Que será da Apple sem Steve?

Nunca a vida de uma empresa esteve tão ligada à imagem e ao talento de seu fundador como a Apple. Diante dos problemas de saúde de Steve Jobs, a grande pergunta, portanto, diz respeito ao futuro da empresa sem ele.

Ethevaldo Siqueira

18 de janeiro de 2011 | 09h21

Steve Jobs é para a indústria de eletrônica e de informática o que os profetas são para as religiões. Ele e a Apple, nesse sentido, não têm usuários simplesmente, mas fieis usuários, devotos, crentes ou até fanáticos seguidores. Quando ele aparece num palco para anunciar algo como o iPod, o iPhone, o notebook Air ou o iPad – a plateia delira, grita, pula, aplaude e se comporta como os fãs mais apaixonados diante de seus ídolos. Mais do que qualquer outra empresa no mundo, a imagem da Apple está profundamente vinculada à figura desse gênio da informática.

Acompanho à distância a trajetória incrível de Steve Jobs desde janeiro de 1983, quando ele era o jovem exuberante de 28 anos e a Apple lançava uma máquina precursora do Macintosh, o Lisa, primeiro computador pessoal a utilizar o mouse e a adotar a interface gráfica (os ícones, como comandos). Embora tenha sido um fracasso comercial, o Lisa permitiu à Apple corrigir aspectos fundamentais do produto e lançar o revolucionário Macintosh.

A vida de Steve Jobs, como se sabe, tem sido abalada nos últimos anos por problemas de saúde. Depois de um câncer no pâncreas, identificado em 2004, ele passou em 2009 por uma cirurgia de transplante de fígado. Pacientes com fígado transplantado precisam tomar medicamentos imunossupressores, para que seu organismo possa aceitar os novos órgãos. Essas drogas enfraquecem, portanto, seus sistemas imunológicos, o que os torna mais vulneráveis a infecções ou à recorrência do câncer.

Um dos maiores especialistas norte-americanos em cirurgia de transplante de fígado, dr. Amit Tevar, da Universidade de Cincinatti, explica que a cirurgia “leva os pacientes a uma situação de equilíbrio instável e muito delicado, pois, se damos muito imunossupressor, pode haver recorrência do câncer; se damos muito pouco, eles podem sofrer de rejeição do novo fígado.”

Espero e desejo que Steve ainda viva muitos anos, mas reconheço que sua saúde está fragilizada há quase 10 anos. Diante desses problemas, a pergunta que muitos fazem é uma só: “que será da Apple, quando não puder contar mais com esse líder?”

Para essa pergunta há, em minha opinião, duas respostas. Externamente, no mercado de capitais, o impacto será muito grande, afetando a cotação de suas ações – cujo valor total chega hoje a US$ 140 bilhões. Internamente, as consequências serão menores, porque a Apple se transformou numa escola de criatividade, graças ao trabalho, ao convívio e aos ensinamentos de tantos anos de Steve Jobs.

A Apple poderá contar com as centenas de talentosos projetistas, designers, desenvolvedores e pesquisadores formados por Steve Jobs. Não estou convencido de que tudo isso seja suficiente para assegurar um futuro brilhante à empresa, na hipótese da ausência definitiva de Steve, tão grande é hoje o grau de dependência de seu fundador e líder máximo.

Se você quer saber mais sobre a Apple, leia o fascinante depoimento de Steve Wozniak, em seu livro iWoz – A verdadeira história da Apple segundo seu cofundador – da Editora Évora, que acaba de ser lançado em português. A propósito, Steve Wozniak estará em São Paulo neste sábado, para uma palestra no Campus Party, no Centro de Eventos Imigrantes. Só para relembrar: Wozniak, além de ter fundado a Apple juntamente com Steve Jobs, foi o criador do primeiro computador pessoal digno desse nome, o Apple II, em 1977.

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