A complacência cega com Temer e Meirelles

É revelador o quão demasiadamente complacente investidores e analistas estão se tornando com o governo do presidente interino e seu ministro da Fazenda pela simples ojeriza ao governo Dilma Rousseff e o que ele representou para a economia brasileira

Fábio Alves

10 Junho 2016 | 13h01

Imaginem a seguinte situação: Alexandre Tombini, ainda presidente do Banco Central no ainda governo Dilma Rousseff, decide anunciar – mais uma vez – o adiamento da convergência da meta de inflação para 2018.

A fila de críticos dobraria quarteirões, acusando Tombini de vários pecados. Tombini seria acusado mais uma vez de ser suscetível à interferência política e tolerante com inflação mais elevada, o que sancionaria o descontrole das expectativas inflacionárias.

Mais ainda: seria mais uma prova do desmonte do “bom e velho” tripé econômico e o aprofundamento da Nova Matriz Econômica.

Pois bem, eis que Armínio Fraga, ex-presidente do BC, recomenda exatamente isso em entrevista ao jornal Valor Econômico: adiar a convergência da meta de inflação, pois “não é razoável” manter a meta de 4,5% para 2017. “Escolhe um prazo e anuncia”, disse ele.

Mas não foi sempre o que Tombini fez em relação à entrega da inflação na meta, sendo tantas vezes crucificado por isso?

A sugestão de Fraga chega a ser chocante, no mínimo.

Mas é revelador o quão demasiadamente complacente investidores e analistas estão se tornando com o governo Michel Temer e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, pela simples aparente ojeriza que o mercado tomou do governo Dilma Rousseff e o que ele representou para a economia brasileira.

Essa, contudo, é uma postura irracional.

O mercado simplesmente engoliu o rombo de R$ 170,5 bilhões na meta fiscal deste ano, anunciado por Meirelles, abrindo espaço para acomodar todo o tipo de demanda de grupos de interesses, como se viu no reajuste dos funcionários públicos.

A sensação é de que essa meta nababesca, cujo anúncio foi para denunciar a “herança maldita” de Dilma, parece ter servido como ótimo pretexto para o governo Temer conseguir negociar e arranjar moeda de troca para aprovação de medidas fiscais urgentes, como a desvinculação de receitas da União (DRU), e a aprovação da indicação de Ilan Goldfajn para a Presidência do BC. Além, é claro, da aprovação da emenda constitucional (PEC) que limita o crescimento do gasto público.

Enquanto o governo Temer conseguir avançar com uma agenda de reformas, sendo a da Previdência a principal delas, a postura do mercado será a de perdoar os erros do presidente em exercício e de seu ministro da Fazenda.

E não é só isso, como a recomendação de Fraga parece soar: dar um cheque em branco a Meirelles e a Goldfajn para tomar decisões na condução da política fiscal e monetária que foram negadas a Tombini e ao resto da equipe econômica de Dilma.

Qual teria sido a reação de ilustres do mercado financeiro brasileiro, como Armínio Fraga, caso tivesse sido Nelson Barbosa, o antecessor de Meirelles, a anunciar uma meta de R$ 170,5 bilhões para 2016, acomodando despesas extras politicamente lucrativas para o governo, como o apoio do funcionalismo público e de parlamentares?

Nem todos parecem estar fechando os olhos para qualquer decisão de Meirelles e o governo Temer. Conforme apurou o jornal O Estado de S. Paulo, ao menos quatro dos nove ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) têm clara posição de resistência à proposta de devolução antecipada de R$ 100 bilhões por parte do BNDES ao Tesouro. Esses ministros veem a transação como um tipo de “pedalada”.

Vale a pena o mercado ficar tão obcecado com a aprovação da reforma da Previdência e relevar as notícias de bastidores de que o governo Temer está interferindo a favor do deputado afastado Eduardo Cunha para salvar o mandato deste?

Vale a pena a simples repulsa pelo que Dilma representou – pois é o sentimento que transparece – e dar um cheque em branco a Meirelles?

Adiar mais uma vez a convergência da meta de inflação, agora para 2018, não torna essa decisão melhor só porque estaria sendo tomada por Goldfajn sob a batuta de Meirelles e sem o espectro do PT e de Dilma Rousseff.

As declarações de lideranças tucanas para pedir “muita calma nesta hora” em relação ao pedido de prisão da cúpula do PMDB contrastam chocantemente com a postura adotada em relação ao que aconteceu com Delcídio Amaral.

A complacência do mercado está cega. E toda a unanimidade é burra, diria Nelson Rodrigues.

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