A bola agora com o STF

Dependendo do que o STF decidir nas próximas horas ou dias, o processo de desidratação do governo Dilma pode ser mais agudo

Fábio Alves

17 de março de 2016 | 10h03

A velocidade para o desfecho da grave crise política que engalfinha o governo Dilma Rousseff está nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que legislativo e executivo perderam as rédeas sobre o País.

Os investidores devem, portanto, monitorar qualquer movimento, declaração ou decisão dos ministros do STF sobre assuntos que podem, de uma hora para outra, influenciar o humor dos mercados numa direção ou outra.

Poderão os juízes do STF invalidar a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro da Casa Civil após vir à tona o teor das suas conversas com a presidente Dilma e outros aliados do cacique petista?

Ou pode o STF considerar ilegal o grampo feito pela Polícia Federal e autorizado pelo juiz Sergio Moro, por incluir pessoas com foro privilegiado, em particular a presidente Dilma?

Terá o STF uma reação mais forte ao ataque feito por Lula nas conversas grampeadas, dizendo que a Corte está acovardada e colocando no holofote das desconfianças a ministra Rosa Weber?

Poderá ainda a Suprema Corte permitir a posse de Lula como ministro, mas negar-lhe o foro privilegiando, deixando o petista na alçada de Sergio Moro em Curitiba e evitando a situação de fuga de foro?

Por enquanto, ninguém no mercado pode prever como vai reagir o STF à divulgação das gravações entre Lula, Dilma e aliados.

Para interlocutores desta coluna, a erosão do governo Dilma ganhou velocidade impressionante.

Na noite de ontem, poucas horas depois de os áudios das conversas tomarem conta do noticiário e de panelaços e manifestações se espalharem pelo País, a MCM Consultores, por exemplo, divulgou nota à clientes com o seguinte título: “Moro abate o terceiro governo Lula”.

“O país se afastou ainda mais da normalidade. O alçapão do fundo do poço da crise política se abriu. Ainda estamos na descendente. Ficou mais difícil vislumbrar onde vamos parar. A situação é grave. A instabilidade se acentuará. Provavelmente, com a política de pernas para o ar, caberá ao Supremo a tarefa de começar a juntar os cacos da política”, escreveram os analistas da MCM Consultores.

Até agora, alguns ministros do STF já se manifestaram sobre o grampo das conversas telefônicas, embora essa primeira posição não possa ser tomada como antecipação de um julgamento ou decisão majoritária da Corte sobre o caso.

O ministro Gilmar Mendes, por exemplo, disse que a divulgação de áudios ocorreu de “forma correta, mas pode ser questionada”. Ele frisou que o que se tem de discutir é o conteúdo, que é “extremamente grave”. É preciso lembrar que Gilmar Mendes é visto pelo mercado financeiro como um contumaz crítico do ex-presidente Lula e do governo Dilma, portanto suas declarações não chegam a surpreender.

Rosa Weber, que foi citada por Lula nas gravações, ainda não se pronunciou.

De qualquer forma, um rali nos preços das ações e nova queda na cotação do dólar frente ao real poderá ter vida curta ou, pelo contrário, ganhar muito mais fôlego conforme o posicionamento do STF.

Independentemente da decisão da Corte sobre as dúvidas acima, Lula perdeu e muito seu capital político para conseguir articular apoio ao governo Dilma após a divulgação dos áudios das conversas grampeadas.

O PRB, por exemplo, foi rápido ao desembarcar do governo e colocar à disposição da presidente Dilma o cargo ocupado pelo partido no Ministério dos Esportes.

Diante da pressão nas ruas, não seria surpresa ver outros partidos da base aliada abandonando Dilma e Lula.

O PMDB é o mais crítico nesta equação.

E dependendo do que o STF decidir nas próximas horas ou dias, o processo de desidratação do governo Dilma pode ser mais agudo.

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