A Moody’s ignorada

O mercado julga que a Moody's está atrás da curva em termos de avaliação das condições do Brasil e, por isso, a desvalorização do yuan ofusca a decisão da agência no mercado de ações

Fábio Alves

12 de agosto de 2015 | 12h34

Não foi à toa que a nova desvalorização do yuan pela China ofuscou um eventual impacto positivo do voto de confiança que a agência de rating Moody’s deu ao governo brasileiro, ao revisar a perspectiva (outlook) da nota de classificação de risco soberano de negativa para estável.

Quem, ao olhar o horizonte das contas públicas brasileiras pelos próximos três ou quatro anos, não prevê uma deterioração forte diante de um ajuste fiscal que se esvaiu pelo ralo no Congresso?

Quem, ao projetar uma nova contração do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2016 e uma recuperação mais lenta do que o anteriormente esperado para os próximos anos, não vê uma trajetória desfavorável da relação dívida/PIB?

Assim, o mercado julgou que a Moody’s – mais uma vez – está atrás da curva em termos de avaliação das condições do Brasil como um emissor prestes a perder o status de grau de investimentos.

Num momento tão delicado político e econômico do País, o voto de confiança da Moody’s, apesar de ter cortado a nota brasileira de Baa2 para Baa3, deveria ter sido a notícia preponderante pesando sobre o mercado hoje, se os investidores considerassem que os argumentos apresentados pela agência de rating tivessem sido válidos.

Com isso, a Moody’s segue não fazendo preço no mercado.

Investidores e analistas consideraram que a avaliação feita pela Standard & Poor’s (S&P) sobre o Brasil reflete muito mais a realidade e também está mais próxima do que o próprio mercado julga ser as condições política e econômica do País, como aponta o preço dos contratos de Credit Default Swap (CDS).

Os contratos de 5 anos do CDS do Brasil chegaram a bater hoje 320 pontos-base, embora abaixo do pico registrado no mês, mais ainda bem acima dos níveis negociados por países com rating grau de investimento.

Quando revisou a perspectiva de estável para negativa, no final de julho, a S&P destacou que o Brasil enfrenta desafios políticos e circunstâncias econômicas difíceis, apesar das mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato.

Em teleconferência em Nova York, a principal analista para Brasil da S&P, Lisa Schineller, alertou que uma deterioração adicional da economia brasileira, incluindo a piora de indicadores fiscais e externos, e mesmo uma falta de comprometimento do governo em tocar o ajuste necessário para reequilibrar o país, pode levar o rating soberano do Brasil a ser rebaixado para grau especulativo, ou “junk” no jargão em inglês do mercado financeiro.

Voltando à Moody’s, com a decisão de revisar a perspectiva de negativa para estável, o Brasil ganhou pelo menos um ano até um eventual rebaixamento.

É tempo demasiado que a Moody’s está dando ao Brasil, na visão de alguns interlocutores desta coluna.

Politicamente, o governo Dilma se vê acuado, isolado e se agarrando a qualquer bote salva-vidas.

Não é à toa que a presidente encampou imediatamente o pacote contra crise apresentado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

De antigo desafeto, que chegou a devolver a Medida Provisória sobre a desoneração da folha de pagamento das empresas, Renan passou a ser visto como fonte de salvação.

Assim, não chega a ser irrazoável o ceticismo de muitos investidores e analistas em relação à capacidade política da presidente Dilma terminar o seu mandato, dados os ataques de oposicionistas e até de “aliados” ao seu governo.

São poucos que conseguem ver um plano de ação para retirar a economia de uma equação perversa: contração econômica, inflação alta, confiança deprimida de empresários e consumidores, e baixo investimento.

A exceção parece ser a Moody’s.