uma proposta hi-tec de bons resultados, que oferece efeitos sonoros interessantes, curiosos e cada dia mais usados em concertos populares.

 

Violino Stradivarius, no Palácio Real de Madri (Foto Divulgação)

Cinco Strads

Strad é o apelido carinhoso que os violinistas e estudiosos dão aos Stradivarius. Toby Faber, especialista inglês, autor de Stradivarius – Cinco Violinos, um Violoncelo e Três Séculos de Perfeição (tradução da Editora Record, 1ª Ed., 2006), analisa nesse livro seis instrumentos que, a seu ver, são os mais representativos da arte e do talento de Antonio Stradivari, o famoso luthier de Cremona, pequena cidade italiana próxima de Milão. Liutaio, em italiano, ou Luthier, em francês, são as palavras derivadas de luthe (alaúde) que indicam o artesão que faz violinos, violas, violoncelos e outros instrumentos de corda.

Faber relata mitos e verdades relacionadas com esses instrumentos quase lendários e mostra que toda tecnologia do mundo atual não tem sido capaz de reproduzir violinos com a qualidade dos fabricados há quase 4 séculos por na Itália. A acústica e a perfeição desses instrumentos são também, em grande parte, responsáveis pelo sucesso de virtuoses como Paganini, Fritz Kreisler, Jascha Heifetz, Yehudi Menuhin, David Oistrach ou Itzhak Perlman.

Antonio Stradivari (1644-1737) nasceu e morreu em Cremona. Depois de ter sido aluno de Nicola Amati de 1667 a 1679, montou seu próprio estúdio em 1680 e fabricou mais de mil violinos e outros instrumentos de arco (violas e violoncelos) ao longo de sua vida. Desse total, sobreviveram até nossos tempos cerca de 600.

Os mais famosos Strads recebem o nome de seu proprietário mais ilustre ou rico. Ou um apelido que o dono lhe deu. Assim, o Messias, violino feito em 1716, é, para Toby Faber, “o violino mais famoso do mundo”. Seu impaciente comprador procurou durante tanto tempo um Stradivarius verdadeiro, que era como o Messias, sempre esperado, mas que nunca aparecia. O Messias só foi tocado esporadicamente por alguns violinistas.

Outro Strad famoso é o Viotti, de 1709, um violino “perfeito sob todos os aspectos”, cujo nome homenageia Giovanni Battista Viotti, compositor e violinista italiano. Mais curioso ainda é o Khevenhuller, feito em 1733, assim chamado por ter sido comprado pelo príncipe alemão Johann Sigismund Friedrich von Khevenhuller-Metsch, para presentear sua segunda esposa. O valor desse violino, que já mudou de mãos diversas vezes, é estimado em US$ 6 milhões.

O Lipinski, de 1715, é um Strad que pertenceu a violinistas famosos, entre os quais, Giuseppe Tartini. O mais antigo, de 1680, é o Paganini, que pertenceu ao grande violinista italiano. Antonio Stradivari fabricava também violas e violoncelos.  Entre os celos Stradivarius, o mais famoso talvez seja o Davidov, feito em 1712. Pertenceu à violoncelista inglesa Jacqueline du Pré e hoje está emprestado a Yo-Yo Ma, para “o resto de sua vida”.

Nos últimos canos, um colecionador russo arrematou em leilão o violino Stradivarius Barrow, de 1715, por US$ 9,5 milhões, enquanto a Japan Music Foundation adquiria o violoncelo Strad Duport, de 1711, de Mstislav Rostropovich, por US$ 20 milhões.

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