A renúncia e as feridas de Dilma

Fábio Alves

18 de agosto de 2015 | 13h19

O cenário mais otimista de vários investidores estrangeiros para o Brasil até o fim do mandato da presidente Dilma Rousseff é que a economia brasileira “muddle through” até dezembro de 2018, ou seja, vá sobrevivendo aos trancos e barrancos.

Mas a pressão sobre a presidente não cede desde que teve início o seu segundo mandato e põe em risco até o cenário de “muddle-through”.

Com reprovação recorde do seu governo e popularidade em baixa histórica, Dilma está acuada ora por ameaças de impeachment, ora por pedidos de que renuncie.

As declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que a renúncia de Dilma seria “um gesto de grandeza”, deram um peso muito maior à pressão para que a presidente não acabe seu mandato – voluntária ou involuntariamente.

Mas a pergunta que fica é da minha cabeleireira: “Quem é que vai consertar tudo isso?”. Ao que ela rematou: “Ainda temos três anos desse governo”.

Dilma e seus aliados – os de verdade, diga-se aqui – criticam o tom golpista dos que pedem impeachment ou renúncia.

A presidente já disse claramente, em entrevista à imprensa, que renunciar não faz parte do seu DNA e que já aguentou na vida tranco muito maior do que as pressões atuais sobre o seu governo.

Ela arma uma contraofensiva, via acordão com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para neutralizar a sua maior ameaça de impeachment: o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), agora desafeto público do governo.

Além disso, planeja uma estratégia de viagens para reconquistar parte do eleitorado no Nordeste, reduto tradicional do PT.

Mas o que a presidente ainda não se convenceu é que o Brasil não vai curar as feridas da recessão, do ajuste fiscal e da ressaca moral com a corrupção desencavada pela Operação Lava Jato, enquanto Dilma não admitir os erros cometidos no seu primeiro mandato e também pela acusação de “estelionato eleitoral”.

É essa acusação de que mentiu desabridamente para o eleitor brasileiro a fim de se reeleger que está alimentando os panelaços e os protestos de 2015.

É uma ferida que parece não ter como cicatrizar na sociedade brasileira.

Isso empurra mais ainda para baixo seus índices de aprovação, impede o endosso dos eleitores ao ajuste fiscal tão necessário e solapa a confiança de consumidores e empresários.

No início da crise econômica, já em 2014, a percepção era de que a economia estava contaminando o ambiente político, o que dificultou a reeleição de Dilma.

Agora não, o ambiente político – e a participação popular, via manifestações, tomou um assento dianteiro – está não somente contaminando o cenário econômico, como também é um entrave para qualquer aspiração à recuperação da atividade econômica.

Terá a presidente Dilma a capacidade para lidar com a acusação de estelionato eleitoral que convença a sociedade brasileira?

Até agora nem ela nem ninguém mais do governo ou do PT conseguiram isso.

Os eleitores simplesmente não compraram as explicações de Dilma.

As pesquisas de opinião estão aí para provar isso.

Antes de tentar recuperar a economia – e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ao contrário do que se pensava quando foi nomeado, não é capaz de fazer milagre – ou a sua base de apoio no Congresso, a presidente precisa se reconciliar com o País.

Para isso, precisa ter um diálogo que a sociedade perceba como honesto da sua parte.

Precisa deixar sua postura defensiva e se explicar.

Para a maioria dos eleitores, Dilma cometeu, sim, estelionato eleitoral.

Ela pode espernear, acusar de golpe, chamar seus interlocutores condescendentemente de “meu querido” ou “minha querida”, mas, sem se explicar honestamente, dificilmente a economia brasileira conseguirá “muddle through” – ou sobreviver – até o fim de 2018.

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