Você conhece Manjiro?

Manjiro talvez tenha sido o primeiro japonês a visitar e a viver nos Estados Unidos. Vale a pena conhecer sua história.

Ethevaldo Siqueira

23 de setembro de 2010 | 22h47

Descobri esta história na Universidade de Quioto, em 1976, ano do segundo centenário da independência dos Estados Unidos. Os jornalistas japoneses e norte-americanos pesquisavam os primeiros fatos sobre as relações entre seus países. De repente, alguém gritou: a melhor história é a de Manjiro!

E era mesmo. Quem é Manjiro? Aliás, é Nakahama Manjiro (pronuncia-se Mândjiro). É um jovem pescador japonês, de 14 anos. Sua história começa em 1841. Naquele ano, seu pequeno barco naufragou quando ele pescava em alto mar, a cerca de 100 quilômetros de Yokohama. Ele nada desesperadamente, na tentativa de salvar-se. Quando está prestes a perder suas forças, avista um navio baleeiro norte-americano, que o recolhe e, em lugar de levá-lo de volta ao Japão, leva-o para os Estados Unidos.

Historicamente, tudo indica que Manjiro é o primeiro japonês a por os pés nos Estados Unidos. Seu país vive o regime do xogunato Tokugawa, no final do período de 200 anos em que o Japão esteve fechado para o mundo. O navio leva o jovem para São Francisco. Com apoio do comandante William Whitfield, do barco baleeiro que o recolheu, aprende inglês em tempo recorde, adota o nome de John Manjiro, cruza os Estados Unidos e vai viver nas proximidades de Boston, em New Bedford.  

Muito inteligente, Manjiro chega à universidade, estuda matemática, geografia e história, ganha cidadania americana, dá uma volta ao mundo em navio pesqueiro e, aos 24 anos, resolve voltar ao Japão, para tentar abrir o país ao comércio e ao contato com o mundo.

A viagem de volta é quase clandestina e, ainda por cima, lhe rende um processo por violar as leis de isolamento japonês. Volta à casa paterna em Nakanohama, depois de quase 12 anos de ausência. Imaginem a festa dos pais, que supunham estar ele morto. Passa dois anos sem poder viajar. Enquanto isso faz palestras e dá aulas em universidades, mostrando às platéias o que eram os Estados Unidos, sua democracia, sua cultura, ciência e sua tecnologia. Em breve, acaba se aproximando do xogum.

Três objetos

Em suas palestras, Manjiro exibia e demonstrava a utilidade dos três únicos objetos que conseguira trazer dos Estados Unidos: um dicionário de inglês Webster, um microscópio e uma máquina de costura. Até então, 1852, os japoneses não conheciam nenhum desses três produtos.

No ano seguinte, John Manjiro se transforma no grande intérprete das negociações sobre o tratado que conduz à abertura dos portos japoneses ao comércio americano, quando o almirante Matthew Perry estaciona os navios negros da esquadra americana no porto de Uraga, próximo de Edo (nome anterior de Tóquio), e aponta dezenas de canhões para o palácio do xogum Tokugawa – exigindo que o soberano recebesse uma carta do presidente Millard Fillmore, dos Estados Unidos.

Com inteligência e habilidade, Manjiro faz a ponte entre Perry e o governo japonês, auxiliando-os até na preparação do texto do Tratado de Amizade de 1854, que conduz o país às profundas reformas da Restauração Meiji, em 1868.

Sob diversos aspectos, Manjiro significa para o Japão e os Estados Unidos do século 19 algo parecido com o que Marco Polo significou para a Europa dos séculos 13 e 14. Com uma diferença: o japonês não mentia tanto quanto o viajante italiano.

Globalização

Relendo a biografia de Manjiro, lembrei-me de minha professora de Antropologia Cultural, Gioconda Mussolini, nos anos 1960, em meu curso de Ciências Sociais, da Universidade de São Paulo, que sempre nos sugeria: “Reflitam sobre a importância dos processos de comunicação, contato e difusão entre povos e culturas, ao longo da história. De onde vieram os alimentos, os produtos, as palavras, as máquinas e tecnologias que utilizamos?”

Todos sabem que o café é originário da Abissínia. A batata, dos Andes peruanos. O milho, do México. O fumo, da Amazônia. A pólvora, inventada na China, mas lá só utilizada inicialmente em fogos de artifício.

De onde vieram as palavras que usamos? Para mim, a grande surpresa, em 1976, na Universidade de Quioto, foi descobrir a extensão da influência da língua portuguesa no Extremo Oriente. Você sabia que existem na língua japonesa, arcaica e moderna, cerca de 800 palavras derivadas do português? Eis alguns exemplos: arigatô (imitando o som de obrigado); tempura (de tempero); banco (assento); vidorô, hoje grasso, (de vidro e glass); botáo (de botão); pôrvora (pólvora); boratcha (borracha), espingarda (a própria).

Modernamente, como se poderia esperar, o número de palavras estrangeiras (especialmente, as de origem inglesa) na língua japonesa é imenso: chocoreto (chocolate), biro (cerveja, beer), aici-crimo (sorvete, ice cream), tranzistorô (transistor), passocom (personal computer), hoto dogo (cachorro quente) e centenas mais.

Imagine, leitor, que, no período de ocupação do Japão pelas forças norte-americanas, de 1945 a 1952, sob o comando do general Mac Arthur, a imprensa estava sob censura e, assim, os japoneses não puderam tomar conhecimento imediato da invenção do transístor em julho de 1948. Os jornais foram proibidos de publicar a notícia durante seis meses, já que os Estados Unidos achavam a informação estratégica. Trinta anos depois, o Japão se tornava líder na produção de chips e memórias. Boa vingança, não?

No passado, o processo de comunicação global era muito mais lento. A carta de Pero Vaz de Caminha só chegou às mãos de D. Manuel mais de 60 dias depois da descoberta do Brasil. A notícia da morte de Lincoln em 1865, viajando de navio, levou 12 dias para chegar aos jornais ingleses. Hoje tudo é instantâneo. Hoje, a internet aproxima quase dois bilhões de seres humanos, de todos os continentes, em tempo real.

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