Previsões furadas, geniais

Todos nós somos tentados a fazer previsões sobre o futuro da tecnologia ou das instituições humanas. O mais engraçado, entretanto, são as previsões que nunca deram certo, feitas por gente famosa

Ethevaldo Siqueira

22 de janeiro de 2011 | 12h46

Testemunhei, em Chicago, no dia 13 de outubro de 1983, a inauguração do primeiro serviço comercial de telefonia celular das Américas, lançado pela antiga AT&T. Fiz ligações num tijolão analógico instalado no automóvel, que pesava 7,5 quilos, custava algo próximo de 5 mil dólares e tinha uma bateria que só garantia 30 minutos de conversação fora do carro.

Como jornalista, estava interessado em ouvir alguém que falasse sobre o futuro do telefone celular. Descobri, casualmente, um estudo encomendado pela AT&T a duas famosas consultorias contratadas para analisar as perspectivas do telefone celular, como negócio e produto de massa. 

Fiquei um pouco desapontado ao ler as conclusões do “estudo prospectivo” que antevia um futuro pouco animador para o celular: “Esse serviço será, na melhor das hipóteses, um negócio medíocre, pois, em 20 anos, sua penetração máxima nos Estados Unidos não chegará a 15% dos usuários”. 

Por que erraram tanto aquelas consultorias? Concluo hoje que o equívoco fundamental do estudo foi não prever as transformações revolucionárias por que passariam o celular digital e sua tecnologia, nem, em especial, sua miniaturização. O estudo projetou o futuro daquele aparelho transportável de 1983, admitindo que ele permanecesse exatamente como era, com mais de 7 quilos, preço de 5 mil dólares e, em especial, num país que já dispunha de mais de mais de 60 linhas telefônicas fixas por 100 habitantes.

Para contrariar totalmente aquele estudo, basta lembrar que o Brasil tem hoje mais de 200 milhões de celulares e o mundo algo como 5,4 bilhões.

Um dos criadores da fibra óptica, Charles Kuen Kao, Prêmio Nobel de Física de 2009, afirmou em 1979: “Por volta do ano 2000 poderemos transmitir mais de 30 mil ligações telefônicas simultâneas numa única fibra óptica.” Na verdade, no ano 2000 já podíamos transmitir até 800 milhões ligações.

A IBM chegou a afirmar que não se interessaria por computadores. “O computador não tem qualquer possibilidade de se tornar um produto industrial de interesse para a IBM.” (Thomas Watson, presidente da IBM, 1939).

O equívoco desses ilustres visionários foi levar em conta, exclusivamente o estágio em que se encontravam as tecnologias ou produtos sobre os quais antecipavam o futuro. Talvez esse seja o grande equívoco de quem pensa o futuro: considerar exclusivamente o momento presente e não o seu potencial de evolução.

Não ria, leitor. Há coisas bem mais engraçadas, entre as previsões estapafúrdias feitas por gente famosa sobre o futuro de inovações. Em 1878, menos de dois anos depois da invenção do telefone por Graham Bell, William Preece, engenheiro-chefe do Correio Britânico (British Post Office), declarava ao jornal The Times: “Os americanos precisam do telefone. Nós, londrinos, não precisamos, pois temos aqui uma multidão de mensageiros e office-boys”. 

Lord Kelvin, matemático e físico, presidente da British Royal Society, sentenciou em 1895: “O vôo de máquinas mais pesadas do que o ar é impossível”.

Em 1977, Ken Olson, presidente e fundador da Digital Equipment Co. (DEC), fabricante de mainframes, nos legou outra pérola: “Não há qualquer razão para alguém querer ter um computador em casa”. Dias depois, Steve Jobs lançava o Apple II, que vendeu mais de 20 milhões de unidades em todo o mundo.

Bill Gates nos deu preciosas contribuições. Em 1981, ele disse: “Ninguém precisa de um PC com memória RAM superior a 640 quilobits”. Em 1984, outra declaração curiosa: “Nunca fabricaremos um sistema operacional de 32 bits”. Em entrevista coletiva, em 2001, previu que o Tablet PC seria “o formato mais popular de PC a ser vendido nos Estados Unidos, nos próximos anos”. O produto decepcionou. Gostaria de saber o que ele pensa hoje sobre o iPad.

A própria Apple amargou o fracasso em 1990, com seu primeiro computador portátil, o Mac Luggable, de 8 quilos. E não obteve sucesso com o tablet Newton, muito caro, lançado em 1993.

Melhor do que qualquer comentário é a observação de alguém acostumado a prever o futuro: “É muito arriscado fazer previsões. Especialmente sobre o futuro.” (Arthur C. Clarke, 1975). Aliás, essa frase já havia sido usada por outros cientistas.

