A decepção com os núcleos do IPCA

Núcleos do índice divulgado hoje pelo IBGE, que avançaram em relação ao resultado de julho, decepcionaram a quem esperava uma desaceleração mais forte da inflação

Fábio Alves

09 Setembro 2016 | 13h51

A perda de fôlego nos preços de alimentação no IPCA de agosto não foi o suficiente para reforçar a avaliação de que a inflação está desacelerando numa velocidade aquém do esperado.

Os núcleos do índice divulgado hoje pelo IBGE, que avançaram em relação ao resultado de julho, decepcionaram a quem esperava uma desaceleração mais forte da inflação.

Nos cálculos da Votorantim Corretora, conforme relato da repórter Maria Regina Silva, do Projeções Broadcast, a taxa média dos núcleos acelerou para 0,50% no IPCA de agosto, depois de 0,46% em julho.

Na abertura dos núcleos, o IPCA-EX, que exclui do cálculo geral os preços de alimentos com comportamentos mais voláteis e combustíveis, ficou em 0,47%, após 0,34% em julho, segundo a Votorantim Corretora. Já nos cálculos da CM Capital Markets, o IPCA-EX registrou 7,50% no acumulado em 12 meses terminados em agosto, contra 7,34%.

“Os núcleos tendem a ser um reflexo melhor dos números futuros, limpando as distorções no índice, como a alta dos hotéis no Rio em agosto”, explica um renomado economista esta coluna. “Ainda assim, os núcleos do IPCA de agosto me dizem que a desaceleração da inflação ficou aquém do esperado, pois a alta menor da alimentação foi compensada por outros itens.”

Segundo o economista acima, quase todos os itens do IPCA vieram acima do que o esperado, com exceção de alimentos. “As pessoas ficaram menos confiante em relação à aposta de corte de juros em outubro com base no IPCA de agosto, mas será preciso esperar os próximos resultados para afinar a aposta.”

Conforme o IBGE, as diárias de hotel ficaram 11,58% mais caras em agosto. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, sede dos jogos olímpicos, o aumento alcançou 111,23% no mês.

Em nota a clientes hoje, o economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, Neil Shearing, afirma que os indicadores antecedentes sugerem que os preços dos alimentos devem começar a ceder em breve e, assim que isso aconteça, o ritmo de desaceleração pode ser “surpreendentemente” forte . “Mas, por enquanto, não há nada nos dados de inflação que dê suporte a um corte de juros em outubro”, escreve Shearing.

Também em nota a clientes, o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, calcula que o índice de difusão do IPCA aumentou de 59,5% em julho para 63,5% em agosto.

Nos dias que antecederam a divulgação do IPCA de agosto, muitos analistas acabaram focando no desempenho dos preços de alimentos, uma vez que esse foi um dos itens destacados pelo Copom no comunicado que acompanhou a decisão dos juros e também na ata da reunião.

Assim, a leitura que acaba prevalecendo no mercado é a de que o otimismo nesse critério para o início do corte de juros foi turvado pela persistência da alta de preços em vários itens do IPCA.

Ou seja, a inflação segue um padrão dos últimos anos no Brasil: sempre acaba surpreendendo para cima ou ao não ceder no ritmo esperado.

Não à toa que as projeções do IPCA para 2017, no Boletim Focus, seguem acima de 5%. Será preciso ver resultados da inflação corrente consistentemente abaixo do consenso para deflagrar uma confiança maior de analistas e investidores de que os índices de preços entraram na dinâmica desejada pelo Banco Central.