A primeira votação do governo Temer

A primeira votação do governo Temer

Uma adesão elevada ao desembarque do PMDB do governo na votação da reunião da Executiva Nacional do partido pode dar mais fôlego ao rali do impeachment nos mercados de ações e dólar

Fábio Alves

28 de março de 2016 | 11h57

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Está embutido nas expectativas do mercado o desembarque do PMDB da base aliada do governo Dilma Rousseff como o desfecho da reunião da Executiva Nacional do partido, marcada para esta terça-feira.

Não à toa o dólar ter começado a semana em queda de 0,53%, ampliando a perda para quase 1% frente ao real na primeira hora de negociação, cotado a R$ 3,646. A Bovespa subia 2,44% logo após a abertura do pregão.

O que influenciará, portanto, o dólar e também as ações negociadas na Bovespa será o porcentual de adesão ao desembarque do governo Dilma, ou seja, quanto mais votos o vice-presidente da República, Michel Temer, conseguir do total de 119 membros do diretório nacional para abandonar a base aliada, maior será o potencial de reação do mercado.

Isso porque uma vitória acachapante do desembarque do governo pelo PMDB, que soma 69 deputados na Câmara, maior será a influência sobre os outros partidos aliados de Dilma que ainda não se decidiram como irão votar no processo de impeachment.

A estratégia do governo é tentar impedir uma debandada pró-impeachment, oferecendo os cargos nos primeiro, segundo e terceiro escalões da administração federal que hoje são detidos por peemedebistas.

Mas quem vai querer trocar apoio por cargos se o cálculo for de um impeachment inevitável? Arriscarão os partidos ainda indecisos a ira do eleitor nas eleições municipais caso decidam permanecer na base aliada de um governo que poderá cair via impeachment?

Na disputa atual pelo apoio crucial na votação na Câmara, o governo corre atrás do PP, PDT, PR e PSD. Partidos nanicos também passaram a ser cortejados, como o PTN. O PRB, por exemplo, anunciou já ter abandonado a base aliada, embora o Palácio do Planalto ainda esteja tentando reverter a decisão.

A Rede Sustentabilidade, da ex-ministra Marina Silva, não anunciou oficialmente sua posição, mas a maioria da bancada do partido na Câmara se mostra favorável ao impeachment.

Assim, a votação do diretório nacional do PMDB amanhã assume uma importância muito além do partido.

Será acompanhada pelas outras legendas não somente para servir de termômetro a um posicionamento sobre a permanência na base aliada, mas, especialmente, para medir o capital político de Michel Temer.

Um endosso inequívoco à articulação de Temer para levar o PMDB a abandonar a presidente Dilma cacifará ainda mais o peemedebista nas suas negociações em costurar alianças e apoio para um eventual governo.

Até partidos oficialmente oposicionistas, como o PSDB, vão monitorar a votação do diretório nacional do PMDB. Ainda apresentando resistência dentro do partido para um eventual governo Temer, os tucanos mais alinhados com o peemedebista – como o senador José Serra – podem ganhar mais cacife para levar o PSDB mais próximo do vice-presidente da República.

Nesse sentido, a votação de amanhã do diretório nacional do PMDB ganha ares de primeiro teste de um governo Temer – quão forte e quão capaz de fazer articulações e aglutinar apoio.

Se Temer nem conseguir passar com louvor neste primeiro teste, no âmbito de seu próprio partido, como esperar que um eventual governo dele possa ter um desempenho melhor do que o de Dilma nas votações de medidas econômicas importantes no Congresso?

Por enquanto, resta a dúvida sobre se Temer conseguiu cooptar lideranças de peso no PMDB, em particular o presidente do senado, Renan Calheiros, que ora faz declarações a favor do impeachment, ora contra.

Outros expoentes peemedebistas, como o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, se mostraram contra o afastamento do partido da base aliada.

Mas é a palavra de Renan Calheiros que terá mais peso sobre os correligionários e também sobre o mercado financeiro.

Se o presidente do Senado estiver fazendo ou não articulação nos bastidores contra o desembarque do PMDB do governo, a votação do diretório nacional amanhã será a oportunidade de mostrar em qual lado pende Renan Calheiros.

Uma adesão elevada ao desembarque pode dar mais fôlego ao rali do impeachment.

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