A briga pelo apoio dos empresários ao impeachment

Agravamento da crise e a deflagração da Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato, dão novo impulso pró-impeachment

Fábio Alves

25 Fevereiro 2016 | 11h56

Em 2015, no auge da pressão sobre Dilma Rousseff no processo de impeachment liderado por grupos do PMDB e pela oposição, o empresariado como um todo não endossou esse movimento. Os banqueiros, em particular, ainda deram um voto de confiança à presidente e ao comando do Ministério da Fazenda.

Com o agravamento da crise econômica e um novo impulso pró-impeachment desde a deflagração da Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato, medir o apoio dos empresários à movimentação de grupos políticos interessados em interromper o mandato de Dilma passará a assumir um papel cada vez mais relevante.

Conversas de bastidores entre líderes políticos e grupos empresários já voltaram à cena.

Resta saber se a recessão está forte o suficiente para pender o apoio dos empresários ao movimento de impeachment da presidente e se a configuração de um governo que possa eventualmente substituir Dilma é atrativa o suficiente caso o processo de impedimento dela seja bem sucedido.

Por enquanto, a avaliação dos empresários da gestão econômica é bastante baixa.

Exemplo: segundo a Fundação Getúlio Vargas, o Índice de Confiança da Indústria (ICI) apurado na prévia da sondagem de fevereiro caiu 1,0 ponto na comparação com o resultado final de janeiro, para 75,2 pontos, menor nível desde novembro de 2015 (75,1 pontos).

Enquanto isso, os indicadores macroeconômicos seguem piorando.

A taxa de desemprego apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis principais regiões metropolitanas do País ficou em 7,60% em janeiro de 2016, maior para o mês desde 2009.

E a alta de 1,42% registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) em fevereiro foi o maior resultado para o mês desde 2003.

“O apoio do empresariado não vai definir o resultado do processo de impeachment, o qual dependerá da percepção dos ganhos que os principais atores políticos terão em eventual interrupção do mandato presidencial”, disse a esta coluna Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências. “A classe empresarial será muito importante para o cálculo, sobretudo do vice-presidente Michel Temer, do Plano B após o impeachment, isto é, numa eventual transição para um futuro governo, que seria uma transição naturalmente difícil.”

Para Cortez, por enquanto é difícil ter uma percepção clara de qual será a postura do empresariado ao movimento do impeachment neste ano.

“O impeachment é um processo político e ter o empresariado apenas crítico à gestão econômica de Dilma não necessariamente se traduz em mobilização favorável ao impeachment”, comentou o analista.

Na opinião do analista político da MCM Consultores, Ricardo Ribeiro, o apoio do empresariado não é absolutamente imprescindível para o processo de impeachment ser bem sucedido.

“O impeachment depende mais do destravamento de condições políticas”, disse Ribeiro a esta coluna.

Ele acredita que o empresariado vai ficar dividido quanto ao apoio para o movimento do impeachment.

“Um apoio realmente majoritário do empresário dependeria da ideia de que houvesse um cenário mais sólido do que vai acontecer com a política no pós-impeachment, o que ainda não existe”, explicou o analista da MCM Consultores. “O empresariado não vai dar um apoio efetivo a esse processo se não tiver segurança de que a política vai estar realmente pacificada no pós-impeachment.”

Assim, esse apoio vai depender muito do que os empresários vão ouvir de grupos do PMDB interessados em interromper o mandato da presidente Dilma e também dos líderes da oposição nas conversas de bastidores que estão ocorrendo neste momento.

Todavia, o primeiro empresário ou banqueiro de peso que der uma declaração pública em apoio – mesmo que não tão explícito – ao impeachment poderá deflagrar um efeito dominó. Nesse sentido, o Palácio do Planalto provavelmente estará atento a essas conversas a fim de neutralizar a ação de seus inimigos políticos.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast