A carta do BC para justificar o estouro da meta de inflação

Presidente do BC terá de escrever para o ministro da Fazenda uma carta explicando porque a inflação estourou o teto da meta

Fábio Alves

08 de janeiro de 2016 | 13h19

Para o mercado financeiro, a “Carta” que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, escreverá para o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, explicando o porquê de a inflação ter estourado o teto da meta (6,5%) em 2015 poderá ter um impacto quase tão significativo para os juros quanto à missiva que o vice-presidente Michel Temer enviou para a chefe Dilma Rousseff.

A inflação medida pelo IPCA fechou 2015 com alta de 10,67%, a maior taxa anual desde 2002 (12,53%), ficando um pouco abaixo da mediana das estimativas dos analistas, de alta de 10,78%. Em 2014, o IPCA havia subido 6,41%. Em dezembro, a inflação oficial ficou em 0,96%, ante 1,01% em novembro.

A “Carta” de Tombini será o último instrumento de comunicação oficial do BC antes da reunião do Copom deste mês, marcada para o dia 20.

Poderá sancionar a pressão para o BC não retomar a alta dos juros básicos, que recrudesceu nos últimos dias, ou consolidar o discurso inclinado ao aperto monetário que a autoridade monetária adotou desde a última ata do Copom e também do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

“É uma oportunidade de ratificar ou não o que vinha sendo dito até o RTI”, comentou a esta coluna um renomado economista brasileiro. “Caso a opção seja por sancionar o ruído trazido por fontes não oficiais nos últimos dias, é preciso ter claro o custo em termos de credibilidade da informação passada pelos documentos da instituição, que claramente passariam a ter relevância secundária.”

De fato, a ênfase do BC tem sido a de fazer o que for necessário para trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5%, em 2017. A autoridade monetária também já deu a entender de que o “threshold”, ou limite, para o IPCA neste ano é o teto da meta, de 6,5%.

Mas as surpresas recentes em termos de reajustes de preços administrados e de um aumento grande do salário mínimo – pois o governo estipulou a inflação de dezembro para fechar o novo valor com uma projeção perto do teto das estimativas dos analistas – devem tornar muito difícil essa tarefa sem a retomada do aperto monetário, apesar da profunda recessão registrada pela economia brasileira.

Na última pesquisa Focus, do BC, a mediana das estimativas para a inflação deste ano ficou em 6,87%, enquanto o Top 5 (o grupo de analistas que mais acertam a projeção para esse indicador) de médio prazo indica um IPCA de 7,44% em 2016.

E o que Tombini poderia dizer na “Carta” para guiar as expectativas do mercado?

“A carta não deveria ser surpresa e deveria repetir o conteúdo do que foi dito no RTI: diagnóstico de que o estouro se deveu a duas mudanças de preços relativos (câmbio e administrados), e que o BC combaterá os efeitos secundários desses choques utilizando os instrumentos à sua disposição (independente das políticas de contorno e de quem seja o Ministro da Fazenda) para assegurar que a inflação volte para dentro do intervalo determinado para o regime de metas em 2016 e para o centro da meta em 2017”, explicou o renomado economista.

Apesar de o BC ter sido mais direto na calibragem recente das expectativas, com um discurso mais duro em relação ao controle da inflação, os ruídos recentes – a que esta coluna tachou de “campanha contra a alta dos juros” – aumentando a pressão para manter a Selic inalterada na próxima reunião do Copom fizeram as taxas dos contratos futuros de juros recuarem esta semana.

Mesmo se a “Carta” de Tombini não trouxer nada de novo, ainda assim os preços dos ativos podem reagir:

Basta a mera reafirmação ou repetição na “Carta” do que foi dito até o RTI em dezembro para Tombini soar “hawkish” (inclinado ao aperto monetário), com potencial de afetar a ponta curta da curva para cima.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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