A surpresa no Copom é culpa de quem?

Dois participantes do Comitê votaram por subir a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual enquanto a maioria preferiu mantê-la inalterada

Fábio Alves

03 de março de 2016 | 10h38

A surpresa na decisão do Copom veio na forma dos votos de seus diretores: dois participantes do Comitê votaram por subir a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual enquanto a maioria preferiu mantê-la inalterada.

Uma corrente do mercado vinha apostando num voto unânime do Copom como um recado para investidores e analistas de que o próximo passo da política monetária seria um corte dos juros básicos, possivelmente em meados deste ano.

Muitos participantes colocaram a mão no fogo numa votação unânime. E mais uma vez foram pegos no contrapé. A culpa não é deles, mas do BC.

Essa aposta de voto unânime foi talvez alimentada pela interpretação do mercado de que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tenha enfatizado em suas falas recentes a expectativa sobre o peso que uma queda substancial na inflação corrente teria nas projeções inflacionárias, como reflexo dos efeitos da recessão na economia. Tal aposta a despeito de os diretores dissidentes não terem vindo a público sinalizar que poderiam mudar de opinião, nem em notícias de bastidores.

Apesar de um leve recuo, as expectativas inflacionárias contidas no último boletim Focus, do BC, seguem longe do confortável. Para 2016, a mediana das estimativas aponta um IPCA de 7,57%. Para 2017, a projeção é de 6%.

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Mercado avalia se o BC irá cortar juro para tentar estimular a economia

O que se põe agora para avaliar se realmente o BC irá cortar a taxa Selic ainda neste ano, numa tentativa de aliviar o tamanho da recessão, é como a autoridade monetária discorrerá sobre o papel da inflação corrente versus o nível da atividade econômica versus a contribuição da política fiscal.

Isso porque o Brasil vem em recessão desde 2015, quando o PIB registrou queda de 3,8%, a maior em 25 anos, puxada pelo recuo de 4% no consumo das famílias, segundo o IBGE informou hoje.

Se em 2015, o vilão da inflação foram os preços administrados, sem que a queda na demanda tivesse produzido um efeito compensatório na inflação de serviços, em 2016 a inflação corrente segue surpreendendo para cima.

Ou seja, até quando o BC vai se apoiar na aposta de que a recessão terá um efeito preponderante para trazer a inflação numa trajetória limitada à meta e não seguirá surpreendendo para cima?

Não seria prudente focar na contribuição da política fiscal como âncora para as expectativas inflacionárias, mesmo que esse fator não esteja no controle do BC?

Enquanto o BC não discutir nos seus documentos, como a ata do Copom, com mais clareza e honestidade o peso dos resultados fiscais sobre as expectativas inflacionárias, as decisões sobre a taxa Selic vão seguir surpreendendo o mercado de alguma forma.

Por que os investidores e analistas apostaram pesadamente num voto unânime do Copom ontem?

Porque de alguma forma a sinalização do BC levou o mercado a isso.

Assim, as decisões de política monetária vão sempre estar envoltas em ruídos – com espaço para perdas de quem se posicionar tão peremptoriamente com base no que dizem os diretores do BC – enquanto a instituição não abordar com maior profundidade, clareza e detalhes aquilo que, de fato, vem afetando as expectativas inflacionárias: a política fiscal.

Para muitos interlocutores, esse é um debate que talvez o BC não esteja preparado para ter, uma vez que uma análise transparente da situação fiscal seja politicamente embaraçosa para o governo Dilma Rousseff.

O que Tombini e os outros diretores do BC deveriam se perguntar é por que, desde 2011, é tão elevado o nível de erro dos analistas sobre o desfecho total das reuniões do Copom – quer seja sobre a direção dos juros em si (alta, corte ou manutenção), o teor do comunicado ou os votos sobre a decisão.

Assim, o mercado poderá até se iludir nas explicações e sinalizações da ata do Copom ou do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), mas se apostar pesado no que diz o BC, o risco é de sofrer perdas nas suas posições.

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