2015 bem pior pega Levy e Tombini no contrapé

2015 bem pior pega Levy e Tombini no contrapé

Fábio Alves

12 de junho de 2015 | 12h53

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Joaquim Levy (Foto: Reuters/Stringer)

Duas instituições financeiras de peso, como o Credit Suisse e o Bank of America Merrill Lynch, revisaram suas projeções para a inflação de 2015 de 8,5% para 9%, após a surpresa com o IPCA de maio mais salgado do que se esperava.

Esse pode ser o início da consolidação de um cenário de pior dos mundos para o Banco Central e o Ministério da Fazenda: uma inflação bem mais elevada do que se projetava, o que obriga a equipe econômica a recuperar credibilidade via alta da taxa de juros e aperto fiscal num ambiente que se revela mais recessivo do que se previa.

E qual o problema desse horizonte mais sombrio que se assoma para a inflação e a atividade econômica em 2015?

Do lado da inflação, a mediana das estimativas do IPCA para 2015 deve migrar dos atuais 8,46% para, ao menos, 9%. A cada semana, o reajuste de preços administrados tem sido surpreendente maior do que se esperava no início do ano.

E se a expectativa é de uma inflação mais alta ainda em 2015, ao redor de 9%, o que esperar dos sindicatos de trabalhadores de cada categoria nas negociações salariais deste ano?

Obviamente, o patamar do reajuste salarial de vários sindicatos deve partir de 9%.

E o que vai acontecer com o reajuste do salário mínimo, um preço com reflexos importantes na economia, em 2016?

Se essas projeções do Credit Suisse e do BofA Merrill Lynch se provarem corretas, então o salário mínimo terá reajuste acima de 9%, afetando a inflação do ano que vem e também as expectativas inflacionárias.

Por outro lado, com a deterioração dos indicadores mais recentes de atividade econômica, a mediana das estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 deve ser revisada da atual contração de 1,3% para uma queda ao redor de 2%.

O problema de um baque maior na atividade econômica é que essa contração mais forte torna o ambiente político mais adverso não somente para a presidente Dilma Rousseff, como também para a implementação de um ajuste fiscal e outras medidas de correção do rumo da economia pelo ministro Joaquim Levy.

Uma alta da taxa de desemprego, queda na renda dos trabalhadores e retração no consumo por um crédito mais caro e escasso devem exercer pressão sobre a presidente para apoiar o ajuste fiscal necessário.

E se Dilma fraquejar no seu apoio às medidas adotadas por Levy, adeus o grau de investimento da classificação soberana de risco brasileira.

Ou seja, Levy e Alexandre Tombini, presidente do BC, têm uma tarefa muito mais ingrata do que previam para apertar os cintos do gasto público e também elevar os juros para ancorar as expectativas inflacionárias. Isso porque o cenário que começa a se consolidar para 2015 é bem pior do que se imaginava, tanto em termos de inflação corrente quanto da contração da atividade econômica.

O problema é que, devido a credibilidade abalada durante o primeiro mandato do governo Dilma, a equipe econômica não tem mais crédito junto ao mercado financeiro e ao público em geral.

Assim, fica a pergunta: dá para fazer um ajuste fiscal e monetário mais gradual, para que no final das contas o custo desse ajuste não nos deixe todos mortos no médio prazo?

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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