A guinada no Ministério da Fazenda

A guinada no Ministério da Fazenda

Se Barbosa suceder Levy na Fazenda, reação do mercado poderá ser negativa

Fábio Alves

18 Dezembro 2015 | 12h50

Três nomes são cotados para suceder Joaquim Levy (FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO)

Três nomes são cotados para suceder Joaquim Levy (FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO)

Nenhum dos três principais candidatos à vaga de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda agrada ao mercado, mas ainda assim a reação dos preços poderá ser maior ou menor dependendo da escolha final da presidente Dilma Rousseff.

Aliás, a recepção mais negativa a qualquer dos nomes cotados na bolsa de apostas tem a ver com a percepção do grau de guinada da política econômica para a heterodoxia.

Ou melhor: quão mais propenso será o novo ministro a liberar gastos, deixando de fazer a poupança necessária para tentar estabilizar a trajetória da dívida bruta, e a dificultar uma política monetária mais dura em relação à inflação e ao controle das expectativas inflacionárias.

Nas últimas 24 horas, circulam no mercado financeiro três nomes para suceder Levy como ministro da Fazenda: o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner; o do Planejamento, Nelson Barbosa; e o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Armando Monteiro.

Dos três, pelo menos o nome de Barbosa deflagraria uma reação negativa imediata ao seu anúncio. Isso porque o mercado já conhece bem o que pensa o ministro do Planejamento e tem a convicção de que, com ele à frente da Fazenda, haveria um retrocesso para uma política adotada no primeiro mandato de Dilma, conhecida como Nova Matriz Econômica.

Wagner e Monteiro seriam percebidos como uma escolha de um nome com cacife político para um Ministério que carece de uma melhor articulação com o Congresso para aprovar medidas de interesse do governo.

Mas tanto Wagner quanto Monteiro seriam uma incógnita para investidores e analistas sobre a magnitude de uma guinada da economia para a heterodoxia.

Com Wagner, a incerteza ainda é maior.

Todavia, a reação do mercado ao seu nome dependerá exclusivamente de quem ele nomear para cargos importantes de segundo e terceiro escalão na Pasta, em especial os secretários do Tesouro e de Política Econômica, além do chefe da Receita Federal.

Custa a crer que Wagner poderia adotar a mesma postura de Antonio Palocci quando ministro da Fazenda, que nomeou um time técnico com respaldo no mercado e com uma postura mais ortodoxa.

Mas é difícil enxergar como o novo ministro da Fazenda poderá recuperar a confiança do mercado dado o retrospecto de intervencionismo da presidente Dilma Rousseff na economia.

Mesmo quando ela tentou mudar o rumo e corrigir os erros do primeiro mandato, com a nomeação de Levy, a presidente recuou e impôs ao ainda ministro da Fazenda várias derrotas.

Sem falar que é improvável o novo ministro conseguir aprovar medidas importantes em um Congresso envolvido em um acirrado processo de impeachment da presidente.

Se a escolha para o cargo for Wagner ou Monteiro e um dos dois traga para o segundo e terceiro escalões da Fazenda nomes alinhados com o PT, a reação será tão negativa quanto ao nome de Barbosa, que o mercado já tem precificado.

Se Wagner ou Monteiro por acaso escolherem nomes com algum respaldo no mercado, poderá até haver um período de trégua, ou de benefício da dúvida na esperança que um dos dois acabe se revelando uma surpresa.

Difícil apostar desde já nesse cenário, tomando-se por base o que o governo Dilma fez na economia desde 2012.

Assim, não seria uma surpresa se o anúncio do novo ministro fosse acompanhado por uma alta do dólar e uma redução das apostas para elevação da taxa Selic no curto prazo, com o mercado precificando 0,50 ponto porcentual de alta na próxima reunião do Copom, marcada para 20 de janeiro.

Isso porque o mercado passará a se perguntar se o Banco Central voltará ao período de cabresto, como era a percepção dos investidores quando Guido Mantega era o ministro da Fazenda.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast, serviço de informações financeiras em tempo real do Grupo Estado

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