A dívida bruta e o desfecho da crise política

A dívida bruta e o desfecho da crise política

Falta visibilidade sobre qual cenário político vai prevalecer, o que atrapalha as projeções econômicas

Fábio Alves

14 de dezembro de 2015 | 14h39

Cartaz na Av. Paulista (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

Cartaz na Av. Paulista (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

A trajetória da dívida bruta voltou a ser um dos principais foco de preocupação de muitos investidores estrangeiros em relação ao Brasil, muito mais pela falta de visibilidade sobre qual dos seguintes cenários vai prevalecer no curto e médio prazo:

1) A presidente Dilma Rousseff sobrevive ao pedido de impeachment e segue até o fim do seu mandato, em 2018, sem realizar ajustes mais significativos, levando a economia brasileira a derrapar mais ainda;

2) Dilma sobrevive ao impeachment, mas dá uma guinada mais à esquerda, adotando uma política econômica heterodoxa sob as diretrizes de Nelson Barbosa, hoje ministro do Planejamento, para agradar ao PT, que luta para salvar o mandato dela;

3) A presidente sofre o impeachment, assumindo no seu lugar o vice-presidente Michel Temer, porém sem capital político suficiente para aprovar as medidas necessárias de ajuste fiscal e promover um choque de confiança nos agentes econômicos;

4) Dilma sofre o impeachment e Temer assume como um novo presidente politicamente forte, tendo o apoio da oposição para aprovar a correção de rumos necessária ao País.

Para cada um desses cenários, investidores e analistas têm projeções bastante distintas para a trajetória da dívida bruta brasileira.

Num momento em que muitos gestores começam a definir a alocação de recursos nas suas carteiras de mercados emergentes, fica difícil ter premissas para fazer apostas mais substanciais para o Brasil sem traçar com maior visibilidade se o País poderá entrar numa crise de confiança em relação à sua solvência.

“Hoje ninguém tem clareza sobre o que pode acontecer”, comenta um economista brasileiro que trabalha no “buy side” de uma grande instituição financeira em Nova York.

Há pouco, em entrevista exclusiva ao Broadcast, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, admitiu que o crescimento da divida interna “é desconfortável”.

Isso porque atribuir maior ou menor probabilidade a cada um dos cenários acima depende essencialmente do ambiente político. Nesse aspecto, as reviravoltas se sucedem com velocidade impressionante a ponto de que o se observa na parte da manhã já é completamente diferente do que é noticiado pela tarde e até no fim da noite.

Tome-se o caso do impeachment.

No dia seguinte ao acatamento do pedido de impedimento pelo presidente da Câmara dos Deputados, a Bovespa disparou – puxada pelas ações de empresas estatais – e o dólar caiu frente ao real tomado pela euforia em relação a um eventual sucesso desse processo com a queda da presidente Dilma.

Mas essa euforia arrefeceu, especialmente porque o mercado já contabiliza o fator de imprevisibilidade das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), uma vez que o processo de impeachment em todas as suas etapas promete passar pelo crivo do Judiciário.

Também imponderável ao cenário político é o desenrolar das investigações da Lava Jato.

Quem imaginaria que um senador em exercício – Delcídio Amaral – seria preso?

E se a Lava Jato atingir com mais força o PMDB, erodindo o capital político do partido que poderia assumir o poder caso Dilma sofrer o impeachment?

Assim, fica difícil hoje calcular uma premissa tão importante para os preços dos ativos e, em particular, o rating soberano brasileiro como é a trajetória da dívida.

Entre os mais pessimistas, há quem até projete uma dívida bruta de quase 90% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2018, embora uma corrente grande dos analistas considere que esse porcentual fique não muito distante (para mais ou para menos) de 80%, se nada for feito para reduzir os gastos obrigatórios, especialmente com a Previdência.

É um salto grande e veloz se comparado com um patamar um pouco acima de 51% em 2011, primeiro ano do mandato de Dilma.

A questão é que a trajetória da dívida bruta brasileira está assumindo um papel crítico na avaliação sobre o País dos investidores estrangeiros. Até porque aumento forte da dívida pública pode resultar em inflação sempre crescente.

Não dá mais para fugir desse problema, seja quem estiver no comando do País, Dilma ou Temer.

Mais conteúdo sobre:

Dilma Rousseff