O maior risco é que novas tecnologias cujas aplicações se tornem altamente desejadas pela sociedade venham a sepultar ou matar velhas tecnologias ou produtos — fenômeno que, no jargão internacional, se chama killer technologies. O fax matou o telex. O e-mail e a internet já sepultaram o fax. O MP3 está matando o CD. O vídeo na internet vai matar o DVD. Os processadores de texto foram a killer application dos PCs – que sepultaram as máquinas de escrever.

Mas, há surpresas para quem generaliza com facilidade. Mesmo diante de mudanças revolucionárias, é bom não subestimar o potencial de algumas velhas (e magníficas) tecnologias, como muita gente fez com as memórias magnéticas — que se supunha estarem condenadas ao desaparecimento com o advento dos CD-ROMs ou dos CDs graváveis (CD-Rs) e regraváveis (CD-RWs). Ledo engano. As memórias magnéticas continuaram a evoluir de tal modo que hoje podem armazenar centenas de vezes mais bits por unidade de área do que qualquer memória óptica.

Logo após o lançamento do iPad, em 2010, jornalistas oniscientes previram um futuro medíocre para o iPad, ridicularizaram o produto e apelidaram-no de iPodão ou iPhonão. Na avaliação dos mais pessimistas, o iPad era uma decepção completa e o produto, provavelmente, não faria nenhum sucesso. Imaginem a cara desses meus colegas hoje, depois da venda de mais de 20 milhões de iPads em todo o mundo. Um terceiro grupo notou até uma ponta de desencanto na plateia, em São Francisco, a cada característica anunciada por Steve Jobs, o presidente e fundador da Apple.

Não é pecado errar nas previsões, em matéria de tecnologia. Pessoalmente, me incluo no extremo oposto, da minoria que apostou no iPad desde o seu lançamento, e percebeu que ele seria um sucesso comparável ao do iPod ou do iPhone. Hoje estou ainda mais convicto: o iPad poderá até salvar a imprensa tradicional, a dos jornais, livros e revistas. É claro que minha intuição já teve muitos furos. Mas, procuro ouvir um número muito maior de especialistas de alta credibilidade, antes de consolidar minhas previsões.

Em janeiro de 2010 eu escrevi que achava o iPad sensacional e que compraria um no dia seguinte. Mas achei que o sucesso viria mais lentamente do que veio, por ser uma quebra de paradigma e exigir que as pessoas descubram suas vantagens e qualidades, que aprendam a gostar dele, mas lentamente.

Com a adesão das editoras, poderá acessar jornais e revistas e armazenar dezenas de livros. Poderá, assim, atrair adultos que têm o hábito de ler em viagem, em férias, em qualquer lugar. Com ele, estudantes poderão levar para o colégio ou universidade dezenas de livros de textos e dicionários, sem deslocar a coluna com o que levam hoje em sua mochila.

Previsões confiáveis

Como fazer previsões mais precisas? Antecipações baseadas em tendências tecnológicas já amadurecidas e para períodos máximos de dez anos podem ser bem mais confiáveis.

Há exatamente 11 anos, pedi a Ben Verwaayen, hoje presidente da Alcatel-Lucent Technologies, dizia no ano 2000 (quando era diretor da antiga Lucent) que a humanidade da segunda década deste novo século caminharia para tornar-se “uma sociedade global conectada por redes de comunicação livres de gargalos e abundância em largura de banda de frequência, permitindo serviços como o atendimento 24 horas para pedidos de transmissão de filmes e TV interativa e várias pequenas estações-base sem fio conectadas com redes de fibras ópticas que irão possibilitar o acesso de empresas e consumidores a redes permanentemente ligadas.” 

Vejam quanto acerto há nas previsões daquele executivo. Estamos caminhando para lá. Nas telecomunicações, Ben Verwaayen previu ainda que, progressivamente, teremos crescente oferta de banda larga, seja para dados de alta velocidade, internet, televisão digital ou videoconferência. E que as redes iriam operar o tempo todo. E, por ser muito mais barata, a distribuição da informação passaria a ser feita eletronicamente, e não fisicamente.

Ainda na entrevista do ano 2000, perguntei a Ben Verwaayen, como seria a internet de 2010? Ele me respondeu: “Nessa época, a web terá alto nível de inteligência, ou seja, terá alto QI. Será uma Hi-IQ Net, uma super internet que permitirá, por exemplo, que agentes de software encontrem rapidamente qualquer informação desejada pelos usuários, em qualquer lugar do mundo, porque os dados procurados com frequência serão armazenados em compartimentos de memória facilmente acessáveis”.

É impressionante a capacidade de antevisão de Verwaayen – ele apenas não conseguiu acertar o momento exato dessa transformação, mas que está em curso, sem dúvida.

Estamos a caminho, sim, de uma super internet. Eu não duvido.

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