A surpresa da inflação no curto prazo

Não seria uma surpresa se, por exemplo, a mediana das estimativas para o IPCA de 2016 convergisse para o patamar de 7% nas próximas semanas

Fábio Alves

05 de janeiro de 2016 | 12h21

As projeções para o IPCA de 2016, contidas na última pesquisa Focus, ainda não refletem um certo grau de surpresa com a magnitude dos reajustes de tarifas públicas e do salário mínimo na virada do ano.

A mediana das estimativas para a inflação deste ano ficou em 6,87%, enquanto o Top 5 (o grupo de analistas que mais acertam a projeção para esse indicador) de médio prazo indica um IPCA de 7,44% em 2016. Já a previsão para a alta dos preços administrados neste ano permaneceu em 7,50% pela segunda semana consecutiva, justamente o período que cobre os feriados de fim de ano.

Provavelmente, o retorno das férias de vários analistas deverá provocar uma sintonia fina nas projeções para o IPCA deste ano e também para a alta dos preços administrados. Até porque os analistas vão ter à disposição um escopo melhor de informações sobre os reajustes de preços de bens e serviços no início de 2016.

Não seria uma surpresa se, por exemplo, a mediana das estimativas para o IPCA de 2016 convergisse para o patamar de 7% nas próximas semanas.

Por ser um ano de eleições municipais, alguns analistas chegaram até a duvidar se os reajustes de tarifas do transporte público iriam ocorrer, ou, em acontecendo, num porcentual de aumento menor do que efetivamente foi anunciado.

Em São Paulo, região com maior peso no índice oficial de inflação, as tarifas de ônibus, trem e metrô passaram de R$ 3,50 para R$ 3,80, alta de 8,57%. No Rio, o ônibus aumentou de R$ 3,40 para R$ 3,80, avanço de 11,7%. Belo Horizonte teve alta de 8,82% na tarifa de ônibus, de R$ 3,40 para R$ 3,70, no dia 3. Em Salvador, o valor subiu 10% no dia 2, de R$ 3 para R$ 3,30.

Por outro lado, o salário mínimo foi reajustado em 11,67%, sendo 11,57% referente à inflação projetada pelo governo para o acumulado do ano – 10,28% de janeiro a novembro mais 1,16% previsto para dezembro -, somados ao crescimento de 0,10% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014. Esse porcentual da estimativa para inflação do mês de dezembro ficou perto do teto das projeções dos analistas para o mês.

Além do efeito prático do aumento do salário mínimo sobre o IPCA, via o peso direto e indireto dos empregados domésticos e de outros serviços com a estrutura de remuneração baseada no piso dos salários no índice de inflação, haverá o impacto psicológico de um reajuste maior do que o aprovado pelo Congresso anteriormente.

Ou seja, ficou a percepção de que a presidente Dilma Rousseff deu um reajuste maior do salário mínimo do que poderia ou deveria, podendo provocar um aumento dos prêmios de risco, com efeito até sobre o câmbio.

Esse eventual impacto psicológico negativo poderá ser sancionado ou não pelo comportamento do Banco Central na próxima reunião do Copom, marcada para o dia 20 deste mês. Se o BC surpreender e mantiver os juros inalterados em 14,25%, o efeito sobre as expectativas inflacionárias será imediato no sentido de desancoragem.

Há, no entanto, fatores que podem até compensar um pouco a pressão sobre os preços administrados, mais especificamente o regime de chuvas e a queda do consumo de energia elétrica. Isso poderá levar a uma mudança na bandeira tarifária da cor vermelha (a mais cara) para a amarela, aliviando um pouco os reajustes de eletricidade sobre a inflação.

De todo modo, as projeções para o IPCA na pesquisa Focus podem se mover para cima nas próximas semanas à medida que os analistas incorporarem um certo grau de surpresa com a magnitude dos reajustes recentes de preços importantes para os índices de inflação.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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